A temporada de premiações de 2021 chegou ao fim no último dia 25 de abril com o anúncio de vencedores do Oscar, trazendo diversas surpresas, principalmente no tocante às categorias mais principais, e certas vitórias que não chocaram ninguém, por assim dizer.

Talvez o principal destaque da noite tenha ficado para Chloé Zhao, realizadora chinesa que fez história 93 edições depois do início oficial dos Academy Awards ao levar para casa os seguintes prêmios: Melhor Direção e Melhor Filme pelo poético Nomadland. A vitória de Zhao serviu para pintar um novo retrato de um júri condenado através do movimento #OscarSoWhite, que denunciava a falta de representatividade de negros, indígenas, asiáticos e tantos mais para compor a banca dos votantes – motivo pelo qual a maior parte dos filmes tenha saído vitorioso nas mãos de homens brancos e heterossexuais.

A vitória de Zhao levantou questões não apenas sobre machismo, mas também sobre o racismo enfrentado por realizadores que nunca sequer tiveram uma chance de competir entre os “favoritinhos” do cenário mainstream. Zhao tornou-se, em quase cem anos de edição do Oscar, a segunda mulher a levar a estatueta de Melhor Direção para casa – e a primeira de cor a conquistar tal feito (o que já havia sido premeditado por suas dúzias de condecorações recebidas anteriormente, como o Globo de Ouro, o BAFTA e o Critics’ Choice). Mas o que isso realmente significa?



Coloquemos os fatos na mesa: antes dela, apenas Kathryn Bigelow havia sido agraciada com o prêmio em questão em virtude de seu belíssimo trabalho no drama Guerra ao Terror. Apresentada pela lendária Barbra Streisand, Bigelow tornou-se a primeira diretora a ser reconhecida e, diferente do que muitos imaginavam, as coisas não seriam muito diferentes alguns anos para a frente. Além da dupla, apenas outras cinco mulheres disputaram na categoria: Emerald Fennell (Bela Vingança, 2020); Greta Gerwig (Lady Bird, 2017, sendo esnobada pelo impecável remake de Adoráveis Mulheres); Sofia Coppola (Encontros e Desencontros, 2003, também esquecida pelo recente On the Rocks); Jane Campion (O Piano, 1993); e Lina Wertmüller (Pasqualino Sete Belezas, 1976). Sim, é isso mesmo: apenas sete das centenas de realizadores eram mulheres – e isso sem comentar alguns poderosos nomes que foram esquecidos em virtude de um preconceito bastante explícito.

Segundo recentes estudos do Women in TV & Film, uma organização que observa a presença feminina no cenário do entretenimento, as mulheres tiveram aparição recorde nos 100 filmes mais bem-sucedidos do ano passado – mas a porcentagem pode não ser tão alta quanto imaginamos: 21% (contra 20% em relação a 2019). Estreitando mais a análise, as mulheres compuseram 16% das diretoras no mesmo corpus de estudo (contra 12% em 2019 e 4% em 2018), refletindo um merecido, ainda que lento crescimento em dois anos seguidos.

A encargo de uma comparação ainda mais drástica, as mulheres representaram apenas 23% da empregabilidade por trás das câmeras (dessa forma, excluindo-se as atrizes) nos 250 filmes mais bem-sucedidos de 2020, contra 77% de homens que foram chamados para montar, escrever ou até mesmo dirigir longas-metragens. Em 1998, apenas alguns anos atrás, a porcentagem era relativamente semelhante: 17% para as mulheres e 83% para os homens – mostrando que, mesmo com diversos protestos e uma necessidade ímpar de transformação artística, o cenário vai se alterando a passos curtos.



