Neil Gaiman é um lendário romancista e quadrinista que provavelmente já passou por sua vida, por mais que você não saiba. Seja nas profundas e bélicas reflexões de American Gods, seja no terror infantil Coraline e o Mundo Secreto, seja com a divertida aventura fantástica ‘Stardust – O Mistério da Estrela’, Gaiman faz parte de nosso presente, passado e futuro, permanecendo como um dos grandes nomes do entretenimento contemporâneo. E, agora, sua obra-prima ganhará uma adaptação audiovisual supervisionada pela imperiosa Netflix: Sandman.

O título das graphic novels lançadas originalmente entre 1988 (com data de capa em janeiro de 1989) e 1996 é familiar, mas poucos conhecem sua história – o que é compreensível, considerando o teor metafísico do enredo arquitetado pelo autor. As HQs são centradas em Sonho, também conhecido por diversos alter-egos (Morpheus, Sandman, Oneiros, Lorde Moldador, Kai’Ckul, Senhor do Sonho e qualquer ser mitológico que se relacione com o onírico). O protagonista, que na adaptação será encarnado por Tom Sturridge, é uma criatura antropomórfica que representa a materialização dos sonhos e que governa o Sonhar, lugar para o qual as almas de todos que dormem vão e onde as lembranças e pensamentos são eternamente guardados – Sandman, inclusive, permite que o mundo imaginário de cada ser humano desenrole-se livremente.



Morpheus é um Perpétuo, entidades que ultrapassam o patamar de deuses e que são responsáveis pelo ordenamento da realidade conhecida e pela coesão do universo, conjuntamente mantendo a existência física de todos os seres vivos. Além dele, temos as seguintes manifestações: Destino, Morte, Destruição, Desejo, Desespero e Delírio (em inglês, escrita de forma a começarem com a letra D). Enquanto nem mesmo Gaiman consegue descrever a narrativa sem se render a incursões poéticas e sucintas – ainda mais considerando as análises que imprime na obra -, tentaremos ao máximo resumir a trama principal e o que provavelmente aparecerá na primeira temporada do projeto seriado.

A história começa em 1916, quando Sonho é capturado e encarcerado por um grupo de ocultistas das trevas para fazer parte de um ritual. Mais especificamente, ele se torna alvo de um mago inglês chamado Roderick Burgess, que será vivido por Charles Dance. A ideia de Burgess era capturar a Morte, mas seus planos deram errados e Morpheus foi atraído pela magia. Sete décadas mais tarde, Sandman consegue escapar de suas amarras e, vingando-se de seus algozes, percebe que precisa reconstruir um reino abandonado ao caos, às angústias e à ausência. Para tanto, ele parte em busca de três poderosos artefatos que foram roubados durante seu exílio forçado e que o irão ajudá-lo a retomar controle, sendo respaldado por diversos aliados, mas enfrentando antagonistas extremamente perigosos e mortais (como Lucifer, que será interpretado pela incrível Gwendoline Christie).

Estendendo-se por nada menos que 75 edições, Sandman é uma densa narrativa que pode afastar o público por vários motivos – inclusive por suas várias altercações, derivações e pelos complexos temas que traz ao cenário mainstream, incluindo o psíquico conceito do sonho. Mas não se enganem: os quadrinhos valem muito a pena, ainda mais por instigar o leitor através de um cosmos movido pelo terror e pelo sobrenatural, considerado por diversos especialistas um dos ícones do movimento contemporâneo da fantasia dark. Utilizando constantemente o mundo terrestre como escopo e receptáculo dos Perpétuos e de suas mirabolantes jornadas. Gaiman flerta com lendas urbanas, com a mitologia histórica e com a cultura do oculto, transferindo os enigmas que se escondem no universo para corporalizar o abstracionismo conceitual daquilo que tememos e não conhecemos.

