Filme assistido durante o Festival de Sundance 2022

892 é a história de uma América que não deu certo. De um homem honesto, que por estar a serviço do seu governo como militar, carregou em si os horrores e as marcas de uma guerra para a qual os Estados Unidos nunca foram chamados. E o filme dirigido por Abi Damaris Corbin e estrelado por John Boyega e Michael K. Williams, é muito mais que a despedida deste último – que faleceu em 2021, após uma overdose. A emocionante e dolorosa cinebiografia do veterano de guerra Brian Easley é um relato sobre injustiça social, que expõe as rachaduras de um sistema que frequentemente não funciona para os seus.



Na trama, co-escrita por Corbin e Kwame Kwei-Armah, depois que o seu benefício por invalidez é retido por um órgão do governo, o veterano de guerra e membro da Marinha norte-americana, Brian Brown-Easley, se encontra à beira da falta de moradia. Sem outras opções, ele entra em um banco da rede Wells Fargo e afirma ter uma bomba, exigindo que seu valor lhe seja devolvido. Encurralado e sem um plano formulado, o jovem de 33 anos tenta solucionar uma terrível injustiça pessoal da pior forma possível. O caso chamou a atenção por acompanhar a história de um homem relatado como sendo gentil, educado e bem articulado que – embora fizesse promessas assustadoras – estava de fato completamente assustado por saber que mais uma parte de si estava prestes a ser tirada pelo Estado.

E o pavor de um futuro incerto e a insegurança de uma vida regada à memórias dolorosas são aqui revisitados pela brilhante performance de Boyega, que imprime com precisão toda a angústia de Easley, um homem machucado pelo tempo e pelo descaso, que só queria ser visto por seus governantes. E debaixo de uma tensão crescente que banha sua face com suor, o astro de Star Wars mostra mais uma vez seu excepcional talento para o drama, trazendo à lembrança uma triste história que jamais deve ser esquecida.

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E sempre sondando os ambientes por de trás de um par de óculos de grau, Boyega surge no thriller dramático como a sombra do que um dia já foi um homem. Cabisbaixo, de fala angustiada e pausada, ele mostra a história de vida de seu personagem, à medida em que Corbin e Kwei-Armah trazem ao centro da mesa um debate importante sobre a ineficiência do sistema público e a espiral de consequências que surgem a partir disso.



Com uma direção simples, mas um roteiro afiado que é cirúrgico ao relatar os fatos, o thriller é uma experiência dolorosa para a audiência, que não possui outra saída a não ser testemunhar o horror diante dos olhos. Nos atingindo no âmago da alma, tamanha a indignação que nos provoca, 892 relata uma epopeia de erros evitáveis, nos levando ao limite – junto ao protagonista. Nos deixando à deriva com o seu final, Abi Damaris Corbin e Kwame Kwei-Armah ainda confrontam a audiência ao deixá-la com um sabor agridoce nos lábios. Diante de um filme muito bem executado, paira também o temor de que histórias como essa voltem a se repetir.

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