Crítica | Carcereiros: O Filme – Realidade prisional cede espaço para trama de ação insana

Crítica | Carcereiros: O Filme – Realidade prisional cede espaço para trama de ação insana

Nota:


Após duas temporadas como série da Rede Globo, Carcereiros agora chega aos cinemas com uma história original. Inspirado em obra de Dráuzio Varella, o filme não traz nada de muito diferente do visto nas telinhas, é basicamente um episódio alongado da série.

A principal diferença entre o que vemos nos cinemas e na TV acaba sendo a escala do roteiro escrito por Marçal Aquino, Fernando Bonassi, Dennison Ramalho e Marcelo Starobinas. O quarteto, também envolvido com a série, optou por criar uma história bem mais ambiciosa nas telonas. O que é interessante, mas que também causa certo desvio do foco. A verdade é que Carcereiros – O Filme deixa um pouco de lado a denúncia social ou o retrato importante do dia a dia dos profissionais e prisioneiros para focar especialmente numa sucessão de sequências de ação.

A trama megalomaníaca acompanha Adriano (Rodrigo Lombardi), um agente penitenciário que recebe a missão de supervisionar um terrorista (Kaysar Dadour) que irá pernoitar no presídio. A situação foge um pouco do controle quando facções criminosas dentro da prisão decidem matar o terrorista e quando um grupo armado invade o local procurando por uma pessoa.

O longa conta com bons momentos de ação e o diretor José Eduardo Belmonte prova mais uma vez que sabe conduzir cenas de tensão, como fez em Alemão. Mas a grande questão é que nunca parece cinema de fato. A escala é maior, mas não temos nada de muito diferente com relação à série.

No elenco, nomes como Milton Gonçalves, Tony Tornado, Jackson Antunes, Dan Stulbach, Bianca Müller e Rafael Portugal. A maioria cumpre bem sua função, embora Lombardi exagere um pouco no sotaque. Há ainda uma certa dificuldade em se adaptar com um papel sério de Portugal. O ator do Porta dos Fundos tem uma voz muito característica, que remete diretamente ao seu trabalho como comediante.

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Carcereiros cumpre bem sua função de entreter o público, mas se perde um pouco ao contar com diálogos verdadeiramente sofríveis e inúmeras pontas soltas ou má desenvolvidas, como a relação de Adriano com a filha ou as consultas do mesmo com uma psicóloga. A opção foi focar na ação e não numa narrativa social, faz com que o filme se aproxima mais da série 24 Horas do que de Carandiru. Tem seus méritos, mas também soa como uma oportunidade desperdiçada. Num contexto social trágico dos presídios brasileiros, parece estranho uma produção tentar tratar de terrorismo internacional. Um pano de fundo da política nacional também surge de forma deslocada, mais numa tentativa de militar facilmente do que realmente se debater política pública e social.

Tecnicamente, o filme se destaca na direção de arte de Claudia Calabi e no figurino de Manuela Mello. A fotografia muito escura prejudica um pouco a melhor absorção de tudo que acontece em cena, embora ajude no desenvolvimento da tensão. Embora com um belo trabalho de som e mixagem, o longa sofre com uma trilha sonora pouco inspirada.

Filme visto durante a cobertura da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo



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