A infância raramente foi retratada com tanta delicadeza no cinema de animação quanto em A Pequena Amélie (Amélie et la Métaphysique des tubes). Depois de uma trajetória promissora no circuito internacional, o filme finalmente chega aos cinemas brasileiros. Lançado no Festival de Cannes no ano passado, vencedor do prêmio do público em Annecy e indicado ao Oscar de Melhor Animação, o filme dirigido por Maïlys Vallade e Liane-Cho Han é um daqueles raros projetos que parecem pequenos na concepção, mas são grandes na sensibilidade.
Baseado na novela autobiográfica Metafísica dos Tubos (2000), da escritora belga Amélie Nothomb, o filme acompanha uma versão ficcionalizada da autora quando ainda era uma criança de três anos vivendo em Kobe, no Japão, no final dos anos 1960. Até essa idade, Amélie vivia em um estado quase vegetativo, alheia ao mundo ao redor. Quando finalmente desperta para a realidade, ela passa a encarar a própria consciência com uma mistura de descoberta, estranhamento e certa arrogância infantil.

É nesse instante que surge uma das ideias mais bonitas da narrativa: quando Amélie domina a fala e percebe seu próprio poder de observar e nomear o mundo, ela chega a se definir como uma espécie de “deus”. Não por soberba, mas pela lógica de quem acredita que o universo nasce da própria percepção; ideia que o roteiro abraça com rara delicadeza
O enredo constrói então um retrato muito sensível da infância: frágil, confusa e ao mesmo tempo intensamente poderosa. A pequena Amélie, inicialmente quase selvagem e incompreendida pelos pais e irmãos, encontra laços inesperados com duas figuras fundamentais: a avó Claude, cuja presença desperta nela uma ternura imediata (e que a conquista com um simples pedaço de chocolate branco belga), e a babá japonesa Nishio-san, com quem desenvolve um vínculo profundo e afetuoso.

Essas relações são tratadas com um cuidado emocional raramente visto em animações voltadas ao público familiar. Não há grandes aventuras ou vilões caricatos. O conflito surge em detalhes do cotidiano, em pequenas tensões culturais e históricas, como a antipatia silenciosa da proprietária da casa, que ainda carrega ressentimentos dos bombardeios da Segunda Guerra Mundial contra estrangeiros ocidentais.
Com 77 minutos enxutos, A Pequena Amélie é um pequeno esbanjo de encanto visual. A animação mistura traços europeus com influências japonesas de maneira muito natural, criando imagens coloridas, delicadas e cheias de personalidade. Os cenários da casa e do jardim em Kobe parecem quase memórias pintadas à mão, reforçando a sensação de que estamos vendo o mundo através da lembrança de uma criança.

Há algo profundamente tocante na forma como o filme olha para os primeiros anos da vida: aquele período em que tudo parece absoluto, desde as descobertas e afetos até as despedidas. A sequência final, em que Amélie revisita em memória versões ligeiramente mais jovens de si mesma em diferentes momentos da casa e do jardim, sintetiza bem essa ideia de infância como um território quase mítico carregado para sempre conosco.
Se não fosse o fenômeno popular de Guerreiras do K-POP, A Pequena Amélie seria a escolha certa para a estatueta deste ano, por seu impacto profundo dentro da simplicidade, algo que remete a Flow, de Gints Zilbalodis. Ainda assim, pela delicadeza de sua história e pela beleza de seus traços, é exatamente o tipo de filme que lembra que a verdadeira magia da animação está em ampliar as possibilidades do mundo que já habitamos.
Distribuído pela Mare/Alpha Filmes, A pequena Amélie estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, dia 12 de março.

