Já faz quase dois anos desde que Ryan Murphy e Brad Falchuk, dois dos nomes mais prolíficos do cenário do entretenimento contemporâneo, visitaram pela última vez o assombroso e bizarro universo de American Horror Story. A mais recente temporada da antologia havia estreado em novembro de 2019, migrando para os anos 1980 e construindo uma profunda e sangrenta homenagem aos clássicos slashers como ‘Sexta-Feira 13’, ‘Halloween’ e ‘Pânico’, conquistando o público e a crítica e aumento nossa ansiedade para o que o futuro reservava à série. Agora, depois da medíocre rendição do spin-off American Horror Stories, retornamos para uma décima temporada cuja estreia se configurou como uma das melhores do panteão do terror.

Intitulada ‘Double Feature’, o próprio processo de criação do novo ciclo já veio recheado de mistérios e de especulações diversas. Ninguém imaginava o que a chamada significava, exceto pelo fato de que comprimiria duas temporadas em uma só – uma ambientada no mar, e outra, na terra. Entre teasers misteriosos que traziam resquícios da agourente ‘Roanoke’, em 2016, tínhamos certeza de que Murphy, Falchuk e seu competente time criativo estavam de volta à ativa e prontos para resgatar os elementos primordiais que, outrora, haviam colocado a série no centro dos holofotes. Com o lançamento dos dois primeiros episódios, percebemos que as enganosas aparências eram apenas uma máscara para encobrir as verdadeiras intenções dos showrunners.

A nova temporada é bastante simples e prática, no tocante à estética visual. A alcunha de ‘Red Tide’ foi emprestada a esse compilado de episódios ambientados na mística Provincetown, cidade litorânea de Massachusetts, girando em torno da família Gardner, formada por Harry (Finn Wittrock), Doris (Lily Rabe) e Alma (Ryan Kiera Armstrong). Harry é um roteirista que ainda não teve uma grande virada na carreira e sofre de bloqueio criativo; Doris, por sua vez, é uma aspirante à decoradora que conseguiu um trabalho na supracitada cidade para reformar completamente a casa; e Alma é uma jovem criança cujo sonho é tocar na orquestra sinfônica de Nova York e cujo excesso de determinação a causa constantes frustrações. Em meio a uma fachada que parece perfeita, esse núcleo de protagonistas emerge de uma bolha urbana que deixaram no passado para uma jornada de autodescobrimento aterrorizante que envolve criaturas sugadoras de sangue e o desejo pernicioso pela fama e pelo sucesso.



A princípio, nota-se que Murphy e Falchuk tomam para si fórmulas conhecidas do gênero, apostando em uma quase história de origem que carrega os arquétipos clássicos do horror. A sólida estrutura familiar é invocada por forças sobrenaturais a um cenário pitoresco, marcado por cores frias e por uma atmosfera agonizante de que algo está fora do lugar; dia após dia, percebem o erro que cometeram e, mesmo assim, não conseguem se desvencilhar dos prazeres momentâneos que a cidadezinha fornece – como o bar local, a belíssima vista ou então as “pílulas de aprimoramento criativo” (que têm papel crucial na narrativa). Mais do que isso, os showrunners talham uma arquitetura metalinguística, através da qual autorreferenciam a diligência artística e delineiam extensões de si mesmos – não é à toa que cada personagem tenha uma altíssima veia expressiva, desde o garoto de programa Mickey (Macaulay Culkin) até a conturbada moradora de rua Karen (Sarah Paulson).

Afastando-se do comodismo dramático, mas sem abandoná-lo por completo, American Horror Story: Double Feature’ tem um apreço por analisar o idealismo da Arte (marcado propositalmente com maiúscula) em dois pesos e duas medidas: para aqueles que se identificam com os arcos dos protagonistas e coadjuvantes, é muito fácil calcar relações com frustrações constantes e comportamentos autodestrutivos com o mote “eu não sou bom o suficiente”. Afinal, o maior medo de um artista é se misturar a uma massa amorfa de pura mediocridade – motivo que leva Harry a recorrer aos métodos mais inesperados para sair dessa crise. É nessa montanha-russa de sentimentos contraditórios que ele cruza caminho com dois célebres nomes: Belle Noir, alter-ego da romancista best-seller Sarah (Frances Conroy), e o premiado dramaturgo Austin (Evan Peters). Ambos o ajudam a alavancar sua carreira – mas com um preço caro demais a pagar.

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É claro que o ritmo dos dois capítulos iniciais pode ser um problema àqueles que acostumados a estreias mais dinâmicas da antologia – como ‘Murder House’, ‘Asylum’ ou ‘Coven’. Entretanto, é preciso reafirmar que cada peça se encaixa perfeitamente para revelar o tom da narrativa e de que forma os costumeiros maneirismos de Murphy deixam de existir em prol de uma estética mais coesa e elegante, tangenciando uma amadurecida superioridade que esperamos permanecer nos episódios seguintes. Os enquadramentos distorcidos, acompanhando da energia quase simbiótica de lentes exageradas, são colocados de lado por um motivo: dar total liberdade à sensorialidade performática, seja dos atores, seja da tétrica e dissonante trilha sonora.



A 10ª temporada de American Horror Story começa do melhor jeito possível – e demonstra que seus criadores ainda não perderam a mão e têm muito a oferecer. Com potencial enorme, ‘Double Feature’ tem todos os ingredientes necessários para se tornar uma das melhores entradas da série (algo que apenas o tempo dirá).

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