O Brasil será o País de Honra no Marché du Film 2025, mercado oficial do Festival de Cannes. Entre os dias 13 e 21 de maio, o país apresentará cinco novos filmes e mais de 30 profissionais em destaque, com apoio do Ministério da Cultura. A programação inclui desde a estreia do jogador de futebol Vinícius Jr. como produtor e o novo longa de Daniel Ribeiro (Hoje Eu Quero Voltar Sozinho).
Entre os destaques estão ações no Producers Network, com cinco produtores emergentes, e no Cannes Docs, com quatro documentários em fase de desenvolvimento. Além disso, cinco títulos brasileiros foram selecionados para o Goes to Cannes, plataforma dedicada a obras em andamento. A iniciativa busca promover novos talentos e histórias diversas, com curadoria de festivais e mercados parceiros de quatro continentes.

A curadoria brasileira foi conduzida por Ilda Santiago, diretora do Grupo Festival do Rio/Estação. Ela destaca: “Os cinco projetos que estamos levando para o Goes to Cannes representam uma ampla gama do cinema brasileiro — da sátira política profunda ao coming of age — e também trazem à tona novas discussões sobre temas LGBTQIAPN+ e questões de gênero.”
5 Produções Brasileiras no Marché de Cannes
Clarice vê Estrelas, de Letícia Pires

Clarice recebe a notícia de que ganhará um irmão e se sente deslocada. No sótão, encontra um livro mágico que a transporta para o mundo encantado do Circo Aquário, onde enfrenta seus medos, o racismo simbólico e aprende sobre diversidade.
Baseado no livro da própria diretora, o roteiro tem colaboração de Pedro Alvarenga e Cláudia Sardinha. A produção é da Luminar do Brasil, com coprodução da Aurora E² e do Instituto Vini Jr., ONG fundada pelo jogador de futebol em 2021. O ator Bruno Gagliasso é um dos produtores associados.
Amanda e Caio, de Daniel Ribeiro

Após sete anos juntos, Amanda e Caio mudam de casa. Ele quer futuro com ela; ela, algo diferente. Então Amanda conhece João. Um drama íntimo de Daniel Ribeiro e de sua produtora de longa data Diana Almeida, da Lacuna Filmes, de São Paulo, e considerado o primeiro longa-metragem com um elenco totalmente transgênero, até mesmo os figurantes.
Diferente dos outros nomes da seleção, Daniel Ribeiro não é um estreante. Ele tornou-se conhecido ao ganhar o prêmio Generation 14plus da Berlinale de melhor curta com You, Me & Him, em 2008. Desde então, ele acumula 54 vitórias em festivais com seus filmes, sendo o seu maior sucesso Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014).
Criadas, de Carol Rodrigues

Sandra e Mariana são primas e voltam a morar juntas na mesma casa onde cresceram. Sandra é negra de pele escura, enquanto Mariana é negra de pele clara. Quando crianças, a mãe de Sandra trabalhou como empregada residente para os pais de Mariana. Agora, Sandra é engenheira civil e volta a São Paulo para assumir um prestigioso cargo numa construtora. O reencontro é estranho, desconfortável e abre antigas feridas.
Descrito como um drama psicológico com elementos sobrenaturais, o longa é escrito, dirigido e protagonizado por mulheres negras. Vencedor de três prêmios no BrLab de 2017 e de uma Menção Honrosa do Frapa 2020.
Virtuosas, de Cíntia Domit Bittar

Um retiro VIP para mulheres cristãs desmorona quando uma lenda de bruxas toma conta do local. A trama mistura terror, humor ácido e crítica ao ultraconservadorismo religioso. De acordo com a produtora Ana Paula Mendes, da Novelo Filmes, Virtuosas revela um Brasil raramente retratado nas telas.
Esta é a estreia de Cíntia Domit Bittar em longas de ficção, após uma carreira de curtas premiados, como Baile (2019), vencedor do Festival de Cartagena, na Colômbia. A documentarista já dirigiu oito curtas e os episódios de uma série sobre veganismo.
Não Estamos Sonhando, de Ulisses Arthur

Ciro, estudante de medicina negro e gay, vê sua vida desmoronar após o fim de um namoro e o atraso da bolsa de estudos. Expulso de casa, passa a viver com um DJ vizinho, enquanto tenta manter o curso e dar aulas de pole dance para universitários negros.
O projeto é descrito por Ulisses Arthur como um “drama sexy e rebelde”. Desenvolvido na Incubadora Paradiso do Brasil, com mentoria do diretor Marcelo Gomes (Cinema, Aspirinas e Urubus), ele é produzido pela Céu Vermelho Fogo Filmes, focada em narrativas irreverentes sobre raça e queerness.
Apoio do Governo Federal é Fundamental
A participação brasileira se fortalece com apoio institucional e incentivos financeiros retomados nos últimos anos. O Ministério da Cultura lidera uma programação que inclui paineis sobre o setor audiovisual, um dia dedicado à coprodução internacional e presença da ministra Margareth Menezes, confirmada para a abertura do evento.

“Uma das bases do nosso trabalho, desde a recriação do Ministério da Cultura pelo presidente Lula, é pensar a cultura como vetor estratégico de desenvolvimento econômico.”, afirmou a ministra.
Segundo Guillaume Esmiol, diretor executivo do Marché du Film, o Brasil se tornou o “território líder da América Latina” no evento, com aumento de 50% no número de participantes em comparação com anos anteriores.
Durante o governo Bolsonaro, o setor sofreu com o congelamento de incentivos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) por decisão do TCU. Em 2025, o cenário se inverte: novos recursos federais, regionais e privados voltam a impulsionar a indústria.
