Condecorado com o Troféu Redentor de Melhor Filme de Ficção no Festival do Rio 2025, ‘Pequenas Criaturas’ finalmente chegará aos cinemas brasileiros no próximo dia 23 de julho, reacendendo a potência dos artistas nacionais no escopo da sétima arte – principalmente após o reconhecimento mundial de produções como ‘Ainda Estou Aqui’ e ‘O Agente Secreto’, que mergulharam em um dos períodos mais sombrios da história do Brasil com histórias potentes e marcantes. Agora, chegou a vez da diretora e roteirista Anne Pinheiro Guimarães nos convidar a voltar a um passado não muito distante e revisitar o lento processo de redemocratização pós-Ditadura Militar – entregando uma pequena joia fílmica que nos envolve do começo ao fim.
O longa-metragem nos leva para Brasília de 1986 e nos apresenta a Helena (Carolina Dieckmmann), mãe e esposa que se mudou recentemente para a capital ao lado do marido e dos filhos. Sequer tendo desempacotado as dezenas de caixas que entopem o apartamento em que moram, o esposo de Helena parte em uma viagem de negócios e a deixa na isolada cidade junto aos jovens André (Théo Medon) e Dudu (Lorenzo Mello). Contemplando uma realidade desconfortável e solitária, Helena começa a refletir sobre o que, de fato, quer na vida à medida que o país passa por um momento de transição – colocando-a frente a frente com um labirinto de emoções do qual não consegue escapar.

À medida que ela embarca em uma jornada tardia de amadurecimento, questionando-se o tempo todo se é coadjuvante da própria história, seus filhos também enfrentam um coming-of-age mandatório: André, navegando pelas atribulações da adolescência e pelas angústias do primeiro amor; Dudu, por sua vez, emerge como o caçula da família, apaixonado por filmes de ficção científica e transformando a vastidão melancólica de seu novo lar em um convite ao lúdico e ao imaginativo – que, eventualmente, funciona como a “cola” que os mantém unidos mesmo em meio a tantos problemas.
Escolher Brasília como palco para a trama não foi algo ocasional e reflete, a todo momento, a disputa interna que Helena e os outros personagens sofrem. Ora, se a capital foi erguida como símbolo de um futuro próspero, mas de maneira claramente distanciada dos polos econômicos e sociais do restante do país, o mesmo ocorre com os protagonistas, procurando um prospecto quase etéreo que se desmancha em uma repetição exaustiva da mesmice, afundando-os em uma letargia emocional de onde é quase impossível escapar. Felizmente, a presença de Dudu como a força sonhadora e destemida torna-se essencial na condução da história a um terceiro ato de retomada e de assertividade – guiada pela ótima performance de Mello.

Dieckmmann volta a se reafirmar como uma das atrizes mais versáteis do século ao pincelar a personalidade de Helena com uma apatia derradeira e indescritível, que a consome dia a dia ao passo que é arrastada para um vórtice de frustração e decepção. Seja em atitudes controversas que se transformam em uma culpa destrutiva – como quando atropela um cachorro ou se vê arrebatada por um charmoso escape romântico -, seja em uma recusa à complacência de um “inferno particular” – com a presença ambígua de Letícia Sabatella como uma de suas vizinhas -, Dieckmmann assume as rédeas da história com uma força magistral e que transforma esse drama em uma palpável reflexão psicológica (e que remonta à sua visceral performance em ‘O Silêncio do Céu’).
Guimarães transforma sua epopeia em um círculo inescapável de torpor, que colocando cada um dos personagens em uma espécie de suspensão involuntária da realidade que desesperadamente almeja por algo novo. Não é surpresa que a sufocante fotografia de Pablo Baião transforme as intermináveis campinas de Brasília em muros invisíveis, permitindo que a capital irrompa como uma prisão sem grades – enquanto as breves rupturas promovidas pela direção de arte de Claudia Andrade fornecem uma centelha trêmula de esperança para o enredo que assola Helena, André e Dudu. E o mais interessante é que o roteiro, também de responsabilidade da diretora, utiliza a disfuncionalidade do núcleo principal para arquitetar algumas reviravoltas propositalmente anticlimáticas que culminam em uma inesperada conclusão (para o bem ou para o mal).

‘Pequenas Criaturas’ finalmente chega às salas de todo o Brasil com uma cautela cênica que oferece um outro vislumbre do que o cinema nacional tem a nos oferecer – e, depois de ter sido aplaudido no Festival do Rio, está na hora de apreciarmos essa singela gema fílmica da maneira como ele merece.
