sábado, fevereiro 7, 2026
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Crítica | American Horror Story – 09×08: Rest In Pieces





Quando American Horror Story: 1984’ estreou, definitivamente não imaginávamos que narrativa chegaria onde está agora. De fato, o nono ano da aclamada antologia de Ryan Murphy deu a entender que seria apenas uma homenagem aos clássicos filmes slasher dos anos 80 (como indicou seu subtítulo), sendo até mesmo ambientado em um aterrorizante acampamento à la Sexta-Feira 13. Em meio a claras influências e aos tributos que se prestou a colocar nas telinhas, a iteração delineou uma competente história que não apenas se valeu de deliberadas nostalgias, mas que encontrou uma identidade própria que, agora, caminha para um glorioso season finale.

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Depois de uma interessante construção na semana passada, a série volta seus holofotes para alguns frenéticos acontecimentos que pavimentam o caminho para o último capítulo – incluindo a constante expansão de sua contida mitologia. De um lado, temos o cenário amaldiçoado no qual se insere o Acampamento Redwood, que ganha cada vez mais habitantes: se anteriormente descobrimos o motivo do encarceramento dos espíritos naquele lugar, estamos agora mergulhando em explicações que clamam por uma conclusão. Lavinia Richter (Lily Rabe) funciona como o elo de todos os protagonistas e coadjuvantes inseridos em um ciclo eterno de raiva e ressentimento e, ao que tudo indica, ela precisa encontrar sua paz interior antes de permitir ou auxiliar os outros mortos a saírem daquele lugar. Entretanto, as coisas são mais complicadas do que parecem e auxiliam no dinamismo narrativo do episódio.

Lavinia funciona como uma problemática personagem traumatizada pela morte do filho mais novo e rancorosa quanto ao mais velho, que conhecemos pelo nome de Mr. Jingles (John Caroll Lynch). Mas ela não é exatamente a antagonista da iteração; na verdade, para quem pensava que a saturação de serial killers não encontraria níveis ainda maiores, sinto lhes informar de que se enganaram: Em “Rest in Pieces”, Richard Ramirez (Zach Villa) encontra-se em um patamar intocável, respaldado pela demoníaca proteção de Satã – mas dessa vez ele não está sozinho: além de ter cruzado caminho com Bruce (Dylan McDermott), ele se uniu à controversa e condenável personalidade de Margaret Booth (Leslie Grossman), cujo único objetivo e transformar o grotesco e o mortal em um negócio lucrativo ao extremo. Não é surpresa que o trio decide orquestrar mais um magnífico massacre, o terceiro de uma icônica trilogia.

Enquanto o reino de terror ganha um palanque considerável, Montana (Billie Lourd) e Xavier (Cody Fern), munidos pelo apoio das outras vítimas do Acampamento, utilizam o ódio e a falta de prospecto para qualquer coisa para se vingarem. Mesmo que Jingles tenha tirado a própria vida, os monitores e os visitantes de Redwood juram transformar a eternidade em uma era de tortura, matando-o de novo e de novo e de novo até o momento que ceda à exaustão.

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Gwyneth Horder-Payton retorna para a cadeira de direção, já que é uma das frequentes colaboradoras de Ryan Murphy e Brad Falchuk, e funde em um único escopo ação, drama e uma contemplação literária que não é nada menos que envolvente e sutil. Horder-Payton abre espaço para trazer elementos da estética modernista, incluindo o “presente suspense” da cronologia da temporada. Visto que lidamos com uma trama que envolve espíritos raivosos e presos contra sua vontade em uma espécie de masmorra etérea, é natural que o roteiro resolva abolir as construções palpáveis de tempo e espaço, envolvendo-se com a ideia neoplatônica do perpétuo retorno. Dessa forma, a diretora cria breves sequências alheias à lógica temporal principal e faz com que os personagens sejam embebidos em arcos de redenção e de consumação.

O principal deles tem início com a clara emulação da saga de Jason Vorhees, durante a qual o falecido Bobby arrasta Jingles para o fundo do lago e o leva para um paraíso perdido em que a família se reencontra – presos, é claro, mas juntos em uma esperançosa tentativa de começar mais uma vez (mesmo que seja no além-vida). Em contrapartida, o eterno presente mencionado acima deixa de existir quando a perspectiva muda para Brooke (Emma Roberts) e Donna (Angelica Ross), as sobreviventes do último massacre que ainda não se sentem completas até que a última gota de sangue de seus inimigos tenha sido derramada.

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‘1984’ se nutre de similaridades com outras temporadas ao aglutinar muitas personas. Mas diferente de suas conterrâneas, a equipe técnico-artística sabe como manejá-los e convergi-los para um pano de fundo comum. A brevidade de suas backstories não ofusca o que realmente importa; pelo contrário, ela impõe uma compulsória busca pela completude narrativa. Talvez esse seja o principal motivo pelo que não nos sentimos exauridos ou entediados com todas as transcrições para as telinhas – e o explique a intensa e imediata aceitação da crítica e do público pelo novo capítulo da antologia.

“Rest in Pieces” é uma das melhores entradas do nono ano de American Horror Story e começa a amarrar várias pontas soltas. Entretanto, precisaremos esperar até a próxima semana para descobrir se esse extremo cuidado vai valer a pena ou se irá se valer de apressadas conclusões e resoluções sem qualquer coesão.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.

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