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Apesar do grande número de volumes, vale mencionar que a DC republicou os números em cinco Edições Definitivas, encadernações de luxo que reúnem todos o material da série de quadrinhos em cerca de 600 páginas cada um – bem como uma edição extra focada na Morte, uma das irmãs de Sonho. De qualquer forma, é mais fácil do que parece separar os múltiplos arcos da saga fantástica, visto que elas se dividem sistematicamente em dez coleções:

  • Prelúdios e Noturnos: compilando as edições de #1 até #8, detalha o início da jornada de Sandman após ser capturado por Burgess. Após escapar de uma intransponível redoma de vidro, ele parte em busca da algibeira de areia dos sonhos, de um elmo e de um rubi (objetos pessoais que foram saqueados) para restaurar a ordem em seu reino. As edições apresentam personagens como John Constantine, Wesley Dodds, Etrigan, além de introduzir Lúcifer.
  • Casa de Bonecas: reunindo as edições de #9 até #16, a trama aposta mais no relacionamento entre os Perpétuos e os seres humanos, insurgindo como a primeira parte a revelar acontecimentos simultâneos na Terra e no Sonhar – como a aparição de uma órfã cuja mãe se tornou vítima dos distúrbios do sonho motivados pelo encarceramento de Morpheus.
  • Terra dos Sonhos: seleciona as edições de #17 a #20 e contém quatro histórias independentes – Calíope, uma musa grega aprisionada que é forçada a fornecer inspiração para um autor fracassado; uma gata que deseja mudar o mundo através dos sonhos; a apresentação de uma peça assinada por William Shakespeare a um grupo nada convencional; e uma metamorfa imortal que deseja morrer.
  • Estação das Brumas: reúne as edições de #21 a #28 e narra a jornada de Sandman em busca da libertação de uma antiga amante no Inferno, envolvendo-se com mentiras e artimanhas que podem colocar o futuro do universo em cheque.
  • Um Jogo de Você: compilando as edições de #32 a #37, a história retorna para Barbie, uma nova-iorquina divorciada introduzida em Casa de Bonecas. Ela viaja para o reino mágico dos próprios sonhos apenas para enfrentar um crescente perigo. A minissérie também apresenta Thessaly, que terá papel fundamental no destino de Sandman.
  • Fábulas e Reflexões: traz as edições de #29 a #31, #38 a #40 e #50 e, seguindo os passos de uma antologia, traz contos que tomaram forma ao longo do arco de Morpheus, girando em torno de reis e governantes.
  • Vidas Breves: reunindo as edições de #41 a #49, Delírio, a irmã errática de Sandman, toma as rédeas protagonistas e convence o personagem titular a ajudá-la a encontrar Destruição – cujo paradeiro é um segredo guardado por Orfeu, filho de Morpheus, que deseja morrer em troca de revelar onde ele se esconde.
  • Fim dos Mundos: compila as edições de #51 até #56. Aqui, uma tempestade de realidade arrasta viajantes dos confins do universo a uma pousada em comum chamada Fim dos Mundos. Esperando a tormenta acalmar, eles começam a compartilhar histórias, das quais cinco têm a participação de Sonho ou de algum dos outros Perpétuos.
  • Entes Queridos: selecionando as edições de #57 a #69, essa é a história mais longa no arco de Sandman. Aqui, o protagonista se torna presa das Fúrias, espíritos vingativos que atormentam e caçam aqueles que derramam sangue familiar.
  • O Despertar: na conclusão dessa incrível saga, que reúne as edições de #70 e #75, amigos de longa data, deuses antigos e velhos conhecidos se reúnem para amarrar as pontas soltas e prestar homenagem ao Sonho. Diversas aparições especiais ocorrem aqui, incluindo Batman, Darkseid, Aranha Negra e Doutor Oculto.



São poucas as obras que carregam um legado tão forte quando Sandman – isso sem mencionar a quantidade de prêmios e honrarias que Gaiman recebeu desde a publicação da franquia, incluindo um World Fantasy Award, mais de 26 Eisner Awards e um Hugo Award em 2016. Levando em conta esse envolvente e misterioso panteão fantástico, a Netflix tem um trabalho imenso pela frente e deve, antes de tudo, honrar as inflexões artísticas de uma das maiores mentes da atualidade.

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