Crítica | Jim Queen – Vírus Hétero Contamina as LGBTQIA+ em Ótima e Bem-humorada Animação [Festival do Rio]

As comunidades que compõem a bandeira do arco-íris são muitas e cada vez mais plurais. Agora, o que aconteceria com o mundo se, da noite para o dia, um vírus terrível começasse a assolar a humanidade? Sim, nós vivemos isso recentemente com o covid, mas esse vírus poderia ser qualquer coisa, inclusive uma mutação que tornasse todas as pessoas LGBTQIA+ em… heterossexuais. Esse é o mote de ‘Jim Queen’, animação francesa que teve sessões mega especiais no Festival do Rio e chega ao circuito exibidor nacional a partir de 19 de novembro próximo.

Jim Perfeito (na voz original de Alex Ramirès) é o ídolo top top das redes e das academias. Suas postagens com dicas de treinos, publis e seu corpo perfeito atraem milhões de seguidores, inclusive Lucién (Jérémy Gillet), um jovem franzino e isolado, filho de Christine Bayer (Elisabeth Wiener), a ministra da Saúde. Tudo está perfeitamente bem na vida de Jim Perfeito, até que, às vésperas de uma importante competição, ele percebe um defeito: alguns de seus gominhos do seu abdome estão falhando. Pior ainda: em pouco tempo, mais imperfeições aparecem. É que um terrível vírus passa a assolar a comunidade LGBTQIA+ e está transformando todo mundo em… heterossexual! Para evitar esse fim desastroso, Jim Perfeito e Lucién irão em busca da cura hetero, custe o que custar.

Com um tom super bem-humorado, mas nem por isso deixando de ser crítico, ‘Jim Queen’ foi uma das melhores exibições no Festival do Rio e é um alívio saber que será distribuído no Brasil – até porque na França ele se tornou um dos filmes mais assistidos, com quase um milhão de espectadores.

O traço em 2D se aproxima às técnicas do início dos anos 2000, com formas mais arredondadas e olhos grandes para ajudar a construir a expressão dos personagens. Outra escolha que ajuda a reforçar a identidade visual de ‘Jim Queen’ é o excesso de contraste de cores – tudo é muito colorido, seja em tons mais amenos, seja em tons mais fortes. Com um mundo tão brilhante assim, fica fácil identificar que quando entra a heteronormatividade, entra também a padronização das cores, e o mundo perde sua atividade.

É claro que aqui e ali há excessos no roteiro de Simon Balteaux, Marco Nguyen e Nicolas Athané, mas até mesmo aí as escolhas fazem sentido, afinal, brincar com o vírus da heteronormatividade é fácil, difícil mesmo é viver num mundo que fala abertamente sobre uma ideia de cura gay – e nem é na ficção. Os excessos aqui servem para pontuar os absurdos do totalitarismo que se esconde atrás de boas intenções para não revelar suas verdadeiras intenções. Com o mundo vivendo a ascensão da extrema direita e regimes totalitários na última década, fazer o uso do humor para falar de assuntos seríssimos é de extrema coragem.

Mas também Nicolas Athané e Marco Nguyen não se furtam de apontar os problemas dentro da própria comunidade, principalmente sobre a falta de união entre as letras da sigla. Enquanto os grupos disputam entre si dentro do espaço reduzido que ocupam, os extremistas aproveitam esse enfraquecimento para se fortalecer. Em ‘Jim Queen’ fica evidente que é preciso estar atento, forte e unido, pois diferenças pessoais são saudáveis e não podem, nunca, se sobrepor ao direito coletivo de existir.

Sensível, engraçado, chocante e até mesmo didático, ‘Jim Queen’ é uma animação surpreendente que vai além do nicho arco-íris, além da França e ainda é generoso o suficiente para explicar todos os termos, todas as siglas, todos os trejeitos para o público que não é do babado. Pode até ser indicado os Oscar de Melhor Animação, já que causou furor no Festival de Cannes, onde estreou esse ano. Um filme que, através da diversão, estimula a reflexão e consciência crítica. E ainda termina no Brasil! Imperdível!

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Janda Montenegro
Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.