Crítica | ‘Matchbox: O Filme’ é a aventura mais ‘Sessão da Tarde’ de 2026

Depois do sucesso de Barbie (2023), a Mattel voltou suas atenções para os cinemas como uma alternativa viável de promover suas franquias. Por isso, a fabricante de brinquedos começou a aprovar adaptações dos estúdios em suas propriedades intelectuais, como Mestres do Universo, que chegou aos cinemas neste ano, e Matchbox, que acabou de chegar ao catálogo do Apple TV+.

Matchbox: O Filme é uma adaptação livre da franquia de carrinhos de ferro que se popularizou nos anos 1960. No mercado de brinquedos, a marca surgiu nos anos 1950 e logo virou referência no ramo das miniaturas. Porém, no final dos anos 60, com a chegada da Hot Wheels, a Matchbox entrou em uma concorrência impressionante, logo perdendo o posto de maior produtora de carrinhos para a rival. No fim, a empresa foi comprada pela Mattel em 1997, virando marca “irmã” da rival, apesar de suas diferenças.

Para quem não conhece a rivalidade entre as marcas, a Matchbox se popularizou mundo afora ao se especializar em reproduzir com fidelidade veículos do cotidiano. Não só carros, mas caminhões, motos, helicópteros e aviões. Enquanto isso, a Hot Wheels chegou com tudo ao mercado para brincar com a imaginação de crianças e colecionadores, com carrinhos tunados e veículos cada vez mais criativos. Por isso, quando anunciaram um filme da Matchbox em vez de um da Hot Wheels, que domina o cenário das séries animadas, por exemplo, e já tem alguns personagens consagrados no imaginário da Cultura Pop, houve um certo estranhamento.

Agora que o filme saiu, ficou plenamente compreensível. Matchbox: O Filme é uma aventura bastante cliché que se apoia no catálogo de veículos da marca para contar uma história de espionagem e amizade, num filme tipicamente família. Há momentos, inclusive, que se você “desligar o cérebro” e se envolver com as bobeiras em cena, talvez até esqueça que está vendo um filme inspirado numa marca de carrinhos.

Estrelada por John Cena, a trama acompanha uma turminha de amigos que é unida pelo amor aos carrinhos da Matchbox. Sean é apaixonado por Aimee, mas não consegue tomar coragem para chamá-la para sair. Com isso, ele acaba se afastando e os anos se passam. Agora adulto, Sean (Cena) é um agente secreto do governo americano e está trabalhando na interceptação de uma bomba nuclear. Porém, após essa missão, ele descobre que um de seus melhores amigos da escola faleceu. De volta à cidade de sua infância, Sean vai ao funeral e reencontra sua turminha. Todos estão crescidos e seguiram caminhos diferentes, mas uma coisa não mudou: o amor do protagonista por Aimee (Jessica Biel). O problema é que o rapaz está sendo falsamente acusado pela CIA de ter roubado a arma nuclear de sua última missão. O grupo é raptado pelos agentes, que ameaçam matar a todos, caso a bomba não seja devolvida.

Diante dessa situação, Sean consegue armar a fuga para todos, dando início a uma aventura completamente inesperada para provar sua inocência. Logo de cara, é possível ver que o filme não se leva a sério porque fica repetindo quase roboticamente a marca “Carrinhos Matchbox”, dando aquela impressão de comercial. Os brinquedos aparecem vez ou outra, incluindo numa cena que parece ter saído diretamente dos intervalos do Bom Dia & Cia., em que um menino vê seus carrinhos em escala real, protagonizando uma perseguição nas ruas. E por mais besta que seja, essa cena é uma excelente representação da imaginação infantil quanto esses brinquedos. Talvez seja o momento mais representativo para a missão da Matchbox enquanto empresa. Mas o grande mérito do filme está em seu elenco.

John Cena está em seu padrão. É um arroz com feijão capaz de divertir e sustentar as boas sequências de ação do longa. Ele faz par romântico com Jessica Biel, que não tem muito o que fazer quanto a sua personagem. Agora, o grande acerto da direção é perceber que seus protagonistas não têm tanto a oferecer, e apostar nos coadjuvantes. Sam Richardson, Teyonah Parris e Arturo Castro roubam a cena, passando a sensação de realmente serem amigos há décadas. Não é exagero dizer que eles carregam o filme nas costas, rendendo os melhores momentos, seja pelo timing cômico, seja pelas inesperadas sequências de ação em que seus personagens, pessoas comuns do dia a dia, se enfiam nessa jornada.

