Maitreyi Ramakrishnan ganhou fama mundial ao estrelar a aclamada série de comédia ‘Eu Nunca…’, da Netflix, interpretando a complexa adolescente Devi, que navegou pelas turbulências da adolescência e da transição para a vida adulta e todas as pressões que existem sobre garotas de descendência indiana – dividindo as telinhas ao lado de nomes como Poorna Jagannathan e Richa Moorjani. Porém, sua parceria com a gigante do streaming não parou por aí e, este ano, ela está de volta para uma nova colaboração que chegou neste último dia 18 de setembro à grade de programação do streaming – a dramédia de dança ‘Conforme a Música’.
O longa-metragem traz Ramakrishnan dividindo as telas com outra atriz igualmente talentosa, Priyanka Kedia. Aqui, a dupla interpreta Maya e Anjali, respectivamente, melhores amigas apaixonadas por dança que, após um incidente durante uma competição escolar, resolvem se afastar dos palcos e seguir em frente como colegas de quarto da UCLA, com o objetivo de encontrarem sucesso profissional e saírem da amedrontadora sombra que suas respectivas famílias jogam sobre elas. Entrando para o curso de ciências da computação, ambas estão muito animadas para encontrarem seu próprio caminho – até participarem de uma festa de recepção para calouros de descendência asiática que lhes reacende a paixão pelos holofotes.

Não demora muito até as duas participarem da audição para integrar o time da universidade, conseguindo as tão sonhadas vagas e encontrando exaustivos treinamentos e coreografias do capitão da equipe, Ronak (Ankur Rathee), que nutre de um certo ressentimento inexplicável pela energia incontrolável de Maya – destinando sua afeição para Anjali, que eventualmente torna protagonista da coreografia para as eliminatórias da maior competição do país, O Melhor dos Melhores. O que elas não imaginavam é que esse seria o início de uma jornada coming-of-age explosiva e adornada por altos e baixos que transformam o filme em um honesto projeto que é surpreendentemente inspirado.
É impossível não tecer comparações entre o longa-metragem e outras produções que se apoiam na dança como força-motriz da narrativa, como ‘As Apimentadas’ e ‘Se Ela Dança, Eu Danço’. Entretanto, existe uma emblemática diferença que se apodera do projeto, que vem com o trabalho dos roteiristas Hasan Minhaj e Prashanth Venkataramanujam, que fazem questão de trazer a vibrante cultura de Bollywood em um compilado de frenéticas sequências que reúne alguns dos performers mais talentosos da atualidade em uma celebração festiva e culturalmente importante que confere originalidade e dinamismo ao que poderia apenas se tornar mais um título qualquer da Netflix.

O destaque também é destinado à presença da diretora indiana-canadense Lena Khan, que em momento algum perde a mão e, apesar de se valer de vários convencionalismos do gênero, permite que as personagens principais brilhem cada qual em seu determinado arco – infundidas em jornadas de amadurecimento que são bastante conhecidos dentro dos arquétipos que eternizam, mas que se sobressaem pelo magnético carisma que tanto Ramakrishnan quando Kedia trazem às telinhas. E é claro que as duas não estão sozinhas nessa empreitada, acompanhadas de Rathee, de Hasan Minhaj como o Professor Latif – que, de certa forma, serve como mentor do arco das personagens principais – e Chaneil Kular como o charmoso Arjun, que se torna interesse romântico de Maya.
Como é de se esperar, o longa não é livre de erros e, apesar de se estender por quase duas horas de duração, certas incursões não têm o peso prometido e denotam uma certa extensão em demasia das pulsões de Minhaj e Venkataramanujam. Por exemplo, temos uma breve menção ao complicado relacionamento entre Anjali e sua mãe, em breves cenas que logo são esquecidas e que poderiam ter sido cortadas sem muitos problemas estruturais da narrativa; ou a presença dos supostos “vilões” da história, encarnados pelo time de dança rival que venceu o grupo da UCLA no ano anterior – mas cujo peso não é tão sólido quanto aparenta. De fato, se Maya e Anjani permanecessem como as “antagonistas” de seus próprios medos e frustrações, a obra poderia inclusive trazer mais beleza por centrar em um bem-vindo estudo de personagens – mas os erros cometidos não são crassos o bastante para destituí-la de uma beleza singela.

‘Conforme a Música’ não apenas entrega o que promete, respaldando-se na presença inescapável de Ramakrishnan e Kedia para garantir que o público se envolva do começo ao fim, mas supera as expectativas com uma bagagem cultural que é de imprescindível importância para mergulharmos no vibrante e competitivo universo da dança – nos satisfazendo como pode em meio às conhecidas mensagens de superação e bonança.


