‘A Colisão dos Destinos’: Documentário sobre Bolsonaro não abre no TOP 10 das bilheterias

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Destaque'A Colisão dos Destinos': Documentário sobre Bolsonaro não abre no TOP 10 das bilheterias

O documentário ‘A Colisão dos Destinos’, centrado na trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro, chegou aos cinemas brasileiros na quinta-feira (14) cercado de expectativa entre apoiadores, mas teve um início discreto nas bilheterias. Mesmo com exibições espalhadas por diferentes estados do país e sessões em cidades do Distrito Federal, Sudeste, Sul e Nordeste, o longa registrou baixa ocupação nas primeiras sessões, com cinemas exibindo fileiras praticamente vazias.

Dirigido por Doriel Francisco e produzido com envolvimento do ex-secretário especial da Cultura Mario Frias, o documentário aposta em uma abordagem totalmente favorável ao ex-presidente, construindo uma narrativa emocional e heroica sobre sua vida pessoal e trajetória política. Com cerca de 70 minutos, a produção se vende como uma ‘história não contada’ de Bolsonaro, revisitando momentos de sua infância, carreira militar, ascensão política e passagem pelo Palácio do Planalto.

O roteiro, assinado por Doriel Francisco e William Alves, conta ainda com argumento atribuído a Eduardo Bolsonaro e Mario Frias. Ao longo do filme, a narrativa é conduzida principalmente por depoimentos de familiares, aliados e integrantes do núcleo bolsonarista, incluindo nomes como Nikolas Ferreira, Hélio Lopes e o senador Flávio Bolsonaro.

No fim de semana, ‘O Diabo veste Prada 2‘ voltou a liderar as bilheterias e arrecadou R$ 18,3 milhões de reais.

Confira o TOP 10 das bilheterias de 14 a 17:

filmerenda (R$)
1O Diabo veste Prada 218.310.000
2Michael15.952.000
3Mortal Kombat 23.377.000
4Obsessão2.291.000
5Super Mario Galaxy: O filme1.577.000
6Na zona cinzenta585.000
7Authentic games – No Império Desconectado535.000
8O Gênio do crime359.000
9Top Gun – Ases Indomáveis (1986)349.000
10Top Gun – Maverick292.000

 

Sem espaço para contrapontos ou entrevistas com críticos do ex-presidente, o longa evita temas que marcaram fortemente os últimos anos da política brasileira. A derrota de Bolsonaro nas eleições de 2022, por exemplo, não é sequer mencionada. Também ficam de fora as investigações relacionadas à tentativa de golpe de Estado e os processos judiciais posteriores envolvendo o ex-presidente.

Durante o trecho dedicado à pandemia de Covid-19, o documentário reforça o discurso de aliados políticos em defesa da condução do governo federal. Em uma das falas presentes na produção, Hélio Lopes afirma que Bolsonaro ‘não errou uma’ durante a crise sanitária. O filme, porém, ignora completamente o relatório final da CPI da Covid, que recomendou o indiciamento do ex-presidente em 2021.

A estreia do filme também acontece em meio à repercussão de uma reportagem do Intercept Brasil, que revelou conversas envolvendo Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro sobre a captação de recursos para ‘Dark Horse’, outro projeto cinematográfico inspirado na vida do ex-presidente — desta vez uma produção de ficção estrelada por Jim Caviezel.

As gravações de ‘Dark Horse’, longa-metragem que se propõe a retratar a trajetória do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro, foram marcadas por um clima de extrema tensão nos bastidores. O estopim dos conflitos residiu em uma severa polarização política dentro do próprio set: enquanto o roteirista Mário Frias e o diretor norte-americano Cyrus Nowrasteh são figuras alinhadas à extrema-direita, a maior parte da equipe técnica e de produção se identificava com posições de esquerda.

De acordo com uma reportagem publicada pelo jornal O Globo, as diretrizes ideológicas foram impostas logo no início dos trabalhos. A liderança do projeto determinou que os funcionários evitassem o uso de roupas de cor vermelha ou qualquer vestimenta que fizesse alusão a movimentos sociais, como o MST.

No entanto, à medida que as filmagens avançavam, os técnicos passaram a se incomodar com os adereços da própria chefia, que frequentemente exibia bonés e roupas com a bandeira dos Estados Unidos estampada junto a fuzis.

Um integrante da produção relatou o impasse ao jornal: “A gente concordava em não usar vermelho, mas pedimos que eles também não usassem aquilo”.

Os relatos apontam que muitos profissionais do setor audiovisual resistiram a aceitar o trabalho devido ao teor político da obra. A adesão de parte da equipe técnica teria ocorrido principalmente pela oferta de cachês significativamente acima da média praticada no mercado nacional.