Na mesma cerimônia, mulheres de cor tiveram uma participação incrível, como foi o caso de Yuh-Jung Youn, a favorita da Academia para a categoria de Melhor Atriz Coadjuvante. Tendo participado do aclamado drama Minari, de Lee Isaac Chung, ela se tornou a primeira atriz sul-coreana a conquistar o feito, seguindo os passos das recentes e múltiplas vitórias de Bong Joon-ho com Parasita (o primeiro de língua não-inglesa a conquistar a estatueta de Melhor Filme). Youn também fez história no BAFTA, em que agradeceu aos votantes britânicos em terem reconhecido uma performer estrangeira para aceitar a honraria. H.E.R., por sua vez, tornou-se apenas a segunda artista feminina negra a levar o Oscar de Melhor Canção Original pela irretocável rendição de “Fight for You”, do filme Judas e o Messias Negro.

Nesse tocante, a presença feminina negra é outra questão a ser discutida e, apesar das boas notícias da edição de 2021, o cenário ainda está longe de ser ideal: em 2015, a Academia passou por uma das suas maiores controvérsias, precisamente no tocante à cinebiografia Selma (2014). O longa-metragem, comandado por Ava DuVernay (Olhos que Condenam, A 13ª Emenda), foi um dos únicos (senão o único) a ser indicado apenas para Melhor Filme e outra categoria que não integra as seções principais da premiação, Melhor Canção, vencendo nesta última. Em uma entrevista ao Screen Daily no ano passado, o astro David Oyelowo, que viveu Martin Luther King Jr. na produção, comentou que os protestos em virtude do movimento #BlackLivesMatter impactaram na votação dos membros do Oscar – na verdade, em toda a jornada de premiações.

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À época, Oyelowo comentou que “[o lançamento de] Selmacoincidira com o assassinato de Eric Garner. Essa foi a última vez que estávamos no lugar do ‘eu não consigo respirar’. Me lembro de que, na estreia [do filme], estávamos usando camisetas com [a frase] em protesto. Membros da Academia levaram isso para o estúdio e para nossos produtores, dizendo: ‘Como eles ousaram fazer isso? Por que eles estão mexendo nessa m***a’ e ‘Nós não vamos votar nesse filme porque não acreditamos que é lugar deles fazer isso’”.

Quando a escandalosa notícia ganhou o mundo, a própria DuVernay fez questão de compartilhá-la em sua página oficial do Twitter com os breves dizeres: “história real”, chamando atenção para o constante boicote que a comunidade feminina negra – afinal, John Legend e Common ganharam o prêmio de Melhor Canção Original por “Glory” em 2015. Das únicas diretoras indicadas ao Oscar, apenas Zhao quebrou a onda de “supremacia branca” que dominava os nomeados; nenhuma negra foi indicada na categoria até hoje, mais de nove décadas desde a primeira cerimônia. Regina King, ovacionada no Festival de Veneza pelo incrível Uma Noite em Miami, foi completamente esquecida pela Academia, apesar do filme ter sido indicado em outras seções.

Segundo informações da UCLA (Diversity Report de 2020), 1,5 em cada dez diretores eram pessoas de cor, representando 15,1% dos contratados por grandes estúdios contra 84,9% de realizadores brancos. De 146 produções cinematográficas observadas, apenas duas foram mulheres negras dos oito filmes que trouxeram diretores negros; duas foram mulheres asiáticas dos cinco analisados; e uma representou a comunidade latina dentre os quatro analisados. No tocante aos roteiristas, o número é ainda menor: apenas 13,9% dos contratados pelas companhias mainstream eram pessoas de cor (com nenhuma presença feminina analisada entre os negros, latinos e asiáticos).



Dentre os números, é quase óbvio imaginar que poucos desses caíram no radar da Academia, cuja preferência reside essencialmente na zona de conforto que não irá “atacar” uma sociedade de extremo conservadorismo e movido pelo patriarcado artístico.

O Oscar, bem como o cinema em si, ainda tem muito a melhorar no quesito representatividade – algo que fica evidenciado com os múltiplos dados apresentados em cima. A verdade é que, em 93 anos de existência, o cenário do entretenimento sempre esbarrou na mesma problemática e histórica tecla, diminuindo ou apagando a existência de mulheres e deixando que os homens tivessem a palavra final, numa cíclica insistência do #OscarSoWhite e do #OscarSoMale.

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