Crítica | 3º episódio de ‘American Horror Story: Double Feature’ mantém o altíssimo nível da temporada


‘American Horror Story’ teve uma de suas melhores estreias desde 2011 com os dois primeiros episódios de ‘Double Feature’. O ambicioso ciclo conseguiu recuperar os elementos outrora vistos em ‘Murder House’ e ‘Asylum’, por exemplo, em uma nostálgica investida que cativou o público ao redor do mundo e deu início a uma complexa e sanguinolenta jornada de ambição e egolatria, marcada por um roteiro exímio e uma competente construção artística.

É claro que a primeira parte da temporada, subtitulada ‘Red Tide’, se voltou para uma das criações mais clássicas do terror, os vampiros. Entretanto, assim como ‘Hotel’, Ryan Murphy e Brad Falchuk desconstruíram a mitologia por trás dos personagens em uma belíssima e envolvente narrativa metalinguística que explora o preço do talento e da fama: em outras palavras, os personagens são atraídos por uma pílula misteriosa que os transforma em deuses criativos, superiores a outros amadores. E, é claro, tal habilidade vem com um preço caro a ser pago – se alimentar do sangue das pessoas para sobreviver em um vicioso ciclo interminável de chacinas e de glória.

Enquanto os episódios da semana passada representaram uma considerável melhora em relação a anos anteriores, era de se esperar que os capítulos seguintes deslizassem em certos problemas de ritmo e de concepção; felizmente, não foi isso o que aconteceu. Em “Thirst”, como ficou conhecido o terceiro capítulo, Falchuk fica encarregado de uma narrativa irretocável, com todos os aspectos imutáveis da antologia, enquanto a diretora Loni Peristere também retornou no comando da iteração em uma ode ao thriller psicológico. Como se não bastasse, o elenco permanece afiado como nunca, cada qual com seu momento de brilhar – e falar isso parece redundante, considerando que, mesmo em meio aos equívocos, são as atuações que nos conquistam do começo ao fim.

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Seguindo de onde paramos, Harry (Finn Wittrock) enfrenta as drásticas consequências da filha, Alma (Ryan Kiera Armstrong), ter tomado a pílula em um surto de ganância, exigindo de si mesma ser a melhor violinista de todas – adotando esse atalho sem pensar no custo. Por ser mais jovem e ingênua, Alma parece não ter controle do apetite voraz por sangue e, por essa razão, posa como uma ameaça a todos os outros artistas que se valeram da droga para alcançarem os seus objetivos, motivo pelo qual chama uma controversa atenção de Belle (Frances Conroy) e Austin (Evan Peters). Mergulhando em um turbilhão de eventos catastróficos, Harry é “obrigado” a mentir para a esposa, Doris (Lily Rabe) sobre o que aconteceu e lida com as investigações da delegada local, Burleson (Adina Porter), sobre os múltiplos corpos que aparecem jogados pela cidade.

Da mesma forma que “Cape Fear” e “Pale”, “Thirst” toma o tempo necessário para se desenrolar e, por essa razão, talha uma densa e angustiante atmosfera cujo objetivo é deixar os espectadores à beira de um ataque de nervos. Os atos do episódio são alicerçados em homenagens a obras do gênero, desde ‘A Bruxa’ até ‘Hereditário’, pegando recursos emprestados que vão desde a mortal elegância da fotografia ao minimalismo tétrico de uma repetitiva e pragmática trilha sonora. Entretanto, o maior bem do episódio é o fato de não querer revolucionar a prática do storytelling ou criar algo original, e sim se valer das fórmulas do terror e trilha um caminho que já conhecemos e que sabemos, por ora, como vai terminar. As cartas dispostas nesse início de temporada foram dadas e, agora, é preciso jogar.

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Se o elenco já apresentado ganhou nossa atenção pela natureza das performances, a substancial aparição de Leslie Grossman como a agente de Harry, Ursula, se mostrou como uma adição bem-vinda e surpreendente. Ursula funciona como uma encarnação capitalista e predatória do que significa se envolver com o show business e, apesar de demonstrar certa preocupação com Harry e com seus clientes, sabemos que suas intenções são outras. Afinal, ela não pensaria duas vezes antes de migrar para o próximo talento que encontrasse caso se mostrasse mais lucrativo e certeiro – e as coisas ficam mais complicadas quando ela descobre o efeito das pílulas e traça o paradeiro de quem as fabricou (a Química, interpretada pela sempre grandiosa Angelica Ross).

‘American Horror Story: Double Feature’ ainda tem muito a ser explorado – e tem potencial enorme de nos causar uma experiência interessante, principalmente com uma parte considerável das reviravoltas já reveladas. Murphy e Falchuk deixaram bem claro que a dinâmica dos personagens é seu ponto de partida, e observá-los dentro de um microcosmos recheado de segredos é chamativo e perturbador (do melhor jeito possível).

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.