O filme ‘365 Dias’ chegou à Netflix cercado de controvérsias e polêmicas. Para não poluir a crítica focando apenas nos problemas, fizemos uma matéria bem didática analisando cada um dos pontos problemáticos bem aqui.

Laura (Anna Maria Sieklucka) é uma mulher cujo namorado, Martin (Mateusz Lasowski) não lhe dá muita atenção. Em uma viagem com amigos, Laura é sequestrada por Massimo (Michele Morrone), que alega ter visto/sonhado com Laura cinco anos antes, quando estava à beira da morte, e que, portanto, acredita que ela é o amor da sua vida e os dois precisam ficar juntos. Para convencê-la disso, Massimo não só sequestra Laura, mas também a mantém em cativeiro em sua mansão, privando-a de todo tipo de autonomia, e lhe dá um ultimato: Laura tem 365 dias para aprender a amá-lo, e ele está confiante de que conseguirá convencê-la disso.

Como dá pra ver, não surpreende ninguém que ‘365 Dias’ – que é baseado no livro homônimo de Blanka Lipinska (e que aparece no filme, como a noiva do casamento) – seja uma releitura sensual e violenta de ‘A Bela e a Fera’. O conceito é o mesmo: homem brutalhão e sem jeito que precisa fazer a donzela se apaixonar por ele e a donzela que fica trancafiada em um palácio, que de uma maneira bem torta se descobre mais feliz no cativeiro do que em sua própria casa e que precisa amansar a fera.

O roteiro de Barbara Bialowas e Tomasz Mandes (que também dirigiram o longa polonês) não tem lógica, é um corte-colagem de cenas colocadas lado a lado. Nada no filme tem continuidade, o que é potencializado pela montagem que simplesmente colocou as cenas numa aparente ordem e deu o projeto por finalizado, sem se preocupar com a transição de cenas, com a linearidade da história, enfim, com a própria continuidade da trama.

As atuações do casal protagonista – e, bom, do elenco todo – são engessadas e caricatas tipo novelão. Anna Maria Sieklucka tenta construir uma protagonista enigmática, que pareeece donzelinha mas que no fundo é uma pantera, mas o resultado é uma personagem cujas técnicas de sedução parecem ter sido inspiradas na Chiquinha. Já Michele Morrone parece ter levado a sério demais a instrução de fazer um homem malvadão e perigoso, e acabou criando um Cigano Igor cujas falas cafonas deveriam causar efeito, mas só causam riso.

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Aliás, os diálogos são risíveis, parecem tirados de biscoitos da sorte ou de manual de como construir um filme aceitável pelo público estadunidense. E assim o espectador é premiado com falas tipo ‘O que você pensa que está fazendo? Isso aqui é a América’ ou ‘eu não sou o monstro que você pensa que eu sou’ (alôoo? Você é o sequestrador!).

Posso só dar um spoilerzinho? É na cena do avião, quando Massimo, no auge da sua masculinidade, imobiliza Laura no assento, amarrando-a com cordas; então, ele abre a calça dela e começa a masturbá-la, apenas para provocá-la; e então tira a mão dali, deixa Laura na cadeira e… vai cumprimentar um cidadão que está sentado no outro banco, batendo em seu ombro e apertando-lhe a mão. Aaaahhhh!!! Ele não lavou a mão, que agoniaaaaa!!!

Entretanto, as cenas de sexo são realmente críveis e são a única coisa que funciona em ‘365 Dias’. Funcionam até demais, parecem mesmo que os atores não estavam nem atuando nessas cenas…

O que leva a crer que a adaptação cinematográfica de ‘365 Dias’ teve a preocupação única de construir cenas de sexo picantes, reais e excitantes (dá pra ouvir os gemidos mesclados com a música, com direito a tomada de helicóptero para captação de imagem e aluguel de iate), sem se importar com a história ou com a linearidade desta. E com uma boa fotografia, inclusive, apropriando-se de uma iluminação estilo Bollywood, com tons de rosa, roxo e laranja. E que outra produção faz isso, que não o pornô?

365 Dias’ é, assim, um soft porn que só se mantém pelas cenas de sexo, porque, enquanto filme, é um emaranhado de cenas confusas, com uma temática problemática e uma construção desengonçada, malfeita e cafona.

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