Crítica | “16 Carriages” arranca uma das melhores narrativas sonoras da carreira de Beyoncé



Sendo destinado originalmente às classes trabalhadores e aos proletariados do “colarinho azul” das comunidades sulistas dos Estados Unidos, o gênero country é remontado da década de 1920 e consagra-se como um dos estilos mais populares do escopo fonográfico. Entretanto, é notável como, desde seu surgimento (assim como tantas outras incursões criativas), ele foi reapropriado por artistas brancos e, hoje, é associado a nomes como Luke CombsKacey MusgravesShania TwainDolly Parton – cada qual contribuindo com ótimas produções que merecem sua devida atenção.

Agora, chegou a vez de Beyoncé mergulhar novamente no country após nos ter dado uma breve prévia em seu sexto álbum de estúdio, ‘Lemonade’, com “Daddy Lessons”. Após a estreia de seu comercial na última edição do Super Bowl, a icônica performer anunciou a data de lançamento de ‘Act II’, segunda parte da trilogia ‘Renaissance’, e disponibilizou nas plataformas de streaming duas músicas inéditas – “Texas Hold ‘Em”, explorada em um texto anterior; e “16 Carriages”, que emerge como uma das melhores narrativas sonoras de sua extensa carreira.

Beyoncé tem o dom inexplicável de conseguir transmutar de gênero a gênero sem muitas dificuldades, graças a um competente corpo de trabalho e um apreço inegável pelo que faz desde muito nova. Não é surpresa que cada lançamento da Queen B transforme-se em um evento; agora, migrando para as raízes do country – mas sem perder o brilho de uma contemporaneidade irretocável -, ela continua a celebrar a cultura negra ao reavivar a história por trás de estilos musicais. Após o house e o disco de ‘Act I’, regressar ao lar foi uma jogada genial e celebratória em todos os aspectos.

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“16 Carriages” parece vir como uma culminação testamentária do que Bey já nos ofereceu até hoje. Diferente de “Texas Hold ‘Em”, que aposta fichas no bluegrass e na comunhão de instrumentos como o banjo, a viola e o cajón, aqui ela volta-se para a potência retumbante da guitarra elétrica, em uma atmosfera soul-country pincelada com uma percussão apaixonante – e que reitera sua predileção por investidas, ao mesmo tempo, conceituais e mercadológicas. Há aspectos do rock que dão as caras nos quase quatro minutos da track, possivelmente premeditando o capítulo de encerramento de ‘Renaissance’; há uma junção do country com o gospel à medida que caminhamos para o terceiro ato da canção; e, mais do que tudo, temos rendições vocais que nos recordam do egrégio status da cantora no cenário musical.

Um dos elementos que nos chama a atenção é a profundidade lírica dos versos: “aos quinze, a inocência se perdeu; tive que deixar minha mãe muito nova” faz menção ao momento em que Bey oficialmente entrou para a indústria do entretenimento, revelando o duro trabalho pelo qual passou para chegar onde chegou – e, de forma mais universal, fazendo menção à infância perdida de inúmeras crianças que entram para o show business e envolvidas em um mandatório amadurecimento para lidar com as atribulações do mundo adulto. Discorrendo sobre o verdadeiro significado de trabalho duro, a faixa vibra em composições críticas (“dezesseis carruagens indo embora, enquanto as vejo levar meus medos embora”) ao passo que denota a necessidade de um respiro que, talvez, nunca chegue (“já se passaram trinta e oito verões e não estou na minha cama; na parte de trás do ônibus e em um beliche com minha banda”).

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Lembrando que ‘Renaissance: Act II’ será lançado em 29 de março.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.