Aves de Rapina foi anunciado alguns anos atrás e, desde o início de sua produção, tornou-se um dos filmes mais aguardados dos fãs de quadrinhos – principalmente os seguidores da DC, que desejavam mais que tudo um novo sucesso de crítica nas telonas, seguindo os passos de Coringa, Shazam!’, Mulher-Maravilha e Aquaman. Depois do considerável sucesso que fez entre os especialistas, chegou a vez de virarmos os holofotes para um elemento também original do longa-metragem: sua trilha sonora. O resultado do álbum, premeditado pelo lançamento do single de Megan Thee Stallion e Normani, é muito superior ao que poderíamos esperar, exalando girl power em sua melhor forma e entrelaçando diversos gêneros sonoros em um mesmo lugar.

Em um momento em que inúmeros artistas prezam por uma construção mais minimalista e conceitual em vez de respaldar nas fórmulas conhecidas do pop e do rock, grande parte dos ouvintes pode ter sentido falta de canções-chiclete e dançantes que nos envolvesse do começo ao fim com um bombardeio de acordes explosivos. Felizmente, as dezenas de colaborações contratadas pela Warner Bros. e pela Atlantic Records para compor essa obra os entregam exatamente o que precisávamos: tracks recheadas de vida, calcadas nas fusões que unem o synth ao EDM, o PC music ao industrial pop, e o rap ao electro-rock. Mais do que isso, as incríveis vozes não pensam duas vezes antes de mostrar suas homenagens a clássicos nomes da indústria fonográfica, fazendo questão de mostrar as referências das quais se nutriram.

A proeminência de Doja Cat abre a produção com a incrível “Boss Bitch” que, mesmo seguindo uma construção já ouvida antes (ainda mais quando pensamos na transição dos anos 2000 para os 2010), transborda com um delicioso rap guiado por sintetizadores do electro e do dance-pop, entregando uma rendição frenética e inebriante ao extremo – sabendo o momento certo de recuar para um instrumental mais densa e de utilizar os familiares moduladores de voz. Pouco depois, é a vez de Charlotte Lawrence brilhar com as samples emprestadas de Nina Simone em “Joke’s On You”, ganhando um espaço mais que merecido e pavimentando uma trajetória rumo a uma discografia de bastante sucesso.

Para além de “Diamonds”, que empresta alguns versos de Marilyn Monroe em Os Homens Preferem as Loiras, temos Jurnee Smollett-Bell (que interpreta Canário Negro) redescobrindo James Brown como “It’s a Man’s Man’s Man’s World” e criando uma performance memorável que imprime sua própria habilidade – mesmo perdendo-se em alguns momentos na coesão da faixa. Lauren Jauregui também prende-se a uma bem-vinda nostalgia do início do século com “Invisible Chains”. Ambas as canções não chamam atenção apenas pelos poderosos vocais, e sim pelas letras de sororidade e de libertação que refletem os temas explorados pelo longa-metragem.

A decisão de unir apenas mulheres para a composição do CD visou a uma representatividade necessária para as esferas de entretenimento contemporâneas – e não me refiro aqui à falsa noção desse conceito que é explorado superficialmente por quem está no comando; a verdade é que a profusão sonora é um outro recurso para mostrar que as mulheres existem e podem dominar qualquer estilo musical que possamos pensar. Um dos exemplos mais claros que temos aqui é Halsey sendo convidada a mudar de zona exploratória e mergulhar de cabeça num pesado rock (“Experiment On Me”) provindo de um hibridismo à la Avril Lavigne e AC/DC (e caso tenha ficado surpreso ou chocado com o resultado, é porque a ideia atingiu seu propósito principal).

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O gênero em questão ganha uma linearidade drilling proposital (como a já vista com Nicki Minaj, Cardi B e Iggy Azalea) com “Danger”, que tem um respaldo mercadológico, mas investe esforços para sair do comodismo. “Bad Memory” representa um dos ápices da obra e, mais do que isso, é facilmente uma das melhores tracks lançadas até agora em 2020. K.Flay brinca com seus vocais e tira sarro através de um ácido liricismo, à medida que traz um escopo próprio do indie e do hip hop alternativo (encontrados com abundância em sua filmografia). Já “So Thick”, parceria feita entre WHIPPED CREAM e Baby Goth, pode ter um pano de fundo repetitivo e saudosista em excesso, mas não perde o principal foco que é nos envolver em uma críptica viagem através da mentalidade de Arlequina (Margot Robbie), buscando a mesma emancipação que a protagonista.

O interessante sobre o álbum é que ele se vale de distorções de elementos outrora prosaicos demais para arquitetar algo único, tendo como marco uma insana originalidade. “Smile” parece virar do avesso as suits compostas por Theodore Shapiro, enquanto Cyn toma as rédeas da woodstockiana “Lonely Gun”; mesmo assim, ignorar certos equívocos é um erro condenável – e por essa razão não podemos deixar de sentir certa desconexão com “I’m Gonna Love You Just A Little More Baby”, cuja gestação entre o jazz e o blues simplesmente não combina com as outras faixas. De qualquer forma, “Hit Me With Your Best Shot” reencontra os trilhos com um épico tour-de-force.

Aves de Rapina: O Álbum’ funciona como um adendo dançante, sedutor e cativante ao longa-metragem homônimo que, seguindo os passos de seu estelar elenco, também é um declamatório discurso pela independência feminina.

Nota por faixa:

  • Boss Bitch – 5/5
  • So Thick (feat. Baby Goth) – 4/5
  • Diamonds – 4/5
  • Sway With Me – 4,5/5
  • Joke’s On You – 4,5/5
  • Smile – 4,5/5
  • Lonely Gun – 4/5
  • Experiment On Me – 4/5 
  • Danger – 5/5
  • Bad Memory – 5/5
  • Feeling Good – 4,5/5
  • Invisible Chains – 4,5/5
  • It’s a Man’s Man’s Man’s World – 4/5
  • I’m Gonna Love You Just A Little More Baby – 3/5
  • Hit Me With Your Best Shot – 4/5
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