Tradicionalmente filmes do gênero aproveitam do fantástico para abordar o real

Previsto para estrear em outubro de 2020, data que pode sofrer alteração devido ao cenário pandêmico, o remake de O Mistério de Candyman dirigido por Nia DaCosta promete fazer justiça ao material original de 1992 no quesito de estar ligado a temas sociais. Na primeira versão, dirigida por Bernard Rose, muito do clima de suspense construído estava intimamente ligado ao ambiente segregado de determinada região de Chicago. A tensão nascia justamente do choque de realidades entre uma protagonista oriunda de uma localidade mais bem desenvolvida e os moradores desse bairro. O próprio Candyman é essa figura folclórica nascida nesse meio.

Por contar com a produção de Jordan Peele, diretor de Corra! e Nós, nada mais justo que a reimaginação recupere o ar crítico que tanto marcou o filme original. Da mesma forma que as duas obras mencionadas previamente tiveram uma ótima percepção quanto ao contexto social em que foram feitas, a ideia de Candyman, apesar de correr por uma vertente fantástica, não se distancia do estilo que Peele tem tentado atrelar a filmes com seu nome.


O mistério de Candyman é um dos melhores filmes de terror da década de 90

Este é um exemplar de como o gênero do terror\suspense comumente se utiliza de suas próprias características para trabalhar temas bastante sensíveis aos tempos que as películas são produzidas. Essa característica, porém, não é um fenômeno recente e de maneira marota sempre se aproveitou da visão negativa que muitos dos grandes nomes do cinema (a Academia do Oscar em especial) cultivaram do gênero para cutucar temas bastante sensíveis.

Em seu livro Dança Macabra, o escritor Stephen King estabelece que a relação do gênero terror com a realidade sempre foi muito próxima devido ao elemento fantasia. “Se os filmes de terror tem um mérito social que os redima , isso se dá graças à sua habilidade de formar elos entre o real e o irreal – de fornecer subtextos. E em função de seu apelo às massas, esses subtextos assumem frequentemente uma dimensão cultural”.

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Século XX, Guerra Fria e sexualidade

A partir dos anos cinquenta o cinema de terror assumiu características muito interessantes quanto a possibilidade dos diretores exercerem olhares críticos ao mundo. A guerra fria regia a pauta da política externa e doméstica de muitos países, tanto no ocidente quanto oriente. Em solo norte-americano, por exemplo, ocorreu durante os anos cinquenta o movimento conhecido como Macarthismo (período pautado pela ação de comissões investigativas visando desmantelar movimentos e indivíduos ligados ao governo soviético. Elas eram lideradas pelo senador Joseph McCarthy) que levou à prisão ou difamação de muitos nomes conhecidos.

Em 1956 o diretor Don Siegel lançou o filme Invasores de Corpos, um suspense\terror onde uma espécie alienígena está se apossando de corpos humanos e se infiltrando em todos os níveis da sociedade. Como consequência, os protagonistas acabam por não saber em quem confiar e o sentimento de paranoia impera.

No decorrer dos anos que viriam, Invasores de Corpos teria interpretações diversas a respeito do que a obra quis realmente dizer. Por muito tempo interpretou-se que o filme era uma metáfora ao período Macartista e à paranoia comunista como um todo que assolava o país, comumente representada em vídeos governamentais alertando para a presença de espiões comunistas nos subúrbios

Ninguém é confiável em “Os Invasores de Corpos

Em seu artigo publicado em 2014 no Guardian, John Patterson afirma que Siegel, em outras ocasiões, já havia confirmado que sua intenção foi realmente criticar esse contexto social, porém, ele nunca se reconheceu como um “sujeito de mensagem”. Ainda segundo Patterson, pelo Macarthismo ter sido algo bastante recente quando o filme foi lançado, bem como a experiência de se estar em uma “lista negra”, o trauma dessa experiência permanecia bastante fresco na indústria do cinema.

Anos depois, em 1968 mais especificamente, os EUA foram sacudidos pelo princípio do movimento hippie e a libertação sexual, por protestos contra a violência à comunidade afro e contra a guerra do Vietnã, além do nascimento do Bebê de Rosemary. A grande incursão de Roman Polanski no terror abordou a desventura de um jovem casal que, após se mudar para o apartamento dos sonhos, descobre que são vizinhos de uma seita satânica com grande interesse em Rosemary.

