Minissérie trouxe uma visão pouco usual do conflito no Iraque

A data de 11 de setembro de 2001 é essencial para entender muitas produções do início do século XXI. O atentado cometido pela Al-Qaeda em Nova York desencadeou um efeito em cadeia global nos anos seguintes que envolveu duas guerras em países do Oriente Médio; a deposição de dois regimes ditatoriais e a substituição da paranóia sobre a ameaça comunista pela ameaça muçulmana.

Decisões políticas extremamente controversas foram tomadas sob a égide da proteção da segurança nacional (não só nos Estados Unidos mas também em algumas nações da Europa) que incluíam, dentre algumas coisas, aplicação de “interrogatórios aprimorados” (que nada mais eram do que torturas) de prisioneiros em locais secretos como Guantánamo e Abu Ghraib.

Além de espionagem de cidadãos ou alvos potencialmente valiosos, do ponto de vista da inteligência, praticada pelos governos. Um exemplo é o infame Patriotic Act, sancionado pelo governo de George W. Bush, no qual órgãos de segurança como a NSA (Agência de Segurança Nacional) tinham plena liberdade para vigiar quaisquer indivíduos sem precisar passar pelos devidos trâmites legais.



Evidentemente não foi apenas o governo que sentiu as reverberações da fatídica data mas também os meios de comunicação e do entretenimento; enquanto que os telejornais revezavam entre a confusão devido a maiores informações do que havia ocorrido e o apoio às iniciativas militares, setores como os quadrinhos, por exemplo, colocavam seus heróis em um ponto de reflexão sobre a tragédia (Amazing Spider-Man #36 é um ótimo exemplo desse quadro).

As reverberações do atentado ecoaram em diversas mídias

Já na indústria cinematográfica a questão não foi discutida tão abertamente de imediato. Um dos primeiros filmes a lançar pós ataque, ainda que não estivesse ligado ao tema, foi Falcão Negro em Perigo. A obra dirigida por Ridley Scott propôs uma adaptação do episódio ocorrido em Mogadíscio, na Somália, no qual um grupo de fuzileiros norte-americanos se viu cercado por combatentes de milícias locais.

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As forças do tio Sam, à ocasião, estavam no país para garantir a implementação de um plano para distribuição de alimentos conduzido pela ONU aos cidadãos que estavam sendo vitimados pela fome. Ao longo do tempo muitas críticas foram tecidas à forma como o filme lidou tanto com a representação de somalis quanto dos próprios soldados norte-americanos.

Apesar de bastante elogiado pelo apuro visual, a obra foi ganhando ao longo tempo a etiqueta de “propaganda das forças armadas” por idealizar o episódio de Mogadíscio como uma luta do bem contra o mal. Esse pensamento, ao final de 2001 e início de 2002, estava bem alinhado com o que se propagava das ações dos Estados Unidos para responder a Al Qaeda em solo afegão.



Ridley Scott abordou o incidente do Blackhawke sem deixar de dialogar com o pós 11 de setembro

Conforme os anos avançaram, a operação para depor Saddam Hussein se desenvolvia no Iraque e as primeiras denúncias de abusos por parte das forças de ocupação começaram a ganhar conhecimento do público. Seguindo a trilha mais crítica que começava a ser traçada sobre os conflitos no Iraque e Afeganistão, o cinema norte-americano não tardou a apresentar narrativas que lançassem uma visão fora do eixo patriótico.

O ano de 2008 foi especialmente prolífico para esse tipo de abordagem, apresentando uma gama considerável de projetos que se propuseram a demonstrar a realidade crua do conflito. Rede de Mentiras, também de Ridley Scott, dissecou a forma como as organizações de inteligência estavam agindo em solo estrangeiro.

Guerra ao Terror acompanhou o ponto de vista de uma dupla de fuzileiros em plena ocupação do Iraque, privilegiando a paranoia dos combatentes ao precisar lidar com um ambiente totalmente hostil à eles; com isso o espectador experimenta a mesma sensação de dúvida que permeia a mente dos personagens.

A paranoia dos soldados das forças de ocupação no Iraque em “Guerra ao Terror” indicou uma mudança de percepção

Foi nesse período também que a HBO lançou a minissérie Generation Kill, com uma proposta não exatamente inédita (muitas das produções focadas na Guerra do Vietnã fizeram o mesmo) porém diferente para o conflito. Ambientado durante a invasão ao Iraque, a produção acompanha uma companhia de fuzileiros rumando para o novo país.

Ao longo do trajeto vão surgindo situações em que os personagens expõem uma desconstrução da figura do herói de guerra, não raramente os combatentes demonstrando pouco apreço pelo apoio de cidadãos norte-americanos; das tradições militares ou respeito pelos habitantes locais.

Declaradamente a intenção dos presentes é a pura e simples vontade de matar; tal sensação é declarada mais de uma vez quando eles se veem fora de uma situação de combate. Não há alívio pela segurança mas sim frustração por ainda não terem visto a ação. 

Sob esse ponto de vista, a minissérie brinca com a idealização da guerra feita pelos próprios soldados, este sendo um tema recorrente em produções sobre conflitos em tempos recentes, como visto em Platoon. Da mesma forma como ocorre no filme de Oliver Stone, a crescente leva os personagens (e o público) a lidarem com um choque de realidade sobre os horrores da guerra.



 

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