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Crítica | Alemão 2 – As feridas em aberto de uma sociedade quebrada


No meio da guerra urbana, quem é que tá seguro? Primeiro lançamento nos cinemas da Manequim Filmes, novo selo da Vitrine Filmes para longas comerciais, Alemão 2 nos leva de volta ao famoso complexo localizado no Rio de Janeiro. Assim, acompanhamos os dramas e escolhas de personagens que tem as vidas entrelaçadas por uma operação policial não bem sucedida. Ambientada tempo depois (cerca de 9 anos), da operação que buscava retirar a presença de bandidos do Complexo do Alemão, voltamos a uma complexa problemática urbana ligada à bandidagem e a corrupção, bem longe do discurso de ter uma política social digna que respeite em primeiro lugar o cidadão. O filme é dirigido pelo cineasta José Eduardo Belmonte.

Na trama, voltamos a encontrar policiais em uma operação que acontece no Complexo do Alemão, dessa vez o objetivo é prender um chefe do crime local, Soldado (Digão Ribeiro) que conseguira escapar anos atrás em uma operação liderada por Machado (Vladimir Brichta). Agora, ao lado de outros dois policiais, a novata Freitas (Leandra Leal) e o inconsequente Ciro (Gabriel Leone), Machado precisará lidar com muitos imprevistos em uma estratégia que vai por água abaixo com a chegada de uma quadrilha rival. Mas será que existe mais alguma força por trás de tudo o que acontece? Quem são os verdadeiros chefes que comandam os peões?



O roteiro consegue preencher no campo da reflexão dentro dos paralelos com a realidade, desde as burocracias ligadas à política de uma corporação que deveria ter como princípio máximo defender a população, da corrupção na corporação, até o lado emocional e psicológico de policiais à beira de um colapso estressante colocando suas vidas em risco a cada movimento, também deixa margens para o pensar sobre as operações policiais dentro das favelas e as entrelinhas pouco noticiadas das derrotas das pacificações (principalmente na questão das UPPs – Unidade de Polícia Pacificadora) em pontos com passado e presente violentos e com a clareza de uma ideia totalmente sucateada.

Os personagens são bem definidos. Por serem muito diferentes por si só deixa inúmeras portas abertas sobre o que vai acontecer quando os obstáculos chegarem. As inconsequências viram consequências dentre os vários objetivos que cada um segue. Cada vez mais iminente o confronto, conflituosos modos de agir deixam todas as resoluções entre tiros e violência, ultrapassando linhas bem definidas sobre a questão dos direitos humanos.

Produzido pela RT Features, o filme, que estreou no Festival do Rio de 2021, cumpre seu papel de mostrar o que acontece do lado de fora das janelas de uma cidade que não encontra a paz. O cinema tem esse poder de trazer pra tela feridas em aberto de uma sociedade quebrada, de um país cheio de corrupção onde vidas inocentes são perdidas a todo instante.

Raphael Camachohttps://guiadocinefilo.blogspot.com.br
Raphael Camacho é um profissional com mais de 20 anos de experiência no mercado cinematográfico. Ao longo de sua trajetória, atuou como programador de salas de cinema, além de ter trabalhado nas áreas de distribuição e marketing de filmes. Paralelamente à sua atuação na indústria, Raphael sempre manteve sua paixão pela escrita, contribuindo com o site Cinepop, onde se consolidou como um dos colaboradores mais antigos e respeitados deste que é um dos portais de cinema mais queridos do Brasil.
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