[ANTES DE COMEÇAR A CRÍTICA, FIQUE CIENTE QUE ELA ESTÁ RECHEADA DE SPOILERS]

Se você ainda não assistiu o sexto episódio da terceira temporada de The Boys, evite esta matéria, pois ela contém spoilers.

Conhecida por sua visão subversiva dos super-heróis, The Boys trouxe um dos melhores episódios, se não o melhor, de suas três temporadas até aqui. O tão aguardado Herogasm, que contou com uma publicidade massiva tanto da produção quantos dos fãs, teoricamente teria apenas que adaptar uma super-suruba para as telas que já teria agradado aos fãs das baixarias, mas vai além ao manter seu padrão de críticas sociais certeiras e de abrir mão do seu estilo e abraçar um pouco do frenesi dos Supers na nossa sociedade. Como assim? A missão da série é subverter as expectativas dos fãs quanto aos heróis, mas ao trazer o clímax desse episódio, eles abraçaram o clichês desse tipo de produção e fizeram um dos embates mais empolgantes dos últimos tempos. Essa “subversão de sua própria subversão” poderia ter sido desastrosa? Poderia. No entanto, a forma como fizeram foi tão bem encaixada que dificilmente alguém não se envolveu no embate entre Billy, Soldier Boy e Hughie contra o Capitão Pátria.


Mas antes de falar da porradaria final, o episódio já começa com uma crítica a uma das ações mais toscas que o mundo viu recentemente. Lá no comecinho da pandemia, a Gal Gadot parou para refletir sobre a vida e chamou uns amigos famosos para cantarem Imagine por um mundo melhor. Como isso melhorou o mundo ninguém sabe, mas é claro que The Boys não ia perder a oportunidade de zoar a falta de bom senso das celebridades e reuniu um monte de famosos, Supers ou não, para cantarem a música em prol da paz após o atentado feito pelo Soldier Boy no episódio anterior. O interessante é que essa foi a sátira mais escrachada acerca da pandemia, mas o episódio faz uma outra um pouco mais sutil. Quando o Capitão Pátria surta durante a entrevista, na qual a repórter pergunta o que os Supers estão fazendo para conter a ameaça que está mantendo as pessoas em casa – no caso, o Soldier Boy -, o Pátria, completamente ignorante, repete o mantra que todo governo imbecil do mundo adotou nos meses de pandemia: “Saiam de casa, é seguro lá fora”, mesmo que várias pessoas estivessem morrendo e fosse de conhecimento público.

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Essa críticas tão recentes e certeiras passam longe da coincidência, afinal a temporada foi gravada durante a pandemia.


Não à toa, todo o arco envolvendo o Trem-Bala e o Blue Hawk é baseado no assassinato covarde de George Floyd e a repercussão do movimento Black Lives Matter. E por esse contexto, a temporada parece trabalhar em uma redenção para o velocista. Depois de agir de forma tão irresponsável por anos e tendo sua sujeira varrida para baixo do tapete, o Trem-Bala se tornou descartável e agora sofre com sua invalidez. Diante desse descarte, ele desceu do pedestal e tentou buscar seu lugar de volta na comunidade, mas não é assim.

Ele tenta usar o que restou de sua influência, mas logo é submetido ao corporativismo que salvou sua imagem algumas vezes. Só que agora ele não é mais útil, então passa a sentir os efeitos de suas ações. Vivendo algumas semanas como uma “pessoa normal” para os olhos da Vought, o Trem-Bala foi vítima da empresa e viu seu irmão ficar paraplégico em um discurso que supostamente seria de desculpa. Ele teve que aguentar aquilo que sempre fez vista-grossa e não aguentou a pressão, pegando o babaca do Blue Hawk e colocando ele pra ralar peito, literalmente.

