Há dezoito anos, Peter Jackson provava para o mundo que adaptações cinematográficas poderiam muita vez se igualar aos romances originais e, por vezes, ultrapassá-los no quesito emocional e catártico: afinal, em 2001, nascia a versão audiovisual da icônica saga ‘Senhor dos Anéis’, cujos longas narrativas nunca deixaram de representar um marco na indústria do entretenimento e, para além disso, parecem nunca envelhecer (não importa quanto tempo passe).

Uma década mais tarde, os escritos de George R.R. Martin seriam traduzidos para a série Game of Thrones, que também quebrou recordes de premiações e capturou a trágica essência de Westeros para as telinhas (com exceção da apressada e desconexa oitava temporada, que serviu apenas como tapa-buracos de pífias resoluções). E é claro que não demoraria muito até que uma terceira produção cultivasse altas expectativas e pudesse vir a reclamar por seu lugar no pódio das melhores releituras de ficção fantástica – no caso, o show baseado na franquia de livros e de games The Witcher.

A história, elaborada pelo romancista polonês Andrzej Sapkowski, faz parte do segundo boom da literatura do gênero em questão e traz um expansivo e visceral mundo povoado por criaturas sobrenaturais e terrenas que constantemente entram em conflito – e que são embebidas com pertinentes críticas sociais. Qual foi a surpresa dos fãs quando Lauren Schmidt Hissrich (conhecida por seus trabalhos em The West Wing e Justice) anunciou que levaria o intrincado enredo focado em Geralt de Rivia para a Netflix – prometendo superar todas as expectativas e manter-se fiel à sua própria identidade artística e aos escritos de Sapkowski.

Entretanto, não foi exatamente isso o que aconteceu: apesar da belíssima transcrição que Hissrich e sua gigantesca equipe fizeram do mundo conhecido como Continente, o pano de fundo por vezes se desmanchou em linhas narrativas transbordantes, saturadas de personagens por vezes descartáveis ou que poderiam ter sido deixados para uma futura temporada – isso sem falar em sequências inteiras que não deveriam existir ou então que foram colocadas no lugar errado e na hora errada. Ao menos o ritmo da obra engata após as convencionais apresentações dos protagonistas (mesmo saindo de nenhum lugar a lugar nenhum e provando que o público acompanhava a uma antológica jornada tour-de-force).

Geralt (Henry Cavill) é um witcher, um caçador de monstros cuja estrutura corporal e psíquica foi modificada através de mutações propositais e que lhe deram habilidades muito maiores que um ser humano normal, aumentando sua força, sua percepção, sua bravura e sua velocidade. Entretanto, o guerreiro foi privado de uma infância normal e, por isso, não tem uma relação “amigável” com outras pessoas – que normalmente o encaram como um ser demoníaco, fruto do pecado e que não deve ser confiado. As coisas mudam quando ele cruza caminhos com outras figuras totalmente fora do padrão: a maga Yennefer de Vengerberg (Anya Chalotra) e a jovem princesa refugiada Cirilla (Freya Allan).

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Por muitos anos, as fórmulas fílmicas foram criticadas por seguirem um padrão excessivamente problemático e familiar para os espectadores – levando-nos a pensar na falta de capacidade cognitiva de compreender algo diferente e original. Hissrich, dessa forma, abriu espaço para promover uma desconstrução dos engessados conceitos supracitados, abolindo inclusive o materialista conceito de “cronologia”. Afinal, até meados do terceiro capítulo, temos certeza absoluta de que os três arcos protagonistas irão se juntar mais cedo ou mais tarde em uma convergente reviravolta ou algo do tipo, amarrando as pontas soltas e caminhando para um competente season finale; porém, não é isso o que acontece: na verdade, o trio em questão se situa em linhas temporais diferentes cujas delineações brincam com as ideias de passado, presente e futuro – ou ao menos tentam fazer isso.

A verdade é que a série exala com incrível potencial e, num amador equívoco, se desenvolve numa zona de conforto que, ao mesmo tempo, busca explicar tudo o que existe no universo apresentado. Não é à toa que a sensação inicial é episódica (uma ironia cômica, se não fosse infeliz), colocando Geralt acima das outras personagens em aventuras pontuais que forçosamente se entrelaçam na “batalha final”; mais do que isso, o roteiro não sabe equilibrar a dosagem cênica dos personagens principais, por vezes se esquecendo da importante representação de Ciri, ou então nos envolvendo na poderosa e arrepiante transformação de Yennefer apenas para reinventar um cânone pré-estabelecido.

Apesar dos múltiplos erros, a produção acerta em aspectos imprescindíveis para o envolvimento da audiência: desde a perfeição dos cenários até a performance de seus atores, é inegável dizer que o show pensa com exímia cautela na atmosfera de cada uma das cenas, ainda que recorra a certas obviedades: mesmo não se comparando ao nível de construção de outras investidas contemporâneas, The Witcher faz bom uso das cartas que lhe foram dadas e diferencia os múltiplos caminhos que nossos “heróis” trilham. Ademais, Chalotra nos rouba a atenção por uma atuação narcótica e agonizante – e que detém o único sólido desenvolvimento desse primeiro ano.

Empunhando uma faca de dois gumes, é necessário também dizer que outros aspectos técnicos são teatrais demais para serem levados à sério: eventualmente, Ciri foge do ataque à sua terra natal e encontra-se nas misteriosas florestas de Brokilon, protegida pelas dríades; aqui, percebe-se que a fotografia excede a um gritante nível de saturação que é impossível crer na possibilidade daquele lugar pertencer ao Continente – pior ainda, é muito fácil observar a fragmentada união de certos elementos (que também não são ajudados por uma pedante e previsível trilha sonora).

A nova série da Netflix deve agradar aos fãs por sua fidedignidade aos livros originais e por seu tom mais dark e mais satírico em relação a outras iterações fantasiosas. Todavia, ela perde-se em tantas questões banais que transforma-se em um amontado de histórias sem coesão, polvilhadas por sequências de ação que, por mais bem coreografadas que sejam, insurgem como meras medidas paliativas.

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