“School is in session”.
Madonna não alcançou o merecido título de rainha do pop por qualquer motivo: desde sua estreia oficial em 1983 com seu álbum homônimo, a cantora, compositora e produtora sempre se mostrou disposta não apenas a ousar em um cenário musical marcado pela predominância do rock, mas a abrir portas para gerações de artistas que acompanhariam suas constantes revoluções – aliás, é difícil encontrar qualquer performer que não tenha bebido do impacto contínuo e inegável que ela trouxe ao cenário fonográfico.
Em meio a altos e baixos, Madonna atingiu vários ápices em sua carreira, sendo sua última grande epopeia (ao menos até agora) com ‘Confessions on a Dance Floor’. Arquitetado no formato de um épico setlist, o compilado de originais foi lançado em 2005 e trouxe icônicas canções que envelheceram como um bom vinho – como “Hung Up”, “Sorry” e “Jump” – e que impulsionaram nomes como Britney Spears, Ariana Grande, Lady Gaga e Beyoncé a trazerem a música pop de volta ao mainstream de maneira gloriosa. 21 anos mais tarde, a rainha está de volta com um projeto excepcional e que entra para um exímio cânone que inclui ‘Like a Prayer’, ‘Ray of Light’ e o álbum mencionado no início do parágrafo: ‘Confessions II’.
Diferente do que poderíamos imaginar, seu décimo quinto disco não é uma sequência do clássico dos anos 2000, mas uma extensão testamentária que não só a coloca de volta em contato com a variedade impressionante de gêneros que já esquadrinhou, mas a permite reclamar um trono indisputável e que a reitera como uma zeitgeist cultural e emblemática que navega em meio a declarações etaristas e que sucede uma série de produções que, de certa forma, falharam em encantar o público e a crítica – como ‘MDNA’, ‘Hard Candy’, o subestimado ‘Rebel Heart’ e o esquecível ‘Madame X’. ‘Confessions II’, seu primeiro compilado de originais em sete anos, é um regresso triunfal que entra para a lista não apenas de melhores do, como da década.
O projeto vem sendo promovido de maneira extensa, com o lançamento de quatro faixas promocionais e vários teasers que antecederam a estreia oficial do disco: “I Feel So Free”, que permitiu à Madonna explorar uma persona ao mesmo tempo conhecida e nova, com influências da ótima “Future Lovers”; o lead single oficial “Bring Me Love”, um ostensivo club-house performado ao lado de Sabrina Carpenter, uma das principais representantes da nova geração musical; “Love Sensation”, que nos convidou para um vibrante 4-on-the-floor; e “Read My Lips”, que integrou a trilha sonora da Copa Mundial da FIFA, trazendo o espectro conhecido do latin-house com a presença do cantor colombiano Feid.
O que não imaginávamos é que Madonna estava guardando o melhor para o dia de hoje, 3 de julho, surpreendendo a todos com seu melhor álbum em mais de duas décadas e uma entrada que figura entre os melhores de sua extensa e respeitável carreira. Apostando fichas em uma arquitetura de setlist, assim como ‘COADF’, as canções são divididas em dois momentos distintos e, ao mesmo tempo, complementares, mergulhando no escapismo da pista de dança que antecipa uma melancolia reflexiva que se destina à segunda metade.
Se “I Feel So Free” é a abertura perfeita para mais uma épica jornada de Madonna, “Good For The Soul” irrompe como a sequência perfeita, infundida em um filtro robótico que reúne elementos do techno-pop, do synth e do nu-disco, além de abrir espaço para uma carta de amor às conhecidas orquestrações dos anos 2000 – sem abandonar um respiro de originalidade que a performer traz aos nossos ouvidos. “One Step Away”, por sua vez, une-se ao lead single ao singrar pelo house e até mesmo pelo tribal, reunindo o que podemos encarar como os melhores versos do álbum (“a pista de dança não é só um lugar; é um limiar”).
Faixa a faixa, Madonna consegue se superar – e sua colaboração não apenas com o lendário Stuart Price, que produziu o álbum de 2025, mas com nomes como Andrew Watt e Cirkut (que trabalharam no igualmente impecável ‘MAYHEM’, de Gaga), dá origem a suculentos frutos que precisam ser saboreados em sua completude. Não é surpresa que o trio seja responsável pela melhor faixa do álbum, “Danceteria”, um club house nostálgico que traz similaridades estéticas com “Jump” e a irretocável “Vogue”, em um convite à maximização do house e do dance através de um antêmico hedonismo musical sintetizado pelo verso “todos aqui são uma obra de arte”.
A canção, que nos havia sido apresentada no aplaudível curta-metragem dirigido por TORSO e lançado no início do mês passado, alcança a perfeição ao lado de uma memorável colaboração ao lado de Martin Garrix e que recebeu o nome de “Bizarre”: seja a breve estrutura cinemática que reverbera em um deep-synth e nas notas de um Hi-NRG remodelado, seja nas guitarras elétricas no pós-refrão, a track nos prepara para uma espécie de “segundo ato” que abandona a explosiva evasão artística e dá espaço para as já mencionadas reflexões – como é o caso de “Fragile”, que presta homenagens a ‘Ray of Light’ ao se configurar como uma densa semi-balada, ou “My Sins Are My Savior”, que coloca Madonna ao lado do artista belga Stromae em um claro aforismo ao glorioso ‘Erotica’ (incluindo os elementos de R&B e do deep-dance).
Estendendo-se por mais de uma hora, o único deslize do álbum talvez venha com “The Test”. Não se enganem: a música está longe de ser ruim; porém, quando comparada às outras incursões, o resgate do trap que se apoia na parceria entre a artista e sua filha mais velha, Lola Leon, é ofuscada por um apreço conceitual que nunca atinge seu pleno potencial. De qualquer maneira, mesmo esse breve tropeço não é páreo para manchar a imaculada estrutura do disco – que se encerra com a delicada e derradeira “L.E.S. Girl”, em que Madonna rema contra as expectativas e oferece um desfecho mais sombrio conforme relembra tudo o que enfrentou antes de se transformar na superestrela como a conhecemos.
‘Confessions II’ não apenas é uma obra de arte, mas um capítulo seminal em uma das discografias mais importantes da história da música – e um lembrete de que a incontestável coroa de Madonna como a rainha das pistas de dança segue firme e ainda com muito a nos contar.