Castro, principalmente, é a alma do filme. Ele dá vida a Ted, um atrapalhado professor de química de escola pública que não tem muito a perder. Ele é o primeiro a aceitar a furada em que se meteram, e como não tem muito a perder, parece se divertir em meio a essa história de ser perseguido pelo governo dos Estados Unidos. Teyonah Parris é outra que brilha com um surpreendente timing para comédia. A dupla brilha, relembrando grandes filmes recentes de comédia sobre amizade, como A Noite do Jogo (2017) e Te Peguei! (2018).

E essa dinâmica de comédia pastelão em meio a um cenário de ação constante dá ao filme um ar genuíno de filme da Sessão da Tarde. Aqueles longas bobinhos que passam numa terça-feira qualquer, fazendo com que a molecada não desgrude os olhos da TV, sabe? Aquele tipo de filme que está passando na TV do consultório do dentista e você assiste enquanto aguarda chamarem seu nome. E por mais estranho que possa parecer, isso foi um elogio. Esse tipo de filme é responsável por despertar a paixão da molecada em diversos cenários no Brasil, então são importantes, porque garantem que a 7ª arte atravesse gerações.

Outro mérito da produção é conseguir construir grandes sequências de ação. Como o catálogo de carrinhos da marca é voltado para carros do dia a dia, tem perseguição de carro, ambulância, caminhão, helicóptero… E todas muito bem executadas pelo inexperiente diretor Sam Hargrave. O cineasta ainda está trilhando seus passos na direção, mas é um consagrado coordenador de dublês em Hollywood, tendo trabalhado em franquias como Jogos Vorazes e Vingadores. Sua experiência com cenas de ação ficam nítidas em tela, colocando os personagens para saltarem de pontes, correrem nas estradas, lutarem em helicóptero e por aí vai.

Em muitos momentos, é possível perceber semelhanças com alguns capítulos mais recentes da franquia Velozes & Furiosos, mas esse aqui consegue superá-los por conseguir dosar melhor a ação com o humor. De verdade, é impressionante ver como o diretor consegue prender sua atenção por mais de 2h ante um arremedo de roteiro, se apoiando exclusivamente no carisma de um baita elenco de apoio e nas divertidíssimas cenas de ação. É como se ele sintetizasse a brincadeira de uma criança com seus carrinhos no playground da escola, na praia ou numa viagem de carro.

Entre altos e baixos, Matchbox: O Filme consegue sua missão. Ele diverte e faz o nome da marca voltar à boca das pessoas. Sem contar que todos os veículos utilizados em cena estão disponíveis para compra nas lojas, então é possível que uma molecadinha cresça os olhos e se interesse pelos carrinhos do cotidiano. E o mais curioso é que esse tipo de filme costuma ter um bom apelo junto ao grande público, então parece meio questionável a decisão da Apple de não ter lançado esse longa nos cinemas. Principalmente depois do sucesso da casa, F1: O Filme, que arrecadou uma bola internacionalmente ano passado.

Matchbox: O Filme está longe de ser um clássico – e não tenta sê-lo em momento algum, por sinal –, mas consegue divertir com uma aventura descompromissada e engraçada.

Matchbox: O Filme está disponível no Apple TV+.

var disqus_config = function () { this.page.url = window.location.origin + window.location.pathname; this.page.identifier = window.location.pathname; this.page.title = document.title; };(function() { var d = document, s = d.createElement('script');s.src = 'https://cinepop-com-br-x.disqus.com/embed.js'; s.setAttribute('data-timestamp', +new Date());(d.head || d.body).appendChild(s); })();Ative o JavaScript para visualizar os comentários.

Notícias

‘Outra Mamãe’ recebe PÉSSIMA avaliação do público no CinemaScore

Mesmo após chamar atenção com um trailer perturbador e...
Pedro Sobreiro
Pedro Sobreirohttps://cinepop.com.br/
Jornalista apaixonado por entretenimento, com passagens por sites, revistas e emissoras como repórter, crítico e produtor.