Crítica | Boneca Russa – ‘Feitiço do Tempo’ com muito cinismo e roteiro original



Como repetir o mesmo dia todos os episódios e mesmo assim ter um dos roteiros mais originais dos últimos anos? O grande nome por trás do sucesso de Boneca Russa (Russian Doll), lançado na Netflix no início de fevereiro, é Natasha Lyonne. Não somente ela é criadora da história, como produz, protagoniza e dirige o último episódio da série. Ao seu lado neste projeto está a co-criadora Amy Poehler e a diretora/roteirista Leslye Headland (Dormindo Com Outras Pessoas).

Aos moldes de Feitiço do Tempo (1993), Nadia revive sua festa de 36 anos repetidamente em busca de descobrir o motivo da sua volta, no entanto, não é fim do dia que a traz de volta, mas as suas mortes. O seriado começa com Nadia encarando-se no espelho, enquanto lava as mãos, e as batidas da porta do banheiro chamam a sua atenção para a festa do lado de fora ao som de Gotta Get Up, de Harry Nilsson.

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Em uma miscelânea de pessoas, ela recebe um baseado da sua amiga anfitriã Maxine (Greta Lee), encontra Mike (Jeremy Bobb) e acaba levando-o para casa. Ela, no entanto, busca seu gato desaparecido Oatmeal e ao atravessar a rua atrás dele, é atropelada por um carro e morre. Nos segundos seguintes, Nadia está em frente ao espelho novamente, batida na porta, a canção de Harry Nilsson e a impressão de que algo está errado.

Conforme ela vive na sensação de déjà vu e continua a morrer acidentalmente repetidas vezes, as coisas começam a tomar rumos mais estranhos. Natasha Lyonne dá vida à Nadia com maestria, tal como se fosse ela mesma. Cada capítulo tem entre 24-29 minutos, no total de quatro horas de história, e é possível assistir a todos os episódios de uma vez e sentir uma empatia natural por Nadia. Ela é a mulher desta Era, livre das amarras do lugar do sexo feminino nas narrativas modernas. Ela foge de compromissos, é desbocada, cheia de vícios, trabalha como engenheira de software e não se importa com pré-julgamentos.

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Sua presença em tela já é imponente, seu cabelos vermelhos, volumosos e cacheados a apresentam de forma impactante. Os seus maneirismos são divertidos e suas frases sensacionais, sempre tem o que dizer, mas de forma ponderada e racional, tal como os personagens de Nick Hornby (Alta Fidelidade e Um Grande Garoto), mas só que feminina.

Após sucessivas voltas, Nadia começa a tentar achar os meandros para transpor os obstáculos, a sua grande reviravolta e o encontro com Alan (Charlie Barnett), que também morre todos os dias. Com o aprisionamento no tempo em comum, os dois desenvolvem uma amizade necessária.

A narrativa de Alan vai ao encontro da jornada de Nadia e eles tentam entender como pausar o ciclo de voltas pós-morte. Novos personagens coadjuvantes brotam pelos caminhos, mostrando como a vida de cada um deles é rica em redes e conexões. Conforme mais eles vasculham os motivos para esta punição, Alan faz conjecturas religiosas como um purgatório, já Nadia mais racional busca explicações mais científicas no espaço-tempo.

Como uma analogia às bonecas russas, as quais sempre há uma nova dentro da casca anterior, o seriado abre as camadas da protagonista expondo desde as suas memórias mais tristes da infância até sua dificuldade de se aproximar das pessoas. É, claro, que a resolução do looping infinito é o grande desejo de todos, mas, na verdade, é o percurso dos reviventes que faz deste um dos seriados mais fantásticos da Netflix e do ano.

Como diz a amiga e psicanalista Ruth (Elizabeth Ashley), “nós somos narradores pouco confiáveis da nossa própria vida” e, assim, a gente testemunha os dois e nos vemos no espelho para lidar com a resolução de nossos próprios dilemas. Como se Boneca Russa fosse uma corda para impulsionar o público a pensar em cada momento como uma decisão que muda todo o entorno e, principalmente, seu próprio futuro.

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Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Abraccine, Fipresci e votante internacional do Globo de Ouro. Nascida no Rio de Janeiro, mas desde 2019, residente em Paris, é apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.

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Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Abraccine, Fipresci e votante internacional do Globo de Ouro. Nascida no Rio de Janeiro, mas desde 2019, residente em Paris, é apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.