Designer foi responsável por dar vida à icônica estética no filme de 1989

Recentemente, fotos vazadas dos bastidores do vindouro filme The Flash mostraram em totalidade a recriação da famosa batcaverna apresentada inicialmente em Batman de 1989, dirigido por Tim Burton, bem como a presença do icônico batmóvel utilizado tanto na obra mencionada como em sua sequência lançada em 1992. Tendo isso em mente é certo que a estética gótica que tão perfeitamente casou com Gotham City no passado voltará.

Porém, é interessante voltar um pouco para o lançamento da primeira aventura protagonizada por Michael Keaton. Em 1989 trabalhar com a propriedade do Batman era um pouco estranho; de fato, àquela altura o herói há muito tinha sido resgatado do estilo camp que marcou o seriado dos anos 60 e a censura do Comic Code Authority não mais era uma ameaça aos quadrinhos, visto que há muito a gerência de Dennis O’Neil recuperara um pouco da visão pulp proposta por Bill Finger nos anos 40.

Ainda assim, a estética (ou arquitetura) de Gotham permaneceu bastante padronizada dos anos 70 até 80; os detalhes para pichações ou lixos em becos (um possível legado de Watchmen) estavam presentes para desconstruir a ideia de um cenário seguro natural à histórias em quadrinho, porém a cidade permanecia indistinguível da Nova York daquele mesmo período.



Apesar de seus ilustres cidadãos, Gotham ainda era representada como uma cidade comum até os anos 80

E então, em 1985, Tim Burton realizou sua estreia no mundo dos longa metragens com As Aventuras de Pee-wee após vir de uma série de curtas realizados desde 1971 (com alguns deles como The Island of Doctor Agor e King and Octopus Animation já exibindo sua inclinação para o mesmo traço estilizado que ele iria popularizar anos depois no Stop Motion).

O diretor já havia conquistado atenção no até então mais recente Os Fantasmas se Divertem (onde ele demonstra as possibilidades de execução do stop motion) e ao ingressar no primeiro projeto para adaptar Batman para as telonas desde 1966 ele precisava encontrar um designer de produção que estivesse alinhado a sua identidade visual. Anton Furst também não era um estranho na indústria; antes de ingressar no projeto Batman ele havia trabalhado com Stanley Kubrick no design de Nascido para Matar.

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Sua carreira antecedia a bem antes desse trabalho junto ao lendário realizador, tendo em 1979 integrado a equipe que desenvolveu os efeitos especiais vistos em Alien – O Oitavo Passageiro, ainda que sua participação não tenha sido creditada. Nesse mesmo ano, Furst teve uma outra participação não creditada no desenvolvimento de efeitos especiais em 007 – Contra o Foguete da Morte.

Os efeitos especiais em “Alien – O Oitavo Passageiro” são alguns dos mais marcantes já feitos

As interpretações de Furst e Burton andaram em concordância desde o início, com ambos decidindo que uma cidade como Gotham precisava evocar o gênero a que seu nome era dedicado. Cada construção deveria lembrar, para Burton, a ideia de monstros escondidos nas sombras e mistérios que acontecem apenas à noite. Já Furst identificava que, arquitetonicamente falando, cada construção da cidade deveria lembrar a estética medieval dos enormes castelos e catedrais; com suas colunas longas e finas, bem como as gárgulas observando a todos do alto.



Já no quesito iluminação a atenção de ambos se voltou para o legado técnico do Expressionismo Alemão, principalmente no tocante ao uso de luz e sombra para desenvolvimento dos personagens. Furst entendia que a variação de sombras e iluminação poderiam servir para externar sentimentos dos indivíduos em tela, de forma similar ao que um cenário geralmente realizava.

Sombra e luz foram essenciais para criar o ar teatral que Burton desejava.

A dualidade de Bruce Wayne, representada pela mansão no topo e pela caverna excessivamente sombria no subterrâneo é um exemplo. Por este segundo ser uma locação diretamente identificada com a persona de Batman, sua iluminação é majoritariamente escassa. O ideal de Expressionismo pode ser visto também em diferentes cenários ao longo do filme, com a presença constante de decorações inspiradas no movimento Art Déco.

Outro elemento icônico, o Batmóvel de capô estendido, nasceu da apreciação de Furst pelo passado, mais especificamente pelos carros utilizados nas corridas em campos de sal em Wendover, estado de Utah, que passaram a ter grande notoriedade nos anos 30. O design é bastante semelhante, sendo eles veículos rebaixados e alongados que não dificilmente alcançam altas velocidades nesse tipo de terreno plano.

O trabalho de Anton Furst em Batman lhe rendeu um Oscar de Melhor Direção de Arte em 1990, bem como um BAFTA de Melhor Design de Produção também pela aventura do Homem-Morcego. Infelizmente, em 24 de novembro de 1991 sua vida chegou a um trágico fim quando o mesmo cometeu suicídio, que veio após um divórcio e tentativas de se recuperar do vício em Halcion; ele deixou dois filhos.

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