Na biografia de Polanski assinada por Christopher Sandford é ressaltado pelo autor que o objetivo do polonês era deixar em aberto se Rosemary realmente estava grávida ou se era tudo fruto de sua mente, algo que ele já havia trabalhado em seu outro filme Repulsa ao Sexo. A sequência do sonho de Rosemary envolvendo o Diabo também é associada no livro de Sandford a uma viagem de LSD, o tipo de droga que se popularizou entre a juventude nos fins dos anos 60.

Rosemary Woodhouse se torna vítima de perseguição de um culto

A temática do sexo como um todo é bastante presente na obra, não só sob a ótica satânica. O casal protagonista formado pela personagem título e seu marido Guy é bastante ativo sexualmente nos primeiros momentos no novo apartamento. A hesitação da própria Rosemary em querer a criança, já explorava o papel mais incisivo que as mulheres exigiam na sociedade, principalmente no quesito da liberdade sobre o próprio corpo.

Ainda em 1968, o diretor iniciante George A. Romero chamou atenção do nicho cinematográfico com sua grande estreia A Noite dos Mortos Vivos; uma obra sobre um grupo de estranhos que se vê cercado em uma velha fazenda, no meio de um apocalipse zumbi e que precisam lidar com todas as diferenças entre eles, que irão eventualmente surgir. Mesmo que a premissa possa soar batida para espectadores atuais, visto a tonelada de produtos oriundos do nicho de zumbi que surgiram durante os anos 2000, a obra de Romero possui seu quinhão justo de reconhecimento.


Os zumbis de Romero eram muito mais do que mortos vivos

A Noite dos Mortos Vivos carrega um evidente senso crítico sobre o contexto social em que ele foi desenvolvido. Em uma entrevista para a jornalista Christina Onstad do The New York Times, em 2008, Romero definiu o significado de suas obras sobre os zumbis. “São sobre revolução, uma geração consumindo a outra… todos os meus filmes são retratos da América do Norte em um momento particular…”

Em seu artigo científico publicado em 1996 com o título Recreational Terror: Postmodern Elements of the Contemporary Horror Film, Isabel Pineda estabelece que o ano de 1968 foi um ponto importante de partida para o terror pós moderno, uma vez que a nova leva de cineastas que surgiam na indústria estavam mais atentos ao contexto sócio-político que os rodeava do que seus antecessores em períodos passados.

Na contemporaneidade 

A virada do século representou um período de redescobrimento para o cinema de terror. Nos primeiros anos da nova década a maioria das produções ocidentais apresentavam um valor de qualidade bastante baixo. Já na indústria cinematográfica sul-coreana, por exemplo, foi lançado em 2003 o filme Oldboy. Um suspense neo-noir com alta dose de terror psicológico sobre o contexto do crime organizado na Coreia do Sul.

O clássico sul-coreano não é um filme fácil de digerir

Durante esse período nos EUA, a onda dos found footage tomava o mercado com força. Esse estilo, que “começou” com a Bruxa de Blair no final dos anos 90, ganhou ainda mais fôlego com o sucesso da série de filmes Atividade Paranormal ainda que não gozassem de apreço unânime por parte do público pois estes eram encarados como exemplares de terror vazio.


Em 2015 esse pensamento mudou com a chegada de A Bruxa dirigido por Robert Eggers. Um filme que foi amplamente antecipado e vendido como uma experiência genuinamente difícil de se digerir, se mostrou bem mais que isso. Aproveitando o fato de ter uma protagonista inserida no período da colonização norte-americana no século XVII o filme aproveita a deixa para, através da mitologia da bruxa, abordar a busca de uma jovem pela autonomia e identidade própria em uma sociedade patriarcal. Ele então transita entre entender qual papel quer versus o que esperam dela nesse meio, ao mesmo tempo que amadurece fisicamente, deixando a infância para se tornar uma adulta.

O sucesso obtido por A Bruxa foi o encorajamento necessário para que mais obras autorais do terror voltassem a obter seu espaço. Mais especificamente as produções do estúdio A24: Hereditário, Midsommar e O Farol (também do próprio Eggers). Porém, a concorrência, percebendo o novo cenário que se organizava, decidiu fincar sua bandeira. Foi o que a Blumhouse fez com o remake de “Homem Invisível”; desenvolver um suspense genuinamente denso que se posiciona contra a violência doméstica e relações abusivas.

A Bruxa tem sua parcela de importância na retomada do terror “consciente”

Com a confirmação que os novos remakes dos monstros da Universal, a serem produzidos pela Blumhouse, terão esse viés crítico revisitado é de se esperar que a fertilidade do terror em tratar de temas atuais e importantes permaneça tão viva quanto a necessidade de se discutir todos os tipos de problemas que afligem a sociedade.    


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