Bonito CineSur | Gabriela Quiroz, diretora de ‘Naira’, revela que escreveu o filme após ESCAPAR da morte

Um dos filmes mais emocionantes exibidos no Bonito CineSur foi ‘Naira‘, longa peruano dirigido por Gabriela Quiroz.

Delicado e profundamente humano, o filme acompanha a infância problemática de uma menina indígena nos Andes e transforma pequenas experiências cotidianas em um retrato poderoso sobre memória, pertencimento e identidade.

Durante conversa após a sessão, Quiroz revelou que a obra nasceu de um momento extremo de sua própria vida: uma experiência de quase morte que mudou completamente sua relação com o cinema e a própria existência.

A cineasta contou que a ideia de contar a história de ‘Naira‘ já a acompanhava havia anos. O desejo de filmar sobre a região onde cresceu, sobre sua mãe e sobre as mulheres andinas sempre esteve presente. Mas foi somente depois de uma viagem à Espanha que tudo ganhou forma.

Gabriela Quiroz
Gabriela Quiroz

Segundo a diretora, ela percorreu o Caminho de Santiago enquanto produzia um documentário.

“Para muitas pessoas, o Caminho de Santiago é uma jornada espiritual. Para mim, foi diferente. Eu estava fazendo um documentário e vivi aquela experiência mais como trabalho e como oportunidade de conhecer pessoas. A transformação aconteceu depois, de uma forma que eu jamais imaginaria.”

Ao chegar a Santiago de Compostela, porém, sentiu que sua jornada ainda não havia terminado. Resolveu seguir até Finisterra, antigo ponto que durante séculos foi considerado o “fim do mundo”.

Foi ali que tudo mudou.

Ao entrar no mar, Gabriela acabou presa por correntes marítimas e por grandes algas. Sem saber nadar — ela cresceu na região andina do Peru — começou a ser arrastada para longe da costa.

“Eu não sabia nadar. Tentei pedir ajuda, mas estava muito longe da praia. Em determinado momento, achei que iria morrer. Já não tinha mais forças para continuar lutando.”
O homem que salvou sua vida

“Um homem apareceu e conseguiu me alcançar. Depois ele me contou que havia saído do escritório sem saber por quê, olhou para o mar, me viu muito distante da costa e entrou na água imediatamente. Mais tarde perguntei seu nome. Ele respondeu: ‘Jesús’.”

“Jesús salvou minha vida no fim do mundo”, ela lembra com um sorriso no rosto.

O episódio marcou profundamente a diretora.

“Naquele momento, enquanto acreditava que estava morrendo, pedi a Deus uma oportunidade para continuar vivendo porque ainda queria contar essa história. No dia seguinte, durante o voo de volta para Los Angeles, escrevi todo o primeiro tratamento de Naira em um guardanapo.” 

De Hollywood aos Andes

Antes de dirigir seu primeiro longa, Gabriela Quiroz construiu carreira em Hollywood.

Ela trabalhou durante seis anos na Bad Robot, produtora comandada por J.J. Abrams, participando de diferentes áreas ligadas ao desenvolvimento de projetos.

“Trabalhei durante seis anos na Bad Robot. J.J. Abrams foi uma das primeiras pessoas que me incentivaram a escrever. Ele dizia que eu precisava contar minhas próprias histórias, e aquele ambiente me mostrou que um artista não precisa ficar preso a uma única função. Quis conhecer todos os departamentos de uma produção. Trabalhei em várias funções porque queria entender como um filme realmente é feito. Isso me ajudou a compreender o trabalho de cada profissional e me tornou uma diretora melhor.”

Um Peru raramente visto nas telas

Embora o Peru costume aparecer no imaginário internacional por lugares como Machu Picchu e Cusco, Quiroz afirma que queria mostrar outra realidade.

Naira leva o espectador para a região de Arequipa e coloca no centro da narrativa personagens indígenas que raramente encontram espaço no cinema latino-americano.

Para ela, o maior mérito do filme é abrir uma janela para uma comunidade que quase nunca protagoniza histórias nas telas.

“Existem muitos filmes sobre Lima, Cusco ou Machu Picchu, mas quase ninguém conta histórias sobre as comunidades indígenas da região onde cresci. Para mim, Naira abre uma janela para um Peru que o mundo ainda conhece muito pouco.”

A busca por uma protagonista

Um dos aspectos mais impressionantes de Naira é a atuação da jovem Yaneth Calla Supo, protagonista do filme.

Gabriela revelou que tinha uma condição inegociável: a menina precisava ser da própria comunidade retratada na história.

“Eu tinha certeza de que a protagonista precisava ser daquela comunidade. Não queria uma atriz infantil profissional. Procurava alguém completamente autêntico, sem vícios de atuação. Levamos anos até encontrar Janet. Quando Janet fez o teste, recitou um poema que dialogava profundamente com o roteiro, sem saber absolutamente nada sobre a história do filme. Naquele instante, tive certeza de que ela era a Naira que eu procurava.”, ela disse.

“Passamos quase um ano trabalhando juntas. Em vez de ensinar técnicas de atuação, criamos uma relação baseada em brincadeiras, histórias e convivência. Eu queria que tudo parecesse verdadeiro diante da câmera, e não interpretado.”, concluiu. 

O resultado aparece na tela.

Com um olhar silencioso e expressivo, a jovem atriz conduz a narrativa com uma naturalidade rara, tornando-se a grande força emocional de Naira.

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Um dos destaques do Bonito CineSur

Exibido no Bonito CineSur, ‘Naira‘ emocionou o público ao combinar paisagens deslumbrantes dos Andes com uma narrativa sensível sobre infância, maternidade e ancestralidade.

Mais do que contar uma história individual, Gabriela Quiroz faz do filme um retrato de um Peru pouco conhecido pelo restante do mundo — um lugar onde tradição, memória e afeto sobrevivem longe dos grandes centros urbanos.

Ao final da conversa, ficou evidente que ‘Naira‘ é muito mais do que um primeiro longa.

É o filme que sua diretora acreditava precisar realizar depois de receber, como ela mesma define, “uma segunda chance” para continuar vivendo.

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Renato Marafon
Renato Marafonhttps://cinepop.com.br/
Editor-chefe e criador do site CinePOP, apaixonado por cinema e filmes.