Existem histórias que simplesmente estão destinadas a acontecer. William Shakespeare, um dos maiores poetas de todos os tempos, cantava muito bem a história de amores impossíveis, que lutavam contra todas as forças externas para viver. Gabriel García Márquez, Nobel da Literatura, escreveu um dos livros mais lidos do mundo, que contava justamente a história de amor de um casal que, ao migrar para poderem viver, inspiraram outros e, assim, fundaram uma cidade, baseada no amor. Essas e tantas outras tramas inesquecíveis tocam nossos corações por atravessarem os tempos e permanecerem em nossa memória por trazerem, no centro, duas pessoas apaixonadas. É assim que o público vai se sentir assistindo a ‘8 Décadas de Amor’, novo filme espanhol já em cartaz nos cinemas.

Espanha, 1932. Numa noite fria e chuvosa, em um pequeno povoado no interior do país, uma mãe dava à luz a seu primeiro filho. A três quilômetros dali, em outro povoado de nome similar, outra mãe dava à luz à sua primeira filha. Embora ambas as famílias não se conhecessem, compartilharam o mesmo médico, e a mesma tragédia quando uma morte marca a noite. Dez anos depois, ambas as crianças veem suas famílias serem divididas por conta da ascensão do franquismo – por um lado, os militares nacionalistas, do outro, os opositores republicanos. Com o fim do franquismo, Adela (Ana Rujas, de ‘A Desconhecida’, Top 10 da Netflix) e Octávio (Javier Rey) se mudam para Madrid, cada um com sua família. Porém, mesmo sem se conhecerem, a história deles estava predestinada a acontecer.
Exibido previamente no Festival de Cinema Europeu, ‘8 Décadas de Amor’ é aquele típico filme de inverno, para ver agasalhadinho ou agarradinho na paquera, comendo chocolate. Embora tenha pouco mais de duas horas de duração, no final entendemos que era necessário mesmo todo esse tempo para contar essa história – e ainda ficamos querendo um pouco mais.
Escrito e dirigido por Julio Medem (conhecido realizador de ‘Lúcia e o Sexo’, dentre outros sucessos), o filme traça dois paralelos muito claros: de um lado, acompanhamos o desenvolvimento social dos dois protagonistas, cada um na sua trajetória, e antecipamos o momento em que ambos vão se encontrar por fim; por outro, vemos a História (com maiúsculo) de um país se desenrolar, com suas guerras civis e ideologias políticas que atravessaram o século e influenciaram em pelo menos três gerações de habitantes.

O roteiro não quer dizer que tal lado é certo e o outro errado; ao contrário, Julio Medem quer mostrar que as crenças fervorosas das pessoas que participaram ativamente nessas filosofias tiveram consequências drásticas na formação do povo espanhol, para bem ou para mal, e que se refletem até os dias de hoje, inclusive. De uma maneira bonita, Julio faz de seu filme uma forma de olhar para o passado para entender o presente e pensar o futuro.
Mais que isso, ao trazer para o centro de ‘8 Décadas de Amor’ uma história de amor que os personagens ainda não sabem, mas nós, espectadores, sabemos que vai acontecer, ele nos seduz a nos conectarmos com o enredo e torcer pela evolução dos eventos, e até mesmo as tragédias acabam nos impactando ainda que o próprio filme não se demore nelas. Como na vida, é preciso seguir adiante.
Entretanto, se por um lado a história nos conquista, Julio Medem usa e abusa de plano-sequência para realizar suas cenas, com muitos capítulos terminando com essa técnica e quase sempre focando a câmera nas costas de alguém para finalmente fazer o corte e transição. A repetição desse recurso, por duas horas, pode cansar alguns cinéfilos.
‘8 Décadas de Amor’ traça a jornada épica de um romance em um país em guerra, e como duas pessoas fizeram de tudo para viver essa história apesar de tudo, tentando por 90 anos. Desses filmes que conquistam a gente e ficam na memória.




