No início da programação do Festival do Rio 2026, foi exibido um documentário que nos convida a conhecer o reencontro de um cineasta, nascido e criado em um famoso bairro do Rio de Janeiro, com as memórias de infância. A obra vai ao encontro daquilo que não se apaga dentro de nós: a nossa própria história. Abordando lembranças pelo antes e depois por meio de depoimentos de uma turma de um colégio público que se reúne décadas mais tarde, Turma 101 coloca o cineasta Wagner Novais como um diretor-personagem, abrindo o baú de saudade de sua própria trajetória em um projeto que surgiu em 2015 e que, pouco mais de uma década de depois, chega às telas.

Com uma rápida, mas eficiente, contextualização, sobre a história de um lugar, a Cidade de Deus, famoso bairro do Rio de Janeiro, o filme relembra como o local foi construído como um conjunto habitacional a partir da remoção de pessoas de outras comunidades em áreas valorizadas. Essas famílias pobres foram deslocadas para lá sob falsas promessas, em um caso evidente de segregação social. Com os próprios moradores conseguindo se estruturar ao longo do tempo da maneira como era possível, o bairro ficou marcado, até hoje, pela violência. No entanto, esse lugar abriga histórias de afeto e resistência, de trabalhadores e trabalhadoras que construíram suas famílias e buscaram, da melhor forma, criar seus filhos deixando possibilidades para o futuro.

Sem deixar de mencionar a fé e a ancestralidade logo no abre-alas do filme, vamos conhecendo um homem em busca de respostas sobre sua turma da primeira série do ensino fundamental, a partir de memórias espaçadas e de uma foto emblemática. Wagner, que nasceu e foi criado na Cidade de Deus, estudou na escola municipal Leila Barcellos de Carvalho, um lugar que até hoje existe e que, ao longo do tempo, se mostrou fundamental para a primeira formação de muitas pessoas moradoras do bairro.

Identificando algumas pessoas na foto que possui, ele vai atrás de encontrar esses amigos – e agora personagens. Entre os sorrisos de histórias lembradas da infância e a emoção diante do choque de realidade que atravessou muitas dessas pessoas, marcadas por realidades difíceis e pela violência, vamos vendo ser resgatado o antes como força do agora.
Em cerca de 70 minutos de projeção, com uma narrativa que nunca foge do ponto central do discurso, Turma 101 mergulha pelos reencontros e chega à profundas reflexões, unindo o passado e o presente, mostrando em toda estrada, a educação é um pilar fundamental, um primeiro passo para o nascimento dos sonhos. Simbolizando isso, temos a Tia Neide, a professora da turma, pessoa fundamental na vida de cada criança que passou por aquele lugar.

Esse belo documentário deve chegar em breve aos cinemas. Um filme que, a partir de um resgate de memórias, nos faz olhar pra dentro de nossas próprias histórias.