É curioso como a produção lida com a inversão de papéis nesta temporada. Enquanto o Trem-Bala vira o impotente, alguém passivo aos acontecimentos da vida – momentaneamente -, o Hughie, seu primeiro rival, ganha os poderes e assume uma arrogância que era típica do velocista. Caso ele sobreviva ao ataque cardíaco, será interessante ver como a série vai voltar nesse embate com as posições invertidas.

Falando na inversão de papéis, coitado do Francês. Ele começou como um membro ativo e fanático por explosões nos ‘The Boys’. Mesmo com esse jeitão meio gênio psicótico e sacana, ele tinha um lado “fofo” que trouxe carisma e o transformou em um dos favoritos dos fãs. Nesta terceira temporada, ele está cansado de tudo e só quer fugir dessa vida para viver feliz com a inocente e mortal Kimiko. O problema são os fantasmas do passado que impedem que ele viva em paz ou deixe as atividades.


Mas chega a ser cômica a dualidade das situações em que ele é referenciado neste episódio. Enquanto nosso último romântico está amarrado pelado, sofrendo tortura física e psicológica por não querer matar seus amores, Bruto e Leitinho – que justifica seu nome, como visto na cena acima – chegam ao Herogasm e falam a mesma coisa: “O Francês vai ficar revoltado quando souber que perdeu isso”. Pois é, já dizia a música: “parece ironia querer viver um amor no século da p…”

Sobre o Herogasm, que dá nome ao episódio, ele acaba não chamando tanta atenção porque a própria série já havia explorado muitas bizarrices quando o assunto era sacanagem entre Supers. Claro que o Leitinho entrou numa fria, já que levou uns carinhos do bingulim elástico do Salsicha do Amor, agora com um visual mais parecido com o das HQs, e coisas ainda mais nojentas. No entanto, chama atenção como um episódio que tenha tanta nudez e sexo rolando abertamente no entorno, se sobressaia pelo que está acontecendo com as pessoas que não estão transando no recinto.

Isso porque a estética das grandes produções de heróis chega avassaladora para um duelo de titãs tão bem conduzido que faz até mesmo com que o público esqueça momentaneamente dos absurdos ditos pelo Soldier Boy para que ele saia no braço com o Capitão Pátria. E olha que ele defendeu o Bill Cosby, comediante condenado por estupro, assédio e agressão – chegou a dizer que ele fazia uns drinks fortes, sendo que uma das acusações era que ele drogava as mulheres para dormir com elas -, como exemplo de como deve ser um homem. Fora isso, ele faz uma reflexão de como ele serviu aos interesses do seu país e foi abandonado por ele, substituído. É um discurso interessante sobre os veteranos de guerra. Mas como a série não deixa que esqueçamos que os Supers são babacas, ele faz um elogio depois aos Mujahidin, soldados islâmicos bancados pelos EUA que formariam a Al-Qaeda.

Isso tudo acaba sendo “varrido para baixo do tapete momentaneamente” para que ele caia na porrada com o Capitão Pátria. A sequência de luta entre eles é fascinante porque o público conhece os heróis em que eles foram baseados e o embate entre Capitão América e Superman já foi discutido algumas vezes pelos fãs. É legal ver isso acontecendo, mesmo que na versão deturpada deles.


Por fim, o Capitão Pátria e a Luz-Estrela trazem momentos que vão definir os próximos episódios. Enquanto o Pátria conversa com seu reflexo “super”, ao melhor estilo Duende Verde, sobre exterminar seu lado humano, a Luz-Estrela decide abandonar de vez o apego a sua própria vida ao abrir mão da vaga nos 7 e revelar os podres da Vought e do Pátria para o público. E depois de apanhar horrores do trio Super, é provável que o Pátria se torne 100% do monstro que seu interior quer. Já a Luz-Estrela, que resistiu à explosão de cabeça, pintou um alvo gigantesco sobre ela para que o Pátria Descontrolado a persiga.

E vocês? O que acharam do Herogasm?

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Os episódios de The Boys estreiam toda sexta no Amazon Prime Video.

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