Crítica | Comédia teen NACIONAL ‘Era Uma Vez Minha 1ª Vez’ não consegue fugir do óbvio

Thalita Rebouças é uma das autoras brasileiras mais populares das últimas décadas e, ao longo de sua carreira como romancista, encontrou uma maneira de dialogar com o público mais jovem, oferecendo uma perspectiva, ao menos à época do lançamento de seus livros, que se mostrou original e a transformou em um nome best-seller no cenário nacional. O problema é que, ao longo dos anos, sua escrita começou a se tornar não apenas cansativa, mas estagnada no tempo e apostando em narrativas datadas e esquecíveis – que nem mesmo com incontáveis adaptações para os cinemas conseguiram escapar das fórmulas e dos convencionalismos.

E, depois de ‘Traição Entre Amigas’, que trouxe Larissa Manoela e Giovanna Rispoli em uma incursão um pouco mais amadurecida – mas que mergulhou em problemáticas temáticas gritantes -, está na hora de ver mais uma adaptação de Rebouças que chega aos cinemas no próximo dia 17 de setembro: ‘Era Uma Vez Minha 1ª Vez’. Baseado no livro lançado em 2012, o filme dirigido por Claudia Castro comete os mesmos erros de outras releituras do arsenal da romancista e não consegue se manter atualizado ou aproveitar um enredo muito pertinente, principalmente para os dias de hoje, da maneira que merecia, apoiando-se estritamente num elenco que faz mágica para desviar de estereótipos criativos.

A trama, assinada por Rebouças e João Paulo Horta, acompanha quatro melhores amigas – Clara (Castorine), Teresa (Letícia Braga), Tuca (Lívia Silva) e Patty (Duda Matte) -, que fazem um pacto de perder a virgindade antes da formatura do último ano do ensino médio. A partir daí, o grupo embarca em uma série de desventuras, descobrimentos e frustrações que exploram as turbulências da adolescência e a transição da fase jovem para a fase adulta, percorrendo pelos clássicos problemas joviais que todos nós enfrentamos ou enfrentaremos. Através de quase noventa minutos bem ritmados e que tentam esconder os múltiplos deslizes técnicos e artísticos, a produção é destinada a um público bastante específico e que joga no seguro em uma construção bastante universal e familiar.

Como já mencionado, um dos únicos positivos vem pelo carisma do elenco protagonista e coadjuvante, que imbuí os personagens em tramas previsíveis, mas que ganham pontos com performances comprometidas o suficiente para ofuscar os equívocos. Castorine, Braga, Silva e Matte nutrem de uma química muito interessante, pincelando suas atuações com distinções bem delineadas e que navegam entre os altos e baixos das amizades – por mais que os arcos caminhem para uma conclusão premeditável desde os primeiros segundos.

Cada uma delas também tem uma “missão” a ser cumprida, mas a ideia de separá-las em núcleos diferentes acaba destituindo-as de uma maior complexidade – que com certeza não é o objetivo principal de Rebouças e Hortas. Pelo contrário, os roteiristas, aliando-se à unidimensionalidade de gênero que Castro imprime na direção, se valem de tantos tropos das comédias adolescentes que é impossível não encontrar paralelos com obras como ‘American Pie’, ‘As Vantagens de Ser Invisível’ e ‘As Melhores Coisas do Mundo’, apenas a encargo de exemplificação. E, talvez, essa seja o problema: ao querer prestar homenagem a outros títulos que discorrem sobre o mesmo assunto, o filme perde seu brilho e mais serve como um medíocre escapismo cinematográfico do que uma obra que tem algo a dizer.

É dentro dessa restrita ambientação que a naturalização do sexo e pertinentes comentários sobre positividade corporal e sobre o assustador momento em que perdemos nossa virgindade se desmantelam em uma repetição cansativa de acontecimentos, dando espaço a uma circinal superficialidade de onde é impossível escapar. E, como consequência dessa clara falta de ousadia – que se estende para uma metódica paleta de cores que se torna mais sombria sequência a sequência e para uma incessante e redundante trilha sonora melodramática -, o senso de urgência e de dramaticidade se perde, arquitetando uma atmosfera impalpável e quase fabulesca que não tem a capacidade de dialogar com quase ninguém (com exceção, é claro, dos assíduos fãs de Rebouças).

‘Era Uma Vez Minha 1ª Vez’ peca em não querer, deliberadamente, dar um passo maior que a perna, optando por uma amálgama imemorável de fórmulas que já foram utilizadas no cenário do entretenimento à exaustão – e que vale a pena pela presença de um quarteto protagonista que “tira água de pedra” e consegue nos conduzir, dentro de limitações óbvias, nesse coming-of-age pouco inspirado.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.