Crítica | Angel e Papi encontram o final feliz no desequilibrado sexto episódio da 3ª temporada de ‘Pose’

spot_img
spot_img
CríticasCrítica | Angel e Papi encontram o final feliz no desequilibrado sexto episódio da 3ª temporada de 'Pose'

Se pararmos para pensar, a marca registrada de ‘Pose’ é o seu competente melodrama. Diferente das incursões novelescas que permeiam as produções de Ryan Murphy e companhia (vide ‘Hollywood’ e até mesmo ‘American Horror Story’), a produção fez um retorno glorioso à cultura ballroom dos anos 1980 e 1990 e aproveitou para não apenas focar no glamour da época, mas sim nos inúmeros preconceitos sofridos pela comunidade LGBTQ+, inclusive os membros transsexuais, expulsos de casa, sem quaisquer perspectivas de vida e obrigados a se renderem à prostituição. Não é surpresa, dessa forma, que cada capítulo tenha sido construído da forma mais cândida e emocionante possível, nos arrancando lágrimas semana após semana.

Agora, caminhando para o penúltimo episódio da terceira temporada, a produção resolve finalizar diversos arcos e focar em um lado mais otimista das múltiplas narrativas apresentadas – colocando nos holofotes o longo e árduo relacionamento de Papi (Angel Bismark Curiel) e de Angel (Indya Moore), que vinha passando por inúmeros problemas desde o capítulo anterior, com a descoberta de que Papi tinha um filho e que ele decidira tomá-lo para si após a morte da mãe biológica. É claro que, numa perspectiva mais ampla, nenhum dos dois carregava culpa pela mudança ocasionada em suas vidas, motivo pelo qual não tiramos razão de Papi querer ficar com o filho nem tiramos a razão de Angel de querer cancelar o casamento por não estar pronta para ser mãe. Entretanto, essa adversidade não parece durar muito e culmina em uma autorrealização um tanto quanto rápida demais para o ritmo minucioso da série, apostando em frenéticos desenlaces em prol de um final feliz que não é tão denso quanto poderia ser.

“Something Old, Something New”, como ficou intitulado a sexta iteração, parece não saber exatamente de que modo proceder, ainda mais em virtude de tantas subtramas que disputam pelo centro do palco. Além de Angel e Papi, temos o problema da cegueira que vem tomando conta de Pray Tell (Billy Porter), em virtude das comorbidades do HIV, e sua compreensão de que o fim está próximo; como se não bastasse, Lulu (Hailie Sahar) lida com um relacionamento complicado e tóxico, bem como o fato de estar se livrando do vício em drogas dia após dia; e, no topo de tudo isso, a personagem de Moore resolve concluir uma longa caminhada ao tentar convencer o pai, com quem já mantinha contato há muitos anos, a entrar com ela na cerimônia do casamento (sem muito sucesso, como é de se esperar). Porém, nenhuma dos promissores enredos parece fazer qualquer sentido em mais de uma hora de exibição, sendo jogados em profusão e buscando por desenvolvimentos de arcos que já são complexos o suficiente para nos envolverem.

O episódio em si não é ruim, ainda mais considerando a química que Moore e Bismark desfrutam no altar e uma espécie de “cena pós-créditos” que finalmente os une em uma família afortunada. Porém, caracterizá-lo como “bom” também não faz jus às incríveis joias que Murphy, Steven Canals e Janet Mock já nos entregaram. Até mesmo a direção, que fica a encargo de Mock, não parece tão inspirada quanto num passado recente: o jogo de câmeras apenas menciona as imagens dos bailes noturnos e, apesar de criar uma espécie de melancolia nostálgica aos protagonistas – ainda mais no tocante a Pray Tell e a Blanca (Mj Rodriguez) -, deixa de lado os estonteantes figurinos e a celebração da vida para as fórmulas das inflexões familiares e de uma previsibilidade bastante repetitiva.

À medida que demonstra apreço pela já mencionada construção antológica, nota-se que tanto o roteiro quanto a condução do capítulo se rendem a uma fragmentação multifacetada que não chega a lugar nenhum. Com exceção da breve sequência declamatória entre Angel e suas madrinhas de casamento – em que até mesmo Elektra (Dominique Jackson), colocada em segundo plano, volta a reafirmar sua ambígua e superprotetora personalidade -, as peças parecem não se encaixar com a naturalidade esperada, deixando a humanidade de lado e apressando-se para entregar ao público o que quer: os breves momentos de paz e de prosperidade para pessoas marginalizadas que se contentam com o presente e não conseguem pensar no dia de amanhã. De fato, a história centrada em Angel e Papi, que já vinha dominando a produção há algum tempo, é uma carta de esperança àqueles que desistiram do amor – um aspecto bem importante, considerando a imprescindível temática da série.

Postando-se como um filler esquecível, pela falta de outro adjetivo condizente, o sexto e penúltimo episódio de ‘Pose’ peca pela falta de estrutura e, por mais que tente recuperar o que foi perdido, força-nos a uma catarse bruta que, em qualquer outro momento, funcionaria com mais convicção do que aqui. De qualquer forma, um equívoco como esse não apaga o brilho da temporada – e com certeza não nos deixa menos animados para o aguardado series finale da próxima semana.

avatar do autor
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.

Inscrever-se

Notícias

Tom Hanks admite que ODEIA alguns de seus filmes

Em uma recente entrevista ao The New Yorker, o...

10 filmes que vão virar seus favoritos da semana

Toda nova semana vamos trabalhar já pensando no próximo...

Amor é TESTADO no trailer de ‘Buzzheart’, novo TERROR do diretor de ‘A Última Casa’

O terror psicológico 'Buzzheart' ganhou o primeiro trailer.Confira e...