Crítica | ‘Ponto sem Retorno’ – A sonolenta jornada do gigante gentil

Já consagrado no universo do cinema e repleto de sucessos que atravessaram gerações de cinéfilos em todo o mundo, o cineasta norte-americano Ridley Scott, durante boa parte de sua carreira, se jogou em inesquecíveis dilemas imersos em dinâmicas de sobrevivência. Os três filmes da franquia Alien que dirigiu e Perdido em Marte são bons exemplos disso. Quando está afiado, é brilhante. Quando não, percebemos logo de cara.

Em Ponto de Retorno, seu novo trabalho, com roteiro baseado na obra Na Companhia das Estrelas, escrito pelo jornalista Peter Heller, busca-se um ponto de vista bem mais melancólico de uma distopia, em um mundo destruído, acompanhando as ações de um protagonista longe de qualquer carisma, que segue abraçado em um luto incontrolável, sem deixar entrar em seu coração um respingo de esperança.

 

Ambientado em algum período do primeiro semestre de 2035, conhecemos Hig (Jacob Elordi), um ex-mecânico que perdeu a esposa, uma das vítimas de uma epidemia viral que dizimou a maior parte da população mundial. Vivendo para sobreviver ao lado de seu cachorro Jasper, um símbolo de amor em meio ao caos que o mundo se transformou, ele vive numa área protegida ao lado do amigo Bangley (Josh Brolin).

Quando resolve explorar outros lugares, ele acaba encontrando, em uma fazenda isolada, Pops (Guy Pearce) e Cima (Margaret Qualley), pai e filha que criaram maneiras de sobreviver. Quando precisam fugir de pessoas com más intenções, se jogam na esperança de encontrar soluções num lugar chamado Grand Juction, partindo para novas descobertas.

O roteiro, assinado por Heller, Mark L. Smith (Twisters) e Christopher Wilkinson (Ali), percebe uma necessidade de tentar transformar o sentimento de desesperança em impacto quando pensamos em audiovisual. Esse é o primeiro elo da corrente de transformar reflexões, mas que se perde em um marasmo desencontrado. Aos poucos, somos guiados para uma jornada sem alma, gelada, que não sugere, não provoca e ainda repleta de ações convenientes – uma marca registrada de muitos blockbusters que investem no feijão com arroz, tendo como horizonte fórmulas que já deram certo. Aqui, precisava de mais personalidade para causar uma experiência marcante.

Com isso estabelecido, a narrativa busca uma harmonia em elementos estéticos e técnicos que exponha um estado de espírito de um alguém sem norte, perdendo a mão em muitos momentos. A obra mescla pontuais flashbacks imersos em uma melancolia sem potência, buscando conduzir as emoções a partir de experiências de sobrevivência. A paleta fria da fotografia realça o distanciamento emocional e o luto, uma importante base complementar, mas que, por si só, não é o suficiente para causar efeitos contundentes. Essa exploração do que chamo de ‘desesperança modulada’ começa preguiçosa e segue por uma acomodação nada envolvente.

Mesmo com o campo aberto para se discutir a moral em um contexto extremo e específico, só respinga na luta pela sobrevivência, sugerindo grupos isolados que são mais mencionados do que aparecem em cena. Logo, se torna uma distopia que se acovarda em emoções superficiais, preenchendo de forma sonolenta o abraço ao luto e a eterna solidão de um gigante gentil.

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Raphael Camacho
Raphael Camachohttps://guiadocinefilo.blogspot.com.br
Raphael Camacho é um profissional com mais de 20 anos de experiência no mercado cinematográfico. Ao longo de sua trajetória, atuou como programador de salas de cinema, além de ter trabalhado nas áreas de distribuição e marketing de filmes. Paralelamente à sua atuação na indústria, Raphael sempre manteve sua paixão pela escrita, contribuindo com o site Cinepop, onde se consolidou como um dos colaboradores mais antigos e respeitados deste que é um dos portais de cinema mais queridos do Brasil.