Às 22h10min de uma noite qualquer, um homem misterioso abre as portas de um restaurante Norms, alegando ter vindo de um futuro pós-apocalíptico em que uma tecnologia de inteligência artificial destruiu metade da população mundial e condenou a outra metade a viver em uma falsa realidade, obrigando-os a uma complacência inconsciente. E isso não é tudo: os catastróficos avisos vêm acompanhados do anúncio de que aquela não é a primeira, nem a segunda, mas a 117ª vez que ele volta para aquele mesmo momento, tentando encontrar a combinação certa de recrutas (dentre os clientes que estão no restaurante) para ajudá-lo a encontrar o responsável pela criação da IA e infundi-la com um protocolo de segurança.
Essa é a excêntrica e instigante atmosfera de ‘Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra’, o novo filme do conhecido diretor Gore Verbinski. Na inesperada comédia ácida sci-fi estrelada pelo vencedor do Oscar Sam Rockwell, o cineasta se apropria do complexo cenário em que vivemos para tecer uma indesculpável crítica à subserviência à tecnologia e às redes sociais, em que o mundo virtual se transforma em um escape do mundo atomizado em que vivemos. Já tendo explorado temas mais intrincados no subestimado ‘A Cura’, de 2016, Verbinski retorna ao circuito cinematográfico com um dos melhores filmes do ano – e o seu primeiro em uma década.

Assim como o longa anterior, o realizador se apoia no desejo intrínseco dos indivíduos em fugir da dura realidade que eles mesmos criaram, em que é preferível fugir do que se conhece do que permanecer na palpabilidade de uma cruel existência. Dessa maneira, o misterioso homem encarnado por Rockwell – cujo nome não nos é revelado em momento algum, como metáfora para a dissolução da alteridade humana perante a queda da civilização moderna -, é o responsável por acordar as vítimas do próprio sistema da maneira mais incisiva e contundente possível. Para tantos, ele recruta sete clientes que, por alguma razão, prenunciam que essa tentativa de preservar uma sociedade prestes a ruir é diferente das outras.
O plano envolver escapar de um cerco policial que rodeia o restaurante e está pronto para exterminar qualquer um à sua frente, cruzar uma vizinhança povoada por mercenários, dissidentes do exército e ratos selvagens, chegar à casa de um gênio de nove anos de idade que criou a perigosa IA e plugar o dispositivo com o protocolo de segurança. E, conforme o intrigante e bizarro Homem do Futuro repete várias vezes que é bem provável que todos morram naquela noite, somos arrastados para uma inesperada e espirituosa aventura tour-de-force que conta com personagens envolventes e uma pungente análise sobre o agora.

Ao longo de pouco mais de duas horas, o enredo se divide em alguns núcleos unidos pela mesma temática. O primeiro deles acompanha os professores Janet (Zazie Beetz) e Mark (Michael Peña), que enfrentam uma horda de adolescentes hipnotizados por uma entidade virtual; o segundo, a inconsolável Susan (Juno Temple), uma mãe que perdeu o filho durante um tiroteio escolar, recorrendo a um programa de clonagem para tê-lo de volta até perceber o erro que cometeu; e Ingrid (Haley Lu Richardson), uma jovem alérgica a celulares e a wi-fi que perde seu namorado para uma realidade virtual que promete lhe dar felicidade e paz.
Cada uma dessas tramas, incluindo a do Homem do Futuro, é um reflexo propositalmente hiperbólico de algo que vem se tornando mais comum dia após dia – uma dependência compulsória por telas e pelo pseudo-mundo que o virtual nos apresenta, construindo uma relação quase parassocial em que laços concretos se diluem para dar espaço a uma transbordante quantidade de bombardeios audiovisuais compactados e incessantes. Conforme somos introduzidos a um espectro narrativo que já é distópico em sua essência desumanizadora e totalmente predatória, o inóspito futuro de onde o viajante veio torna-se inescapável e, em um âmbito mais metonímico, um iminente alerta.

O sucesso do filme não provém apenas dos intrincados temas que o compõe, mas de um trabalho meticuloso do elenco que arranca atuações arrojadas e, ao mesmo tempo, leves o bastante para não se levarem a sério demais conforme seguem o frenético ritmo do roteiro de Matthew Robinson. Em outras palavras, as absurdas falas e reviravoltas ganham camadas mais profundas quando confrontadas com arcos inesperadamente intensos – e que permitem que cada ator e atriz brilhe à sua maneira, com destaque às performances de Rockwell, Richardson e Temple.
Ao passo que caminha para uma ousada e satisfatória conclusão, ‘Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra’ é um comentário mordaz de um futuro manifesto e que se desenrola bem à frente dos nos narizes, encantando-nos com uma dose certeira de suspense, drama e comédia que o torna ainda mais delicioso. É claro que alguns excessos da produção podem não ser do agrado de todos, mas suas imprevisibilidades e sua ostensiva arquitetura com certeza são o bastante para contentar.





