A pandemia de COVID-19 promoveu uma gigantesca mudança na dinâmica cinematográfica contemporânea e fez com que os grandes estúdios lançassem seus maiores títulos simultaneamente nas salas de cinema (que, após um tempo, começaram a reabrir) e nas plataformas de streaming (que se tornaram aliadas dos internautas quando confinados ao lockdown e às medidas de distanciamento defendidas pela Organização Mundial da Saúde e pelos especialistas da área).

Um dos principais estúdios a adotar essa medida foi a Warner BrosEm 2020, a companhia resolveu apressar o lançamento da aguardada sequência Mulher-Maravilha 1984, dirigida por Patty Jenkins e estrelada por Gal Gadot, apenas para enfrentar as consequências de uma frenética e impensada campanha de marketing que não apenas sofreu com as críticas mistas (com 58% de aprovação no Rotten Tomatoes), mas que também teve uma performance decepcionante nas bilheterias mundiais (estacionando em meros US$166,5 milhões contra US$200 milhões).

Segundo especialistas, uma das principais causas dessa perda de receita foi o lançamento simultâneo do longa-metragem nos cinemas e na plataforma de streaming da HBO Max – e o motivo estende-se para diversas problemáticas dos próprios serviços virtuais. De um lado, o medo causado pelo Coronavírus implicou em uma restrição a participar de eventos em lugares fechados e com pouca ventilação – motivo pelo qual a arrecadaçao de Mulher-Maravilha 1984’ sofreu uma brusca queda de 67% em sua segunda semana, e outros 45% na terceira; de outro, as plataformas aumentaram exponencialmente os casos de pirataria de blockbusters.



Outro título a sentir o impacto do lançamento simultâneo cinema-streaming foi Viúva Negra. De acordo com um novo artigo publicado pelo Deadline, o longa estrelado por Scarlett Johansson foi exibido ilegalmente nada menos que 20 milhões de vezes, causando prejuízo de US$600 milhões para o Disney+ e servindo como reflexo da dependência gigantesca dos grandes estúdios pelas plataformas.

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BLACK WIDOW, Scarlett Johansson as Black Widow, 2021. ph: Jay Maidment /© Walt Disney Studios Motion Pictures / © Marvel Studios / Courtesy Everett Collection

Adotando uma perspectiva diferenciada para explicar a decisão do lançamento nos streamings e nas telonas ao mesmo tempo é o caso que acometeu o ambicioso sci-fi TENET, de Christopher Nolan. O longa se tornou o primeiro a reabrir os cinemas na era pandêmica, a pedidos desesperados de Nolan, que havia gastado um montante considerável de US$150 milhões para produzi-lo. O resultado não poderia ser diferente: anteriormente projetado para ultrapassar a marca de US$800 milhões, o longa falhou em cumprir com as expectativas e arrecadou pouco mais de US$360 milhões, levando inúmeros estúdios a repensar estratégias para lançamentos futuros.

À época, o analista Eric Handler, em entrevista ao New York Post, disse que os obstáculos enfrentados por TENET impulsionaram as companhias a buscarem por outros meios de divulgarem seus títulos mais promissores – prevendo os streamings como “válvulas de escape” para fracos desempenhos em potencial nos cinemas:



“Os estúdios estão tomando decisões com base no que está acontecendo com ‘Tenet’. Acho que vai ser comum ver que mais filmes serão adiados até que os principais mercados sejam reabertos novamente. Quando isso vai acontecer? Mês que vem? No próximo semestre? Ninguém sabe até que haja uma reposta definitiva contra a pandemia. Na semana passada, a Warner Bros. adiou a estreia de ‘Mulher-Maravilha 1984‘ de outubro para dezembro… E o filme deveria chegar originalmente em junho. A Universal adiaou ‘A Lenda de Candyman‘ por tempo indeterminado, e ‘Viúva Negra’ e ‘Soul‘ [marcados para novembro] podem seguir o mesmo rumo”, ele havia comentado.

A pesquisa realizada pelo Deadline traz exemplos variados de como essa controversa dinâmica, ainda que prática de certas maneiras, lançou um modelo a ser seguido de forma mandatória e inconsciente pelos lançamentos – explanando que, em uma normalidade assustadora, os longas-metragens sofreram queda média de arrecadação de bilheteria em 58% da primeira para a segunda semana. Cruella, por exemplo, teve um desempenho 49% menor e faturou US$11 milhões na 2ª semana; Viúva Negra teve queda de 68%, passando de US$80,4 na arrecadação doméstica para US$25,8 milhões (marcando o maior declínio de faturamento do Universo Cinemático Marvel desde Homem-Formiga e a Vespa, com 62%). Obras que tiveram uma diminuição significativa também foram Duna (62%), Matrix Resurrections (64%) Space Jam: Um Novo Legado (69%), Os Muitos Santos de Newark (70%), ‘Halloween Kills – O Terror Continua’ (71%), O Esquadrão Suicida (72%) e Mortal Kombat (73%).

Ainda que o prospecto dos meses anteriores não pareceu muito promissor, alguns títulos começaram a reavivar as bilheterias e indicar que 2022 é o ano em que os grandes estúdios devem repensar novamente as estratégias de lançamento – e apostar no gradual retorno às salas de cinema em contraposição à supracitada divulgação simultânea.

Encanto, recente animação da Casa Mouse, trilhava um caminho semelhante e chegou aos cinemas estadunidenses e canadenses em 24 de novembro de 2021, estendendo-se por trinta dias de exibição em resposta à pandemia do COVID-19 e, pouco depois, migrando para o Disney+, ocasionando uma queda brutal na arrecadação (mesmo cruzando a marca de US$206 milhões). Casa Gucci, cinebiografia criminal estrelado por Lady GagaAdam Driver, remou contra a maré e, já tendo faturado mais de US$126 milhões, se tornou o drama adulto de maior abertura desde Adoráveis Mulheres, em 2019. A própria Forbes comentou que o filme ascendeu ao patamar do “mais ‘bem-sucedido’ drama adulto de não-ação da era pandêmica”.



Mas nada poderia nos preparar para a massiva arrecadação que Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa teve em pouquíssimas semanas de lançamento. O título, antecipado desde o anúncio do projeto em 2019, chegou aos cinemas no dia 17 de dezembro de 2021 e, em apenas um dia, arrecadou US$121,85 milhões apenas nos Estados Unidos e no Canadá (a segunda maior abertura de todos os tempos, atrás apenas de Vingadores: Ultimato). Em menos de três semanas, o terceiro filme da franquia estrelada por Tom Holland ultrapassou a marca de US$1,3 bilhão, quebrando diversos recordes de bilheteria e já reclamando a 12ª posição das produções mais bem-sucedidas de todos os tempos (além de sólidos 94% de aprovação no Rotten Tomatoes).

O sucesso surpreendente é explicado pela ótima campanha de marketing construída pela Sony Pictures e pela Marvel Studios, além da crescente segurança que os espectadores passaram a ter com o avanço significativo da vacinação contra o Coronavírus. É claro que a insurgência da variante Ômicron pode representar um novo obstáculo para os grandes estúdios; mas se há algo que ‘Sem Volta Para Casa’ provou é que o cinema não está morto – e que a dependência dos streamings, tão complicada nos anos anteriores, deve ser reconfigurada como via alternativa pelas companhias.

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