A edição de 2026 do Festival do Rio chega ao fim neste domingo (11), consolidando o evento como uma da maiores vitrines do audiovisual brasileiro. Entre o leque de opções que o festival carioca ofereceu ao longo de quase duas semanas de programação estão alguns curtas-metragens, muitos desses exibidos em sessões compartilhadas com algum longa-metragem. Um encaixe de programação fantástico, que dá a oportunidade desse formato alcançar um público cada vez maior.

De todos os curtas-metragens que assistimos entre os dias 01 a 11 de outubro – e fazendo a importante menção que não deu para ver todos -, quatro obras chamaram nossa atenção.
Antes da sessão do ótimo documentário A Vida Extraordinária de Vera Valdez (que você pode ler a crítica aqui), chegamos até o interessante, e bem imersivo, curta-metragem Fissuras, escrito e dirigido por Diana Coelho. Um filme que conecta os pontos do inconsciente a uma sensação de ausência.

Mexendo com as memórias esquecidas que acabam retornando após o estopim provocado pela saída de um ente querido de um lugar, acompanhamos uma mulher que volta a morar sozinha e começa a viver situações que a perturbam. Ao longo dos dias, nesse novo momento de sua vida, precisa tomar algumas decisões sobre como compreender o que está sentindo.

Sugerindo mais que explicando, Fissuras compre seu papel de nos deixar, ao longo de seus 13 minutos de projeção, com os olhos atentos e reflexões que chegam bem depois que o filme acaba.
Crítica | ‘Fissuras’ – A sensação de ausência e os mistérios da mente (Festival do Rio 2026)
Em um outro dia de Festival do Rio, ficamos de frente com um interessante curta-metragem capixaba chamado Reteté, que investe seus 17 minutos de projeção para apresentar a história de uma criança inserida em uma bolha religiosa, onde a punição, a devoção e a simples vontade de brincar entram em choque, nos levando a inúmeras reflexões.

Ambientada nos anos 1990, acompanhamos Adonai (Elisa Navarro Bertelli), uma jovem que volta e meia está na igreja pentecostal que seus pais frequentam. Hiperativa, divertida e animada, ela não segue à risca o que a igreja impõe, e seu pai começa a medicá-la para que ela se comporte melhor. Após essa situação, sua mãe (Bárbara Colen) começa a perceber que exageros estão sendo cometidos e precisa tomar uma atitude.

A pressão silenciosa é algo que está em cada conflito que o roteiro apresenta, jogando para o público provocações inteligentes.
Crítica | ‘Reteté’ – A pressão silenciosa aos olhos de uma criança (Festival do Rio 2026)
Já na reta final de Festival, outros dois curtas-metragens me fizeram refletir bastante sobre as histórias que foram contadas, A Casa de Dona Carlota e Santo.

O primeiro, em 15 minutos, projeto dirigido por Lili Fialho e Bruna Linzmeyer, que também atua no filme, nos convida para conhecer uma situação ocorrida em meados da década de 1940, em pilares, no subúrbio carioca. Nesse período, um time de futebol feminino lutava contra o preconceito conforme vai realizando feitos esquecidos pela história, sob a liderança de Carlota Alves de Resende, mais conhecida como Dona Carlota, uma empresária, treinadora e fundadora do Primavera A.C.

Se hoje em dia o futebol feminino ainda é tratado como chacota por alguns, fruto do machismo e preconceito em relação a um esporte que deveria ser para todos, imagina naqueles tempos! O fato é que o sucesso do time comandado por Dona Carlota gerou uma onda de críticas preconceituosas, culminando em sua prisão e na proibição do futebol feminino durante a ditadura de Getúlio Vargas.

A obra vai nos levando a reflexões que chegam até os dias atuais, às vésperas de o nosso país sediar a Copa do Mundo de Futebol Feminino.

Já o segundo, o último curta-metragem que assisti durante essa edição do Festival do Rio, nos leva para uma parábola cotidiana entre a fé e o desejo.

Escrito e dirigido por Maria Luísa Alves, a obra, exibida no Festival do Rio 2026, explora os conflitos com a fé pelos olhos de um jovem evangélico que se vê diante de dilemas quando seus desejos despertam de forma inesperada. Em contraponto, o estopim desses sentimentos que borbulham se consolida com a chegada de outro rapaz, dono de um espírito guiado pela espontaneidade que foge de qualquer convenção social e busca a felicidade no dia a dia, pela liberdade que abraça sem planejamentos.

Muito pela perspectiva de um personagem e suas leituras da devoção, seguimos por poucas e certeiras experimentações, que exalam as diversas formas de encontrarmos um oásis através do sentimento mais profundo, que surge quando se menos espera.

O Festival do Rio 2026 contou com uma enorme cobertura do Cinepop. Não deixe de ler todas as nossas críticas e matérias, além de acessar aos vídeos que estão pelas nossas redes sociais.


