The Weeknd, nome artístico de Abel Tesfaye, tem tido uma trajetória bastante interessante no mundo da música. Começando com o lançamento da mixtape House of Balloons, ainda em 2011, o cantor e compositor lançou-se de cabeça nas pulsões do R&B para fornecer algo diferente ao gênero em questão, apostando fichas num escapismo crítico que se tornaria marca de boa parte de suas produções. Depois de alcançar aclame crítico com alguns EPs, o performer faria sua estreia oficial no cenário fonográfico com o memorável álbum Kiss Land – trilhando um caminho de puro sucesso que já lhe rendeu três estatuetas do Grammy e uma das melhores discografias da contemporaneidade.

Mas talvez o elemento que mais nos chame a atenção sobre The Weeknd seja sua recusa a pertencer a um estilo musical único ou a se tornar ícone de apenas uma marca, motivo pelo qual não pensou duas vezes antes de se aventurar pelo pop, pelo rock, pelo new-wave, pelo disco e por tantas outras incursões que se amalgamariam em um espetáculo sonoro e sinestésico – como aconteceu com After Hours, uma incrível rendição que inclusive entrou para a nossa lista de Melhores Álbuns de 2020. Agora, dois anos mais tarde, o artista se mostrou pronto para fornecer mais um lado de sua arte, uma faceta mais branda e sutil que deixa de lado ironias para construir uma narrativa autorreferencial e que presta homenagens a seus principais ídolos, como Michael Jackson e Quincy Jones.

Intitulado Dawn FM, o compilado de dezesseis faixas originais é uma celebração niilista da não-existência – uma acepção um tanto quanto melancólica e que, mascarada por reflexões profundas e reverberantes, se mantém fiel às mensagens que The Weeknd sempre trouxe em seus álbuns. Aqui, ele se reúne com lendas da indústria musical para um pungente e proposital anacronismo que funde três décadas diferentes em uma só (oscilando entre os anos 1970, 1980 e 1990). Não é surpresa que tenhamos a participação de nomes como Max Martin, Swedish House Mafia, Calvin Harris e tantos outros para conseguir entregar o que vinha prometendo há alguns meses – e o resultado não poderia ser diferente: o álbum permite não apenas que o performer amadureça, mas cria uma espécie de simbiose estética que carrega seus colaboradores consigo, tornando-se um dos primeiros grandes lançamentos de 2022.



O lead single veio na forma de “Take My Breath”, uma das melhores canções da carreira do artista. Mantendo um belíssimo diálogo com a clássica “Blinding Lights”, a faixa se lança a um ambicioso projeto que estende ramificações pelo pop psicodélico e pelo disco, fazendo um incrível e desmedido uso de sintetizadores que remontam a Donna Summer com “I Feel Love” e ao lendário pai do disco, Giorgio Moroder. Além de uma coesa e soberba produção, cortesia principalmente de Martin (cujo extenso trabalho parece tê-lo preparado para este momento de maior ousadia), somos agraciados com uma evocativa progressão e vocais poderosos que respaldam a sensual narrativa que se desenrola.

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Se The Weeknd já havia encontrado uma imagética sonora com a qual se estabelecer, destilando um bem-vindo amadurecimento que se refletiu com a acidez performática de After Hours, Dawn FM marca, de alguma maneira, um maior controle sobre a própria capacidade que tem de construir análises sobre a vida e suas experiências. Mantendo-se a par com o cenário mainstream, razão por que sempre nos chama a atenção e rouba os holofotes, esse processo de unir passado, presente e futuro culmina numa contraditória propulsão conceitual. Dessa forma, o cantor e compositor é impulsionado a fazer o que bem entender e inclusive a lançar tendências (como provavelmente veremos nos meses seguintes, em que outros artistas farão esse mesmo movimento exploratório). É nesse espectro que faixas como “Out of Time”, fazendo alusão a Marvin Gaye e Jackson, e “Sacrifice”, que leva a base do classicismo de Prince, ganham vida.

Cada engrenagem do álbum é pensada com extrema cautela e, unindo-se a um objetivo bastante claro, os deslizes são pontuais e, na verdade, entram apenas uma afetação momentânea do performer – como a demasiada verborragia de “Here We Go… Again” ou os arcaísmos de “Is There Someone Else?”. No final das contas, isso não importa: o resultado é extremamente positivo e aproveita para reunir elementos do dream-disco sensorial (em “Don’t Break My Heart” e “I Heard You’re Married”, por exemplo), e pela excêntrica criação à la Survive do longo interlúdio “Every Angel is Terrifying”.



O ápice de criação vem pelo mote do qual o álbum se vale – afinal, o título em si já é uma brincadeira metalinguística com as estações de rádio e com a popularização desse recurso nas décadas anteriores. Para unir essas peças, temos a ilustre presença de Jim Carrey como o narrador e o apresentador do “programa”, transformando o lúdico jogo em um etéreo conto que convida os ouvintes para uma mística jornada pelo anoitecer e pelo amanhecer. A consciente estrutura da obra, dessa maneira, reafirma que Dawn FM não é apenas uma produção fonográfica, mas uma experiência multimídia que arranca músicas irretocáveis de um dos maiores nomes da música atual.

Nota por faixa:

1. Dawn FM – 5/5
2. Gasoline – 4,5/5
3. How Do I Make You Love Me? – 4/5
4. Take My Breath – 5/5
5. Sacrifice – 5/5
6. A Tale by Quincy – 5/5
7. Out of Time – 5/5
8. Here We Go… Again (feat. Tyler the Creator) – 3,5/5
9. Best Friends – 5/5
10. Is There Someone Else? – 3,5/5
11. Starry Eyes – 5/5
12. Every Angel Is Terrifying – 5/5
13. Don’t Break My Heart – 4/5
14. I Heard You’re Married (feat. Lil Wayne) – 4/5
15. Less than Zero – 5/5
16. Phantom Regret by Jim – 5/5

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