Já faz oito anos desde que o mundo não é agraciado com músicas novas da conhecida e aclamada Alanis Morissette. A rainha do rock alternativo, tendo iniciado sua carreira em 1991 e alcançado aclame universal com o premiado Jagged Little Pill (que inclusive fez bodas de prata este ano), havia lançado sua última obra em 2012. Apesar das boas intenções, Havoc and Bright Lights teve uma recepção mista por parte da crítica e do público, não representando o retorno prometido de uma das artistas mais conhecidas e originais da indústria mainstream. Felizmente, Morissette viria a se reencontrar vários anos depois, passando por obstáculos, pela maternidade e pelo enfrentamento de seus demônios interiores – culminando no anúncio deSuch Pretty Forks in the Road.

Precedido por alguns singles promocionais – com ênfase na belíssima produção de “Reasons I Drink” (um dos principais ápices de 2020) -, sua nona obra era tudo o que precisávamos para reiterar a importância e o legado da cantora e compositora para o cenário contemporâneo. E, por mais que não se valha da exuberância do rock de investidas anteriores, ela se volta para o pop-rock e deixa se guiar pela força majestosa do piano e de um liricismo intimista e reflexivo que nutre de composições clássicas de sua própria discografia. É claro que, ao longo do caminho, as bifurcações redundantes aparecem e deixam rastros para os ouvintes – mas, no final das contas, isso não apaga as mensagens que a performer quer nos passar ao longo de onze breves faixas.

Enquanto o pano de fundo prefere não se respaldar a épicos ecoantes ou a uma intrínseca e divinal jornada, Alanis deixa bem claro que sua nova bateria de canções originais é destina a ela – como um relato de sua problemática vida, ou do cotidiano conturbado de uma persona que cria para poder colocar tudo o que sente pra fora. Não é surpresa que grande parte das faixas seja condecorada com títulos ambíguos: “Smiling”, que abre o CD, discorre sobre um eu lírico que seguia em frente mesmo quando queria desistir (“esta é o primeiro aceno da minha bandeira branca”), mantendo-se em pé enquanto o mundo despencava ao seu redor (“só estava tentando me manter firme). O prospecto pessimista-realista é acompanhado por uma guitarra lo-fi que ressoa através dos três atos da música e une um panorama incerto e inexplicavelmente gritante.

Desde a primeira vez que Morissette surgiu, ainda descobrindo uma identidade que, mais tarde, provaria ser bastante versátil, é quase óbvio esperar que suas construções fonográficas sejam repletas de sinestesia. Entretanto, diferente do apreço pela etérea constância dos instrumentos e pela criação de ambientações regadas apenas pela sonoridade, a artista é discípula de uma narcótica verborragia, arquitetando versos eternos que fundem-se uns aos outros e que se afastam do que estamos acostumados. Com exceções que se destinam essencialmente ao status mercadológico, grande parte de suas rendições abre espaço para metáforas atemporais, infundidas com um proposital anacronismo – como “Ablaze”, uma poderosa peça que brinca com os conceitos de empatia e mentoria.

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Talvez um dos principais problemas, que aparece logo na primeira metade do álbum, seja a reciclagem de progressões e até mesmo da métrica em diversas tracks. Por um lado, o diálogo que Alanis trava consigo mesma tem presença vocal que ofusca os deslizes; por outro, é inegável ver que o piano, por mais que sirva de fio condutor e enlace temático, cria uma repetição cíclica que transforma as faixas em versões relativamente diferentes umas das outras. A cantora até mesmo parece prolongas as mesmas sílabas que construções predecessoras, coisa que acontece em “Diagnosis” e em “Missing the Miracle”. “Losing the Plot”, mesmo que sofra do mesmo mal e entregue uma familiaridade saudosista demais, ao menos é acompanhada por uma pontual percussão que a alimenta em direção a algo novo e que preza pelo teatralismo dramático.

Os melhores momentos, de fato, se destinam às construções que ousam sair da zona de conforto – em outras palavras, ocorrem quando Morissette mergulha de cabeça em algo que não imaginaríamos. Afinal, sua carreira é marcada por singles como “Ironic” e “Guardian”, pautados em engessadas atribuições de gêneros artísticos – e isso não quer dizer que sejam ruins, muito pelo contrário. Mas aqui, em inflexões como “Nemesis”, “Her” e “Reckoning”, há um flerte do comodismo popular com o folk e até mesmo o psych-rock, suis-generis normalmente explorados por grupos independentes. Eventualmente, é isso que resgata o tom grandioso de seus primeiros CDs e, aliando-se a dissonâncias ousadas e arriscadas, traz Alanis de volta para o lugar que lhe pertence por direito (mesmo que, nesse meio tempo, também nos dê a esquecível “Sandbox Love”).

Terminando sua aventura com a orquestral e evocativa “Pedestal”, Such Pretty Forks in the Road pode até ter precisado de um certo polimento ou até mesmo uma edição mais concisa; de qualquer forma, o brilhantismo da obra não é apagado em momento algum e, no final das contas, estamos falando de Alanis Morissette: dentro dos limites que se autoimpõe, ela diz tudo o que precisa dizer, sem desculpas, sem arrependimentos.

Nota por faixa:

  • Smiling – 3/5
  • Ablaze – 5/5
  • Reasons I Drink – 4/5
  • Diagnosis – 3/5
  • Missing the Miracle – 3,5/5
  • Losing the Plot – 4/5
  • Reckoning – 5/5
  • Sandbox Love – 2,5/5
  • Her – 4/5
  • Nemesis – 4/5
  • Pedestal – 4,5/5
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