Filme assistido durante o Festival de Toronto 2020

Existem tantos pequenos universos restritos, que escondem em si uma infinidade de riquezas imateriais e abarcam jornadas fascinantes. Histórias de comunidades jamais contadas para além das familiares rodas de conversa comunitária e que poderiam se perder no tempo, não fosse o cinema. E talvez seja esse um dos aspectos mais fascinantes de Alma de Cowboy (Concrete Cowboy), drama produzido e estrelado por Idris Elba, Caleb McLaughlin (Stranger Things) e Jharrel Jerome (Olhos que Condenam). Aqui, uma singela janela se abre diante da audiência, revelando uma extensão apaixonante de um lado tão peculiar e particular da comunidade negra.



Nos apresentando a um clã de cowboys negros, a produção se inspira no Fletcher Street Urban Riding Club, uma antiga organização que visa perpetuar a equitação nos centros urbanos, no norte da Filadélfia. Uma tradição que forma cavaleiros negros, o grupo vai além do cuidado com os animais, sendo também uma engrenagem fundamental no combate à marginalização de jovens pretos. Como um estilo de vida que ultrapassa as fronteiras da esportividade, o clube é um instrumento de cura, restauração e reinserção social em uma comunidade onde muitos estão na mira de uma vida devassa e criminal.

Funcionando como um apelo sociocultural e uma vitrine a respeito da versatilidade da negritude norte-americana, o longa de Ricky Staub é encantador e quase didático quando o assunto é a importância de pertencer a uma comunidade. Tomando a audiência pela mão, ele nos leva a uma jornada profundamente intimista a partir da tumultuada relação familiar entre pai e filho, vividos aqui por Elba e McLaughlin. Rejeitado a vida inteira, o astro de Stranger Things personifica o estereótipo do abandono e da alienação parental. Inquieto e maltratado pelas circunstâncias, ele cresceu à margem da sua própria existência e se tornou um rapaz problemático, que de fato só precisava ser amado para compreender o seu valor.

E é quando pai e filho são forçados a viver juntos pela primeira vez que uma nova dinâmica surge. Muito mais que uma transformação familiar, aqui nascem também duas novas pessoas, que encontram na equitação urbana um ponto de contato, além do conforto de uma comunidade que valoriza o seu passado, ama o seu presente, mas teme por um futuro onde ser um cowboy de asfalto talvez seja extirpado da sociedade contemporânea – que respira carros automáticos e veículos de altíssima velocidade.

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Dando voz aos anseios dos cavaleiros urbanos pretos, Alma de Cowboy visa sensibilizar o mundo a respeito da importância da cavalaria como parte da construção do caráter e da identidade de tantos homens e mulheres pretos. Trazendo a premissa do pertencimento como o coração da trama, o drama projeta os holofotes em um povo simples e de fala mansa, que não precisa de muito para sobreviver. Com uma fotografia simples e um roteiro que também traz os seus clichês emotivos, o longa é uma experiência acalentadora, instrutiva e cativante, que abre um pequeno e valioso mundo que talvez jamais fôssemos conhecer.

Com atuações impactantes e uma dinâmica riquíssima entre Elba, McLaughlin e Jerome, o drama roteirizado por Ricky Staub e Dan Walser ainda homenageia cavaleiros reais da Fletcher Street, tornando-os protagonistas da sua própria história até mesmo dentro do filme. Emocionante e revelador, Alma de Cowboy é um retrato de uma subcultura que só evidencia a versatilidade e amplitude da ancestralidade africana em seu povo.



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