O envolvimento no projeto, contudo, cobrou um preço profissional para alguns. Uma das participantes chegou a perder um contrato em outra produção após os novos contratantes descobrirem que ela integrava a equipe de ‘Dark Horse’. Um colega de set relembrou o episódio: “Ela chorou no set”.

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O ápice do antagonismo político entre a equipe e a direção do filme ocorreu no chamado “dia do rolo 100”. No jargão cinematográfico tradicional, celebra-se o momento em que as gravações atingem o centésimo rolo de película, uma convenção mantida na era digital para a marca de 100 cartões de memória preenchidos.

Embora o clima pesado desanimasse os técnicos para qualquer festividade, a chefia comprou garrafas de champanhe e insistiu em manter a comemoração. Por uma ironia do destino, o “rolo 100” foi alcançado exatamente no dia 22 de novembro de 2025, data em que foi efetuada a prisão de Jair Bolsonaro.

O resultado foi um cenário de reações opostas no set: a equipe técnica abriu as bebidas e celebrou de forma expansiva, utilizando a justificativa técnica da tradição do cinema, enquanto Mário Frias e o núcleo conservador da liderança lamentavam a notícia nos bastidores.

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Outro ponto que chamou a atenção foi o orçamento do longa. A produção foi integralmente patrocinada pelo ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, que posteriormente foi preso sob acusações de lavagem de dinheiro, corrupção, organização criminosa, táticas de intimidação e coerção.

A reportagem destaca que o volume de capital disponível transformou o set de filmagens em uma estrutura raramente vista no Brasil. De acordo com a apuração da colunista Malu Gaspar, ao menos R$ 62 milhões de Vorcaro foram repassados para custear o longa.

O montante supera com folga o orçamento de grandes produções nacionais de prestígio internacional, como ‘Ainda Estou Aqui’ (R$ 45 milhões) e ‘O Agente Secreto’ (R$ 28 milhões). Um funcionário resumiu o fluxo financeiro: “Em Dark Horse, era dinheiro para todo lado”.

Graças ao grande orçamento  as filmagens se estenderam por cerca de dez semanas, um período considerado longo até mesmo para séries de TV com múltiplos episódios. Um profissional detalhou o ritmo lento e meticuloso dos trabalhos: “Tudo era filmado com calma, a gente filmava três páginas de roteiro por dia, quando o normal no cinema é cinco ou seis”.

A opulência técnica e estrutural do projeto chamou a atenção do setor:

  • Figuração massiva: Presença constante de 250 a 300 figurantes na maioria das diárias.
  • Equipamento de ponta: Utilização fixa de pelo menos três equipes de câmeras simultâneas (chegando a cinco em dias específicos), equipadas com maquinários sofisticados, incluindo gruas robóticas da marca Scorpio.
  • Logística de elenco: Os atores norte-americanos escalados para o projeto, como o protagonista Jim Caviezel e Esai Morales, dispunham de trailers de apoio individuais, cumprindo exigências estritas de seus sindicatos de origem.
  • Uso de Stand-ins: Contratação de profissionais com as mesmas características físicas dos astros internacionais apenas para servirem de modelo nos ensaios de iluminação e posicionamento de câmera enquanto os atores se preparavam, um recurso considerado de luxo nas produções filmadas em solo brasileiro.

Jair Bolsonaro, que presidiu o Brasil entre 2019 e 2023, cumpre atualmente uma pena de 27 anos de prisão sob a acusação de liderar uma conspiração para impedir a posse de seu rival, Luiz Inácio Lula da Silva — acusações que são contestadas por seus aliados.

“Inspirado em fatos reais, Dark Horse acompanha Jair Bolsonaro, um controverso outsider que ascende de obscuro capitão do Exército a favorito populista à presidência em um Brasil profundamente polarizado, apenas para enfrentar uma tentativa mortal de assassinato que transforma sua luta contra um sistema corrupto em uma batalha por sobrevivência, verdade e pela alma de uma nação”, diz a sinopse.

O lançamento global de ‘Dark Horse’ nos cinemas está previsto para o dia 11 de setembro de 2026.

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O longa é estrelado por Jim Caviezel (‘A Paixão de Cristo’), além de Esai Morales (‘Missão: Impossível – O Acerto Final‘), Lynn Collins (‘John Carter – Entre Dois Mundos‘) e Felipe Folgosi.

Cyrus Nowrasteh assume a cadeira de direção. Mário Frias, Secretário Especial da Cultura durante a gestão Bolsonaro, ficou responsável pelo roteiro.

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Renato Marafon Editor-Chefe
Jornalista formado, influencer, crítico de cinema e editor-chefe do CinePOP.

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