Ariana Grande tem uma das trajetórias mais interessante da indústria do entretenimento – e uma das mais gloriosas, sem sombra de dúvida. Tendo estrelado a série teen ‘Brilhante Victória’, da Nickelodeon, a performer ganhou uma legião de fãs ao interpretar a irreverente Cat, ganhando um spin-off que não fez o mesmo sucesso que a produção anterior. Entretanto, não foi até o lançamento de seu primeiro álbum de estúdio, Yours Truly, que Grande conseguiu mostrar suas habilidades artísticas com competência irretocável e com aclamação surpreendente, mergulhando de cabeça no R&B com singles cativantes e uma estrutura refrescante quando comparada à recente re-insurgência do synth-pop e do electro-house. E, enquanto muitos acreditavam em um momentâneo sucesso, ela provou que não veio para brincar.

Com vendas espetaculares, inúmeras indicações ao Grammy Awards (levando injustamente apenas uma estatueta até agora), ela redescobriu sua voz e se reinventou álbum após álbum, amadurecendo com força inigualável e que há muito não víamos no cenário contemporâneo – não desde Lady Gaga, pelo menos, que em 2014 já lidava com as belíssimas incursões com jazz com ‘Cheek to Cheek’. Apenas no ano passado, Grande voltou a roubar os holofotes com sua rendição trap-pop ‘Thank U, Next’, que dominou as paradas e os corações de seus fãs, angariando mais adoradores de seu incisivo liricismo e de suas composições envolventes. Não demorou muito até que Ariana começasse a trabalhar no próximo capítulo de sua carreira, abrindo espaço para Positions, um retorno magistral para o estilo que a pôs no topo do mundo com uma pungência diabolicamente sensual e narcótica.

Ao longo de catorze faixas, a sexta obra da cantora e compositora é, talvez, a sua mais bem organizada – nutrindo-se de uma coesão espetacular e de uma complexa “originalidade nostálgica”. A faixa epônima, lançada como música promocional (a única, até agora), já nos deu um pequeno vislumbre do que poderíamos esperar, amalgamando uma combinação equilibrada e exuberante do singelo trap e do R&B, assumindo, como nunca, sua sexualidade, seus desejos e até mesmo seus fetiches. Entretanto, se você achava que a track era explícita o bastante, definitivamente não estava preparado para uma jornada movida à luxúria e insurgindo como representação máxima de uma mulher que sabe muito bem o que quer da vida.

Ariana parece unir o melhor dos dois mundos e resgata elementos sonoros de iterações predecessoras – incluindo as fascinantes progressões de seu début e os vocais explosivos de Dangerous Woman. Como se não bastasse, as performances ganham uma camada teatral, convidando-nos a sentar e a apreciar o que ela tem para nos oferecer: “shut up” abre com uma construção clássica, regada a violinos, violoncelos e as notas minimalistas que um violão que dão o toque final para um confessional solilóquio com múltiplas respostas vindas de todos os lados (e um flerte apaixonante com o gospel que também dá as caras nas faixas seguintes).



Grande aposta em várias colaborações com artistas de altíssimo calibre, como Doja Cat no divertimento pós-disco de “motive”, The Weeknd no dream-pop “off the table” e Ty Dolla $ign na poderosa semi-balada “safety net”. À medida que nos entregamos às mensagens e às arquiteturas sonoras que ela tão carinhosamente preparou aos ouvintes, é quase impossível não ansiar com altíssimas expectativas pela próxima peça. E, se a primeira metade do álbum já vem com grande impacto, o segundo ato é viciante por todos os motivos certos – incluindo o majestoso ápice da sutileza saudosista de “my hair” e da homenagem ao início do século de “nasty”. Toda a concepção, supervisionada pelas potentes mãos de Mr. Frank, é uma ode ao período compreendido entre os anos 1990 e 2000, com influências que variam desde a melodia das Destiny’s Child até a revolucionária arte de Aaliyah.

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Porém, não pense que Ariana abre mão de seu estilo único e da imagética (no sentido figurado do termo) que permitiu que nos apaixonássemos logo de cara por sua presença. Talvez como ninguém, ela tem uma capacidade de se metamorfosear no que bem entender – e fazer o máximo disso. Suas criações não se reduzem a um gênero, mas arriscam-se em atar os extremos a um fio condutor compreensível, como a infusão nu-disco que se mescla ao primordial R&B em “love language”, as confissões românticas da elegíaca “obvious” e até mesmo na nem tão inspirada “just like magic” (que parece infantil demais quando comparada às outras tracks). Com pouquíssimos erros aparentes e um comando de alguém que tem plena consciência do que deseja fazer e de como pretende caminhar por conta própria, o álbum chega ao fim com a chave de ouro “pov”.

Para aquele que vos fala, Positions é simplesmente a melhor representação do que Ariana Grande representa: sua jovialidade invejável e sua capacidade de oscilar entre gêneros a seu bel-prazer faz com que tudo ganhe vida, uma aureolar invocação que premedita tanto um fin de siècle que deixa claro que ela ainda tem muito a nos contar.

Nota por faixa:

1. shut up – 4/5
2. 34+35 – 4/5
3. motive (feat. Doja Cat) – 5/5
4. just like magic – 3/5
5. off the table (feat. The Weeknd) – 4,5/5
6. six thirty – 4,5/5
7. safety net (feat. Ty Dolla $ign) – 4/5
8. my hair – 5/5
9. nasty – 4,5/5
10. west side – 4/5
11. love language – 4,5/5
12. positions – 4,5/5
13. obvious – 4/5
14. pov – 5/5



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