Já sabemos que a Pixar Animation Studios é lar de algumas das mais importantes e memoráveis animações das últimas décadas – incluindo a icônica franquia ‘Toy Story’ e as atemporais gemas artísticas de ‘Monstros S.A.’, ‘Procurando Nemo’, ‘Divertida Mente’ e muitos mais.
E, assim como qualquer grande estúdio da sétima arte, a Pixar também passou por seus momentos de altos e baixos – como pudemos ver nos últimos anos, com lançamentos diretos em streaming como ‘Red: Crescer é uma Fera’ e ‘Luca’, além do spin-off ‘Lightyear’ e a subestimada aventura ‘Elementos’. Mas essa breve “crise” não é inédita para a companhia. Mesmo em sua Era de Ouro na segunda metade dos anos 2000, os executivos da Pixar investiram esforços em um longa-metragem que, quando comparado aos sucessos de ‘Os Incríveis’, ‘WALL-E’, ‘Ratatouille’ e ‘UP – Altas Aventuras’, não carrega consigo o mesmo brilho e o mesmo fogo: ‘Carros’.

Chegando aos cinemas em 2006, o longa-metragem dirigido por John Lasseter, mesmo diretor das duas primeiras entradas da franquia ‘Toy Story’ e do divertido ‘Vida de Inseto’, continuou a onda de originais e instigantes histórias ao nos apresentar a um mundo habitado por carros antropomorfizados. Logo de cara, somos introduzidos a Relâmpago McQueen (Owen Wilson), um carro de corrida ambicioso e, por vezes, egocêntrico, que deseja vencer a Copa Pistão – a maior disputa do planeta no automobilismo. Crente de que nada poderá impedi-lo de conquistar o troféu e um cobiçado contrato com a marca Dinoco, McQueen vê tudo mudar quando, num acontecimento inédito, ele empata em primeiro lugar com os veteranos Chick Hicks (Michael Keaton) e O Rei (Richard Petty).
Dessa forma, os patrocinadores do torneio decidem realizar uma última corrida na Califórnia, onde os três competidores se enfrentarão pelo cobiçado prêmio. Determinado a ser o primeiro a chegar, McQueen parte ao lado de seu amigo caminhão chamado Mack (John Ratzenberger), que funciona como uma espécie de motorista para o corredor, para o estádio onde a disputa ocorrerá – mas um incidente o faz parar na peculiar e esquecida cidade de Radiator Springs, onde ele percebe que, às vezes, é necessário reduzir a velocidade para apreciar a efemeridade dos bons e memoráveis momentos.

Forçado a fazer trabalho comunitário por quase destruir o lugar, McQueen conhece outros carros que abrem seus olhos para algo além das corridas – incluindo a firme e ex-advogada Sally (Bonnie Hunt), que administra a pousada local; o rabugento Doc Hudson (Paul Newman), dono da oficina local que nutre de um profundo desafeto por corredores; e o divertido espirituoso carro de reboque Mate (Larry the Cable Guy). Cada um deles toca o coração do inconsequente anti-herói, que deixa de lado pretensões destrutivas e autodestrutivas à medida que percebe que existem coisas mais importantes a que deve prestar atenção – e que, antes de encontrar essa nova “família”, ele buscava a completude em um lugar vazio.
Se tentarmos enxergar para além dos convencionalismos e das praticidades de que Lasseter se vale para construir o universo de ‘Carros’, podemos perceber que essa animação da Pixar pode não chegar aos pés de outras que circularam seu lançamento, mas ainda trouxe uma sutil e pitoresca beleza às telonas ao nos levar a um pequeno “paraíso perdido” da charmosa Radiator Springs. Ainda que os dois capítulos seguintes da franquia tenham se destituído da apaixonante simplicidade desse microcosmos, o filme original tem o coração no lugar certo e aposta no charme interiorano de seus personagens para nos conquistar.

Cada um dos personagens é criado em cima dos conhecidos arquétipos de qualquer história coming-of-age que podemos pensar: a personalidade repreensível de McQueen o arremessa a um arco de amadurecimento que o transforma para sempre, assim que ele cruza o limiar de seu dia a dia com a beleza escondida da cidade; Doc, encarnando uma versão “distorcida” do mentor, mas que vê no protagonista alguém que apenas precisa de um empurrãozinho para encontrar o caminho certo – e, com isso, ajudar a si mesmo a enfrentar traumas de um passado distante; e Mate, o improvável aliado e principal escape cômico da trama, que se torna melhor amigo do corredor ao permitir-lhe ver as coisas sob outra perspectiva.
É notável como Lasseter, também responsável pela história ao lado de um grande time de roteiristas, joga no seguro e aposta no pragmático em vez da originalidade vista em outras produções do estúdio. E, eventualmente, é essa metódica escolha que permite que o projeto encontre sucesso e satisfaça como pode o público que não procura nada muito além do óbvio – mas que ainda se permita estar aberto a compreender as suaves nuances que se escondem por essa honesta narrativa.
Lembrando que ‘Carros’ está disponível no Disney+.


