É muito gostoso poder assistir a um filme que conversa com você e te convida a conhecer um universo que o cinema raramente explora com tanta naturalidade. ‘Club Kid‘, comédia dramática escrita, dirigida e estrelada por Jordan Firstman, é uma dessas pequenas delícias que encontramos nos festivais. Sabe aqueles filmes que terminam e você fica querendo conhecer mais os personagens? Pois é. Foi exatamente essa sensação que tive. É um filme divertido, ousado, cheio de personalidade e que consegue ser bastante emocionante quando menos esperamos. Sai do cinema aos prantos…
Jordan Firstman interpreta brilhantemente Peter, um rapaz que vive para as baladas, mas que, no fundo, não se acha lá essas coisas. Ele tem sérios problemas de autoestima, que tenta esconder entre substâncias, música eletrônica e noites intermináveis. Sua melhor amiga e parceira, Sophie (Cara Delevingne), já não aguenta mais seus excessos e decide afastá-lo de uma festa de sucesso que os dois organizavam juntos. Perdido e sem saber muito bem o que fazer da vida, Peter começa a afundar ainda mais no caos que ele mesmo criou.
Até que um dia chega em casa e é surpreendido por uma mulher acompanhada de um garotinho, alegando que a criança é seu filho. Ele entra em pânico e começa a lembrar de uma aventura em um dark room que poderia explicar aquela situação. E sim, de repente, aquele homem gay que mal consegue cuidar de si mesmo descobre que é pai.
O mais interessante é como ‘Club Kid’ consegue tratar uma situação tão absurda com uma sinceridade impressionante. O filme nunca tenta justificar os erros de Peter ou transformá-lo em um exemplo de comportamento. Ele é egoísta, inseguro, engraçado e muitas vezes insuportável, mas também é extremamente humano. Firstman tem uma sensibilidade enorme para equilibrar o humor escrachado com momentos de verdadeira emoção, sem cair naquele sentimentalismo barato que tantas comédias adoram explorar. E sua atuação é maravilhosa, principalmente porque conseguimos enxergar toda a fragilidade do personagem por trás de sua personalidade extravagante. Cara Delevingne também está ótima, trazendo uma espontaneidade deliciosa e perturbadora para Sophie.

E que filme lindo! A fotografia é simplesmente estonteante, explorando as cores, as luzes e toda a energia da vida noturna de Nova York com um capricho que dá gosto de ver. O diretor fez questão de filmar em 35mm e me contou em coletiva que a Kodak enviava para ele os rolos de filmes que sobravam de ‘A Odisseia‘, do Christopher Nolan. E isso faz toda a diferença. O filme tem textura e profundidade. E CORES.
Gosto muito de filmes que não têm medo de usar cores, principalmente em uma época em que tantas produções parecem visualmente sem vida. Jordan Firstman também demonstra uma segurança admirável na direção, conduzindo a história com ritmo, criatividade e uma intimidade muito bonita com seus personagens. Existe um cuidado em cada cena, tanto nos momentos mais caóticos quanto naqueles em que tudo fica mais silencioso. E ele filmou em baladas reais.
Mas quem rouba boa parte do filme é Reggie Absolom, o garotinho que interpreta o filho de Peter. Que criança adorável! Sua presença traz uma doçura inesperada para a história, e a maneira como ele contracena com Firstman é uma das melhores coisas do longa. Existe uma naturalidade encantadora naquela relação, especialmente porque o filme não tenta apressar a transformação do protagonista em um pai perfeito. O menino tem um carisma enorme e consegue conquistar o espectador sem precisar de grandes discursos ou cenas calculadas para arrancar lágrimas. É impossível não se apegar a ele, e a química entre os dois dá ao filme um coração que eu sinceramente não esperava encontrar em uma comédia sobre os excessos da vida noturna.

Firstman também me contou que teve inspirações em ‘Grande Menina, Pequena Mulher‘ (Uptown Girls), meu filme preferido com Brittany Murphy e Dakota Fanning, e eu amo como o roteiro apresenta a comunidade LGBTQIA+ sem ficar explicando tudo ou tentando transformar cada situação em uma lição de moral. Os personagens simplesmente vivem suas vidas, cometem erros, se apaixonam, brigam e tentam encontrar alguma felicidade no meio daquela bagunça. Existe uma liberdade muito gostosa na narrativa, que consegue ser irreverente e carinhosa ao mesmo tempo. É um filme sincero. E talvez seja justamente essa sinceridade que torne ‘Club Kid’ tão especial. Estamos diante de uma história sobre alguém que passa a vida procurando aceitação nas festas e acaba descobrindo uma forma de amor que nunca imaginou experimentar.
Saí da sessão encantado. ‘Club Kid’ é engraçado, emocionante, visualmente belíssimo e tem uma personalidade que muitos filmes maiores dariam tudo para ter. Jordan Firstman se revela um cineasta com um olhar muito particular e entrega uma obra que consegue falar sobre amadurecimento sem perder o humor e a irreverência. É uma dessas surpresas que fazem a gente amar ainda mais o cinema e torcer para que histórias tão diferentes continuem encontrando espaço nas telas. Adorei conhecer Peter e aquele garotinho maravilhoso. E, sinceramente, teria passado muito mais tempo na companhia deles.


