O poder narrativo de uma imagem, de uma palavra, de um som numa tela de cinema imprime significados na ótica do espectador que, muitas vezes, vai além do que a simples intensão de um filme. Razão pela qual muitas vezes saímos impactado de termos assistido a algo, mas sem necessariamente ter a certeza do que exatamente nos impactou. Muitas vezes, isso tem a ver com o poder narrativo de uma história, que se impõe para além de acessórios e recursos. É o que acontece em ‘A Praia do Fim do Mundo’, novo filme de Petrus Cariry atualmente em cartaz no circuito nacional. O longa, inclusive, chegou a figurar entre os finalistas para representar o Brasil na corrida pelo Oscar, mas acabou não passando à etapa final.

Em uma cidade litorânea na costa brasileira, de nome Ciarema, a jovem ambientalista Alice (Fátima Macedo) vive com sua mãe adoecida, Helena (Marcélia Cartaxo, de ‘A Hora da Estrela’) na casa da família que está em ruínas na beira da praia. Enquanto as ondas avançam na costa, ameaçando o dia a dia da pequena família, Alice tenta convencer a mãe a vender ou até mesmo largar a casa para trás e sair dali, para que ambas possam sobreviver, porém teimosa, Helena se recusa a deixar seu bem para trás. Agora que Alice descobre uma inesperada gravidez, é possível que a vida de ambas mude drasticamente diante dos novos fatos.
Ambientado em locações esteticamente simples e belas, ‘A Praia do Fim do Mundo’ impressiona pelo contraste entre o belo e o imperioso – as ondas do mar que se impõem sobre a frágil casa, a plenitude do silêncio de uma casa vazia em uma imensidão de mar que a consome, a oposição preto e branca impressa da fotografia que destoa o claro e o escuro em intensidades que refletem as emoções de seus personagens.

Dentro desse ambiente sombrio e desamparado, Petrus Cariry e Firmino Holanda propõem uma história composta de metáforas e alegorias sobre a existência humana em seu mais agoniante esplendor: a finitude. Diante desse momento do qual todos nós não conseguiremos escapar, o que nos resta, senão o nosso próprio querer? Na personificação do principal embate do enredo temos, de um lado, a velha senhora teimosa que é, em si, a própria casa – símbolo de abandono do marido, do governo, da empresa, do tempo – cuja doença a corrói por dentro e cujos consertos já não valem mais a pena, diante do inevitável; do outro lado, a jovem idealista, que entende que fugir é uma forma de sobrevivência para lutar contra um sistema do qual ela mesma não tem a menor ideia do tamanho da influência. Mãe e filha se encontram, se desencontram e se abandonam a partir das ondas do mar que cada vez mais as afasta uma da outra.
Teatral e metafórico, é a força expressiva de Marcélia Cartaxo que conquista o olhar do espectador, imprimindo humanidade à esta velha senhora cuja única vontade é ter a liberdade de continuar tendo a vida que sempre teve.
‘A Praia do Fim do Mundo’ propõe um exercício diferente ao espectador, entre abandonos e desalentos limítrofes da vida.

