Crítica | 2ª temporada de ‘Treta’ mantém o alto nível da antologia com drama em dose dupla

CríticasCrítica | 2ª temporada de 'Treta' mantém o alto nível da antologia com drama em dose dupla

Em 2023, a Netflix lançava uma de suas produções mais aclamadas da década: Treta. Acompanhando dois estranhos que se viram no centro de um incidente de trânsito e transformaram uma intercorrência em uma prolongada e insana rixa, a temporada de estreia trouxe Ali Wong e Steven Yeun em uma das narrativas mais originais da gigante do streaming e conquistou dúzias de prêmios por sua inegável qualidade. Três anos mais tarde, a plataforma nos convida de volta para esse vibrante e irruptivo microcosmos com uma segunda temporada que, apesar de não ter o mesmo frescor da anterior, nos envolve em uma complexa rede de traições, mentiras e assassinato.

Os novos episódios acompanham dois casais: o primeiro deles é formado por Josh (Oscar Isaac), o gerente geral de um imponente country club na Califórnia, e por Lindsay (Carey Mulligan), que enfrentam uma crise matrimonial prestes a explodir. O segundo, por Ashley (Cailee Spaeny) e Austin (Charles Melton), dois jovens noivos que trabalham no clube de luxo e que lutam dia após dia para sobreviverem com salários pífios e um prospecto cada vez mais distante. Em uma determinada noite, porém, Ashley e Austin presenciam e gravam uma grande briga entre Josh e Lindsay – dando início a uma série de eventos que servem como combustível para uma artimanha inesperadamente perigosa e que culmina em um inesperado finale.

Two adults in a dimly lit kitchen/basement look terrified and alert, as if facing danger together.

O showrunner, roteirista e diretor Lee Sung Jin retoma parceria com seus colaboradores de longa data para mais um ano recheado de reviravoltas e de intrincados estudos de personagens que permeiam pelos tropos da sátira social para discutir temas conhecidos e recorrentes na complicada realidade em que vivemos. É claro que todo o escopo realista é pincelado com a absurdez conhecida de Jin, que, repetindo os feitos do ciclo anterior, sabe como dosar o exagero com a veracidade em um delicioso banquete audiovisual.

Aqui, o realizador traz de volta o conflito interpessoal, mas dessa vez abrindo espaço para um embate multigeracional que traz mais camadas a um suculento enredo que cresce episódio a episódio. De um lado, Josh e Lindsay enfrentam desavenças internas que já premeditam o fim de um matrimônio que nunca deveria ter sido firmado e que, ano após ano, apenas trouxe o pior de cada um à tona – por mais que insistissem em colocar máscaras e fingir que tudo estava bem. De outro, a inescapável atomização da classe trabalhadora ganha expressivo espaço com Ashley e Austin, que desejam mais que tudo conseguir realizar seus sonhos, mas se veem num beco sem saída quando uma oportunidade se posta à frente deles, pondo em voga obstáculos que, cedo ou tarde, os encontrariam.

Apesar do inebriante sarcasmo da primeira temporada não aparecer com tanta força nos novos capítulos, Jin faz questão de tecer comentários sobre as relações humanas quando subjugadas em um sistema predatório cíclico cuja abstração é transformada em um jogo de gato e rato que toma proporções inimagináveis à medida que as tramas encontram um ponto de convergência. Cada um dos diálogos é delineado para compor uma personalidade específica e, por mais que algumas escolhas apostem em convencionalismos conhecidos do gênero, elas funcionam dentro do que é proposto.

Não apenas isso, mas o brilho da temporada destina-se ao trabalho primoroso do elenco. Isaac e Mulligan nutrem de uma química aplaudível e que permite que ambos trabalhem sozinhos ou juntos, não ofuscando um ao outro, mas complementando-se sem deixar de lado uma independência narrativa. Spaeny e Melton, tendo conquistado um merecido espaço no cenário do entretenimento nos últimos anos, rendem-se a performances emocionantes e catárticas. Unidos por uma sutil metáfora de paciência, coletividade e sacrifício que dá as caras de formas nada óbvias, o quarteto protagonista ainda é acompanhado da bem-vinda presença da vencedora do Oscar Youn Yuh-jung, William Fitchtner, Song Kang-ho e outros.

A 2ª temporada de Treta mantém o alto nível de qualidade de uma das melhores séries antológicas da atualidade e dobra a carga dramática ao selecionar, a dedo, atores e atrizes que mergulham de corpo e alma em personagens que nos envolvem logo de cara – e que engendram uma das histórias mais insanas do ano.

Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.

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