Crítica | American Horror Story – 09×08: Rest In Pieces

Crítica | American Horror Story – 09×08: Rest In Pieces

Nota:


Quando American Horror Story: 1984’ estreou, definitivamente não imaginávamos que narrativa chegaria onde está agora. De fato, o nono ano da aclamada antologia de Ryan Murphy deu a entender que seria apenas uma homenagem aos clássicos filmes slasher dos anos 80 (como indicou seu subtítulo), sendo até mesmo ambientado em um aterrorizante acampamento à la Sexta-Feira 13. Em meio a claras influências e aos tributos que se prestou a colocar nas telinhas, a iteração delineou uma competente história que não apenas se valeu de deliberadas nostalgias, mas que encontrou uma identidade própria que, agora, caminha para um glorioso season finale.

Depois de uma interessante construção na semana passada, a série volta seus holofotes para alguns frenéticos acontecimentos que pavimentam o caminho para o último capítulo – incluindo a constante expansão de sua contida mitologia. De um lado, temos o cenário amaldiçoado no qual se insere o Acampamento Redwood, que ganha cada vez mais habitantes: se anteriormente descobrimos o motivo do encarceramento dos espíritos naquele lugar, estamos agora mergulhando em explicações que clamam por uma conclusão. Lavinia Richter (Lily Rabe) funciona como o elo de todos os protagonistas e coadjuvantes inseridos em um ciclo eterno de raiva e ressentimento e, ao que tudo indica, ela precisa encontrar sua paz interior antes de permitir ou auxiliar os outros mortos a saírem daquele lugar. Entretanto, as coisas são mais complicadas do que parecem e auxiliam no dinamismo narrativo do episódio.

Lavinia funciona como uma problemática personagem traumatizada pela morte do filho mais novo e rancorosa quanto ao mais velho, que conhecemos pelo nome de Mr. Jingles (John Caroll Lynch). Mas ela não é exatamente a antagonista da iteração; na verdade, para quem pensava que a saturação de serial killers não encontraria níveis ainda maiores, sinto lhes informar de que se enganaram: Em “Rest in Pieces”, Richard Ramirez (Zach Villa) encontra-se em um patamar intocável, respaldado pela demoníaca proteção de Satã – mas dessa vez ele não está sozinho: além de ter cruzado caminho com Bruce (Dylan McDermott), ele se uniu à controversa e condenável personalidade de Margaret Booth (Leslie Grossman), cujo único objetivo e transformar o grotesco e o mortal em um negócio lucrativo ao extremo. Não é surpresa que o trio decide orquestrar mais um magnífico massacre, o terceiro de uma icônica trilogia.

Enquanto o reino de terror ganha um palanque considerável, Montana (Billie Lourd) e Xavier (Cody Fern), munidos pelo apoio das outras vítimas do Acampamento, utilizam o ódio e a falta de prospecto para qualquer coisa para se vingarem. Mesmo que Jingles tenha tirado a própria vida, os monitores e os visitantes de Redwood juram transformar a eternidade em uma era de tortura, matando-o de novo e de novo e de novo até o momento que ceda à exaustão.

Gwyneth Horder-Payton retorna para a cadeira de direção, já que é uma das frequentes colaboradoras de Ryan Murphy e Brad Falchuk, e funde em um único escopo ação, drama e uma contemplação literária que não é nada menos que envolvente e sutil. Horder-Payton abre espaço para trazer elementos da estética modernista, incluindo o “presente suspense” da cronologia da temporada. Visto que lidamos com uma trama que envolve espíritos raivosos e presos contra sua vontade em uma espécie de masmorra etérea, é natural que o roteiro resolva abolir as construções palpáveis de tempo e espaço, envolvendo-se com a ideia neoplatônica do perpétuo retorno. Dessa forma, a diretora cria breves sequências alheias à lógica temporal principal e faz com que os personagens sejam embebidos em arcos de redenção e de consumação.

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O principal deles tem início com a clara emulação da saga de Jason Vorhees, durante a qual o falecido Bobby arrasta Jingles para o fundo do lago e o leva para um paraíso perdido em que a família se reencontra – presos, é claro, mas juntos em uma esperançosa tentativa de começar mais uma vez (mesmo que seja no além-vida). Em contrapartida, o eterno presente mencionado acima deixa de existir quando a perspectiva muda para Brooke (Emma Roberts) e Donna (Angelica Ross), as sobreviventes do último massacre que ainda não se sentem completas até que a última gota de sangue de seus inimigos tenha sido derramada.

‘1984’ se nutre de similaridades com outras temporadas ao aglutinar muitas personas. Mas diferente de suas conterrâneas, a equipe técnico-artística sabe como manejá-los e convergi-los para um pano de fundo comum. A brevidade de suas backstories não ofusca o que realmente importa; pelo contrário, ela impõe uma compulsória busca pela completude narrativa. Talvez esse seja o principal motivo pelo que não nos sentimos exauridos ou entediados com todas as transcrições para as telinhas – e o explique a intensa e imediata aceitação da crítica e do público pelo novo capítulo da antologia.

“Rest in Pieces” é uma das melhores entradas do nono ano de American Horror Story e começa a amarrar várias pontas soltas. Entretanto, precisaremos esperar até a próxima semana para descobrir se esse extremo cuidado vai valer a pena ou se irá se valer de apressadas conclusões e resoluções sem qualquer coesão.



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