Depois de dois álbuns borbulhantes com uma identidade própria e um som original e extremamente dançante, Pabllo Vittar sem sombra de dúvida parou de se postar àquilo que as pessoas esperavam que fizesse e começou a trilhar um caminho próprio, fazendo o que bem entendesse com sua arte e conquistando o mundo – não é surpresa que ela seja a drag queen mais famosa dos dias atuais e mantenha inúmeras comparações com a lendária RuPaul. Agora, alguns meses depois de lançar seu EP, a performer retorna com seu terceiro álbum de estúdio completo, intitulado 111 – mas o resultado é medíocre demais quando colocado lado a lado com suas outras produções (principalmente com sua estreia oficial na indústria fonográfica).

Vittar vinha trabalhando no CD há algum tempo, divulgando vários singles promocionais até um infeliz vazamento que a fez adiantar o lançamento para ontem, 24 de março. O resultado final é aprazível para os fãs da cantora, mas perde-se pela falta de coesão entre as faixas e pela profusa arte que imprime – as quais oscilam tão fortemente entre gêneros que se transformam em desempenhos fragmentados demais para serem aproveitadas em justaposição. Aliás, a obra em si engana com um início envolvente, movido pelo electro-funk de “Parabéns” ao lado de Psirico – que, apesar de durar breves dois minutos, é o bastante para nos chamas para a pista de dança e tentar recriar a divertida coreografia promovida pela lead singer.

O principal problema de 111 é sua estrutura inexistente: conhecendo a carreira de Pabllo, era de se esperar que ela trouxesse elementos de sua experiência, de sua vida e de sua cultura nordestina – o que se concretiza em certas tracks (a maioria quando acompanhada de colaborações bem-vindas). Temos, por exemplo, “Lovezinho”, erguida ao lado de Ivete Sangalo em uma rendição bem sensual e crua, não poupando explicitações numa metrificada letra; “Clima Quente”, que configura-se como um dos poucos pontos altos por seu narcótico ritmo e pela infusão do techno-brega e do synth-pop em seus instrumental; e a canção mencionada no parágrafo acima. Porém, por mais que Vittar tente, ela é ofuscada pelos outros artistas e fica em segundo plano por mais tempo do que deveria.

“Amor de Que”, todavia, parece vir à tona como uma das salvações do álbum: a faixa é uma mistura on point do arrocha baiano que viralizou nas últimas décadas com pinceladas eletrônicas acompanhadas por sintetizadores, por vocais fabulosos e um liricismo narrativo-teatral que mostra uma história com início, meio e fim. Sem sombra de dúvida, o pano de fundo sonoro exala um classicismo deturpado e transforma a música em uma das melhores da carreira da cantora, resgatando inclusive aspectos explorados em Não Para Não e Vai Passar Mal.

Os deslizes alastram-se para o restante das iterações: a parceria com Charli XCX, “Flash Pose”, homenageia a cultura dos ballrooms norte-americanos da década de 1970 e de 1980, principalmente pela inclinação ao dance; porém, é notável a artificialidade construída e de que forma essa aparente necessidade de aprovação estrangeira rouba a personalidade da performer e da faixa em si, tornando-a um mero produto mercadológico sem vida. “Tímida”, encarnada ao lado de Thalía, volta-se para a sensualidade do reggaeton pontilhado com batidas brasileiras, mas mergulha num repetitivo ciclo após o segundo ato que aumenta sua duração de modo a nos fazer perder o interesse, ainda que se vale de um apreço pelo BDSM extremamente bem articulado; “Salvaje” inicia como uma ballad convidativa até voltar-se para um electro minimalista sem sentido e sem qualquer ousadia (assemelhando-se a um descarte do nostálgico Sunshine Kitty, lançado ano passado).

10 filmes de terror no Amazon Prime Video para fugir dos problemas…

Aproveite para assistir:

10 Séries de Comédia para Maratonar nas Próximas Semanas

Vittar recupera o fôlego com “Ponte Perra”, com sonoridade nunca antes vista em sua discografia. Aqui, vemos a drag queen equiparando-se às tendências do ano passado e abraçando o industrial pop numa atmosfera dark sem deixar de lado uma originalidade bastante latina. E, quando pensávamos que a track abriria brechas para um finale digno, estávamos errados: “Rajadão” talvez seja a entrada menos coesa do álbum, posando como um louvor gospel de superação apenas para render-se a um inexplicável e formulaico trance.

Eventualmente, 111 não faz jus ao que Pabllo Vittar já mostrou ao longo de sua breve carreira. Desde hits carnavalescos até baladas coming-of-age que representam a presença LGBTQ+ na comunidade artística atual, seu terceiro CD atira para todos os lados e acaba acertando cegamente alguns pontos interessantes – que logo morrem em meio a uma transbordante peça musical.

Nota por faixa:

  • Parabéns – 4/5
  • Tímida (feat. Thalía) – 3,5/5
  • Lovezinho (feat. Ivete Sangalo) – 2,5/5
  • Amor de Que – 5/5
  • Salvaje – 1/5
  • Flash Pose (feat. Charli XCX) – 2/5
  • Clima Quente (feat. Jerry Smith) – 3,5/5
  • Ponte Perra – 4/5
  • Rajadão – 2/5

15 Séries da Netflix Para Maratonar

15 Séries da Globoplay Para Você Maratonar

15 Séries da Amazon Prime Para Maratonar neste mês

10 reality shows insanos pra você que amou The Circle e Casamento às Cegas

Não deixe de assistir:

SE INSCREVA NO NOSSO CANAL DO YOUTUBE