Vênus Elétrica (La Vénus Électrique) segue quase à risca a tradição recente dos filmes de abertura do Festival de Cannes: obras leves, elegantes e apaixonadas pela própria cultura francesa. Se no ano passado tivemos uma comédia musical, Partir um Dia agora o festival abriu suas portas para uma comédia romântica ambientada na Paris dos anos 1920, mergulhando naquele imaginário boêmio, artístico e circense que o cinema francês adora revisitar. O diretor Pierre Salvadori utiliza bem o fascínio dessa época. O bairro Montmartre ainda aparece menos urbanizado, os circos itinerantes funcionam como pequenas comunidades marginais e a arte surge como um espaço simultaneamente de encanto e sobrevivência.
No centro dessa história está Suzanne (Anaïs Demoustier), uma jovem vendida pelo próprio pai para trabalhar no circo. Seu papel é justamente aquele que dá nome ao filme: a “Vênus Elétrica”, atração em que homens recebem descargas elétricas enquanto a beijam. Existe algo de melancólico por trás da comicidade da ideia, porque Suzanne transforma o próprio corpo em espetáculo enquanto é muito pouco recompensada por isso.
Os roteiristas, no entanto, nunca pesam excessivamente a mão nesse drama. O roteiro prefere trabalhar a partir da delicadeza da farsa, usando o humor e a sedução para construir a trajetória da personagem, que encontra em meio à precariedade uma chance inesperada de reinventar a própria vida.

Essa oportunidade surge quando Antoine Balestro (Pio Marmaï) entra bêbado no trailer da médium do circo pedindo para contactar Irène. Ele oferece dinheiro suficiente para que Suzanne aceite a situação. Observando como a falsa médium costuma conduzir suas sessões, ela improvisa uma narrativa sentimental, e Antoine acredita ter reencontrado sua amada.
Bastante consciente de que essa mentira possui prazo de validade, o filme nos envolve pelo tom cômico, pois a farsa inevitavelmente irá desmoronar. Como nas boas comédias shakespearianas, o prazer não está no segredo em si, e sim em acompanhar as emoções e os mal-entendidos que nascem dele.
Com uma história leve e previsível, é o elenco que faz toda a diferença. Pio Marmaï entrega um Antoine simultaneamente ridículo, melancólico e profundamente apaixonante. Existe algo de tragicômico nesse pintor decadente tentando reencontrar inspiração através de um fantasma amoroso. Já Gilles Lellouche, como Armand, adiciona ao filme uma energia quase farsesca, funcionando como alguém que manipula os acontecimentos porque também precisa que Antoine volte a pintar.

Por sua vez, Anaïs Demoustier se entrega completamente a Suzanne, especialmente nos momentos em que a personagem precisa inventar palavras bonitas para sustentar uma mentira que começa, aos poucos, a se tornar emocionalmente verdadeira.
A narrativa ganha ainda mais força quando Suzanne encontra o diário de Irène (Vimala Pons). É nesse ponto que o filme deixa de ser apenas uma comédia de enganos para abrir uma segunda camada narrativa, revelando como Irène conheceu Antoine e como o relacionamento entre eles foi construído muito mais sobre projeções do que sobre realidade. O longa passa então a brincar constantemente com a ideia de imaginação romântica: personagens apaixonados não apenas por pessoas, mas pelas histórias que criam sobre elas. Há algo envolvente na maneira como Suzanne lê aquele diário quase como quem acompanha uma telenovela, reagindo às descobertas ao lado de sua companheira de quarto Camille (Madeleine Baudot) em cenas deliciosamente engraçadas.

Outro acerto de Vênus Elétrica é a reconstrução daquela Paris dos anos 1920. Tudo parece mais intenso, mais inocente e mais escandaloso. Um beijo ainda carrega peso simbólico, um romance pode nascer apenas de um olhar e até a ideia de um artista vivendo de sua pintura parece plausível. Existe uma sequência particularmente engraçada envolvendo Antoine e Armand, em que, durante um momento-chave de revelação, um dos personagens encontra-se em uma posição vexatória, é impossível ser imparcial a esta provocação.
Como toda comédia romântica, a obra se apoia nos erros, mal entendido e enganos, culminando na revelação da verdade. Assim, a farsa desmorona, os sentimentos vêm à tona e os personagens precisam lidar com as consequências de suas invenções. O longa deixa claro que a mentira nunca foi apenas manipulação. Ela funcionava como um disfarce para desejos reprimidos, medos e carências emocionais. Quanto mais Suzanne tentava fugir de si mesma através daquela encenação, mais acabava revelando quem realmente era e o que mais desejava. Vênus Elétrica possui seu próprio encanto, não por reinventar a fórmula da comédia romântica, mas por lembrar como o cinema pode ser sedutor quando acredita na sua própria fantasia.




