Crítica | ‘Tigre de Papel’ é um prático drama criminal que foca mais na forma que no conteúdo

Em sua carreira, James Gray sempre demonstrou um apreço significativo por produções dramáticas em sua totalidade, explorando a complexidade da psique humana através de narrativas diversas que tiveram como foco um interessante e ousado estudo de personagens. Desde sua estreia oficial em 1994 com o longa ‘Fuga para Odessa’, passando por títulos como o drama de época ‘Era Uma Vez em Nova York’ (2013) e pelo sci-fi psicológico ‘Ad Astra: Rumo às Estrelas’ (2016), Gray mostrou-se disposto a trazer a melancolia como força-motriz de potentes construções que ajudaram a firmar uma identidade única e bastante conhecida no cenário da sétima arte. E, este ano, ele retornou com o drama criminal ‘Tigre de Papel’, que nos levou ao vibrante e controverso universo da máfia russa.

Com lançamento nos cinemas nacionais agendado para o dia 7 de janeiro de 2027, o filme nos leva à urgente Nova York dos anos 1980 e nos apresenta a Irwin (Miles Teller) e Hester Pearl (Scarlett Johansson), um casal que mora no bairro do Queens juntamente aos filhos Scott (Gavin Goudey) e Ben (Roman Engel). Em uma determinada noite, a família recebe a visita do irmão mais velho de Irwin, Gary (Adam Driver), que acabou de voltar de uma viagem e tem uma proposta potencialmente lucrativa: ajudar uma empreiteira russa a limpar um dos principais pontos da cidade em troca de uma bolada inimaginável e que pode mudar a vida de todos.

A princípio relutante, Irwin, que é um habilidoso engenheiro, resolve ajudar o irmão – um ex-policial que ainda possui todos os contatos necessários para garantir que o negócio prospere. Entretanto, as coisas tomam um rumo sombrio quando Irwin resolve levar os filhos em uma espécie de “patrulha noturna” para averiguar o espaço que será restaurado e, acidentalmente, é arrastado para uma artimanha da máfia russa e é ameaçado por um perigoso chefão conhecido como Simeon Bogoyavich (Victor Ptak), que começa a chantagear Irwin e Gary, transformando a vida dos irmãos em uma corrida pela sobrevivência e despertando antigas rixas que escalam a níveis estratosféricos ao passo que tentam reverter a situação.

A ideia por trás de ‘Tigre de Papel’ é muito interessante, desde a concepção do título à forma como Gray comanda o longa-metragem. A máxima chinesa se refere a uma pessoa ou a uma organização que posa como uma ameaça apenas no exterior, mas que, na verdade, não tem qualquer efeito ou impacto palpável (ou seja, é tão frágil quanto uma folha de papel). E, através de quase duas horas, o realizador deixa claro que cada um dos personagens irrompe em atitudes “assustadoras”, talvez como forma de reafirmar um poder que não lhes pertence, porém, que se esvaem quando confrontadas por um poder expressivamente maior. No geral, essas construções funcionam, por mais que algumas sequências valham mais a pena pelo caráter estético do que pelo conteúdo que apresentam ao público.

Gray tem um tato incomparável para garantir que a atmosfera e os arcos dos personagens convirjam para um ponto em comum – e ele faz isso transformando o projeto não só em um drama de época, mas rompendo os limites cronológicos e fazendo questão de emular nomes como Brian De Palma e Sérgio Leone para reafirmar uma sinestesia fílmica que é própria de suas incursões. Dessa maneira, ao nos transportar por completo aos anos 1980, ele mergulha numa clássica e contemplativa sobriedade que fornece densidade ao enredo e ao inesperado tour-de-force a que os protagonistas são ameaçados. Entretanto, ao canalizar mais esforços ao visual, o cineasta se esquece de aparar os excessos e os convencionalismos do roteiro.

É notável como o diretor escalou um elenco de peso para encabeçar esse drama de máfia e, em meio a alguns diálogos formulaicos e previsíveis – e uma inclinação crítica à questão migratória que não tem qualquer espaço de exploração no longa -, são os atores que puxam as rédeas com mãos firmes para nos guiar nessa jornada. Driver, em todo seu excêntrico charme, tem espaço de sobra para esquadrinhar a complicada personalidade de Gary, enquanto Johansson volta a se reafirmar como uma das maiores atrizes de sua geração ao encarnar o conhecido arquétipo ítalo-americano dos anos 1980, metamorfoseando-se cena a cena (ainda que a subtrama envolvendo Hester não tenha muito peso para a obra). Teller, mesmo se afastando de outras performances de sua filmografia, eventualmente é engolido pelo trabalho mais primoroso de seus colegas de cena.

‘Tigre de Papel’ é um drama de máfia funcional e que captura a essência de incontáveis produções similares, principalmente quando voltamos nossa atenção aos títulos lançados nos anos 1980 e 1990. Por vezes apostando mais fichas na forma em vez do conteúdo, o novo projeto de James Gray traz às telonas todos os elementos criminais que foram eternizados na sétima arte e se beneficia mais do talento de um formidável elenco do que das tentativas de apresentar algo de novo aos espectadores.

 

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.