Eu me lembro exatamente da primeira vez que assisti à fita em VHS de ‘Pânico‘. Ela trazia em seu slogan o aviso: “A Morte está lá fora. Não atenda o telefone. Não grite. Tente não entrar em pânico.“. A capa estampava uma imagem da Drew Barrymore com os olhos arregalados e com uma expressão assustada. Logo nos primeiros minutos, me apaixonei pela produção, com a cena impactante de abertura que matou o nome mais conhecido do elenco do filme de uma maneira brutal, cruel e assustadora. Apesar da minha pouca idade, eu já sabia que aquele terror se tornaria um clássico cult. E logo o sucesso veio.

O segundo filme foi lançado apenas um ano depois e se aprofundava muito mais no drama de Sidney Prescott (Neve Campbell), uma garota perseguida pela figura de um Ghostface – cuja história virou um filme de sucesso chamado ‘Punhalada‘. Após uma sequência bem sucedida, a franquia começou a preparar seu terceiro – e “último” – filme, que deveria encerrar uma trilogia.

Porém, o roteiro inteiro de ‘Pânico 3‘ teve que ser reescrito e o projeto passou por diversos problemas de produção. A ideia de Kevin Williamson era trazer Sidney novamente para uma amaldiçoada Woodsbooro para presenciar um novo massacre entre os jovens da cidade, mas a ideia foi barrada após o Massacre de Columbine – quando dois jovens entraram em uma escola e mataram diversos adolescentes alegando terem sido inspirados por filmes.



O roteirista Ehren Kruger, de ‘O Chamado‘, foi chamado às pressas para mudar o cenário para Hollywood e trazer adultos sendo perseguidos pelo Ghostface durante as filmagens de ‘Punhalada 3‘, mudando também o tom da franquia e adicionando muito mais humor do que terror – o que fez este ser o menos querido da maior parte dos fãs.

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Onze anos depois, Wes Craven e Kevin decidiram revitalizar a franquia com ‘Pânico 4‘, trazendo de volta o “Legacy Cast” (Neve Campbell, Courteney Cox e David Arquette) para mais uma sessão de matanças pelo Ghostface após Sidney voltar para Woodsboro para promover o seu livro. O que ninguém esperava era que a suposta “nova final girl” era, na verdade, a psicopata Jill Roberts (Emma Roberts), a prima da Sidney que preferia ter fãs a ter amigos. Acho a reviravolta final brilhante, mas não sobrou muitas pontas soltas nem elenco para continuar a trilogia e, com a baixa arrecadação nos cinemas, a franquia parecia ter sido enterrada de vez, principalmente após a morte do brilhante Craven em 2015.

Mas nenhuma franquia de sucesso fica morta por muito tempo em Hollywood, não é mesmo? Com o sucesso do “revival” de ‘Halloween‘, a Paramount Pictures adquiriu os direitos de ‘Pânico‘ e decidiu acertadamente seguir o mesmo caminho. O novo terror é um “requel” (reboot and sequel). Intitulado apenas ‘Pânico‘, o filme traz de volta seu elenco sobrevivente original para passar o bastão para uma nova geração, e entrega TUDO o que promete.



Logo na cena inicial percebemos que o tom da franquia será o mesmo da obra original, muito mais assustador e realista e com menos humor. A metalinguagem continua presente, de uma maneira mais séria e bem escrita que das sequências anteriores. ‘Pânico‘ continua reconhecendo seu legado, mas entende que o cinema mudou nos últimos anos – e sabe brincar com isso de maneira genial. As piadas envolvendo o chamado “terror pós-moderno” de filmes como ‘Babadook‘ e ‘Hereditário‘ são hilárias e certeiras.

As cenas de morte são muito mais brutais e gore, agora com um Ghostface ainda mais sanguinário que deixará um rastro de tripas e desespero pelo seu caminho, de uma maneira muito mais aterrorizante que os seus antecessores. Esse filme é uma carta de amor para a franquia, para Wes Craven e para os fãs dos longas e do gênero terror.

Tyler Gillett e Matt Bettinelli-Olpin trazem a sagacidade, o suspense e o humor de maneira mais rebuscado para nos lembrar como a saga ainda tem fôlego para nos assustar – e conseguiram convencer Neve Campbell, Courteney Cox e David Arquette a retornarem mais uma vez. Sidney está mais bad-ass do que nunca, Gale está contida em uma jornada para ser uma pessoa melhor e Dewey entrega uma das cenas MAIS INCRÍVEIS de toda a franquia.

O roteiro desse novo capítulo traz um desenvolvimento de personagens muito mais aprofundado e afiado que o filme anterior, fazendo com que a gente se importe com eles. E o grande sucesso de um filme de terror é fazer você ter empatia com os personagens para que você sofra quando algum deles é brutalmente assassinado. E acredite, você vai sofrer bastante.



Temos ainda o brilhante jovem elenco, que conta com a super competente Melissa Barrera e a maravilhosa Jenna Ortega roubando a cena. Jack Quaid, Dylan Minnette, Marley Shelton e Jasmin Savoy Brown também merecem os devidos louros por suas atuações.

Pânico‘, de 2022, é o segundo melhor filme da franquia, logo atrás do primeiro. Ele entrega tudo que promete e mais um pouco, recheado de ação, mortes chocantes, um humor peculiar e reviravoltas de cair o queixo. Fiquei um pouco decepcionado com a grande revelação final, que poderia ter sido melhor trabalhada e com um ritmo mais compreensível, mas isso não afeta o resultado da produção. É o filme que a franquia precisava para ressuscitar, acertando no tom e trazendo um novo grupo de jovens astros que com certeza serão muito apetitosos para o Ghostface retornar nos próximos filmes.


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