Crítica | Deserto Particular – Representante do Brasil no Oscar mostra que o amor pode florescer em terreno árido

CríticasCrítica | Deserto Particular – Representante do Brasil no Oscar mostra que o amor pode florescer em terreno árido

Desde o lançamento do ótimo thriller Para Minha Amada Morta (2015) que o baiano-curitibano Aly Muritiba vem se mostrando um cineasta cada vez mais produtivo e inquieto. Seja depois no cinema com Ferrugem (2018) e Nós por Nóis (2018), ou mesmo na TV e demais serviços de streaming ao emplacar os hits Carcereiros (2018) e O Caso Evandro (2021). Só esse ano, além da já citada série documental do Globoplay, Muritiba apresenta dois longas inéditos: a comédia cheia de estilo Jesus Kid e aquele que talvez seja o melhor filme de sua carreira até aqui, Deserto Particular. Após ser ovacionada na Itália durante o Festival de Veneza e faturar diversos prêmios ao redor do mundo, a produção foi selecionada pela Academia Brasileira de Cinema e Artes Visuais para representar o Brasil no Oscar 2022 na categoria Melhor Filme Internacional.

A essa altura, o tipo de pergunta mais óbvia que surge e se repete é se Deserto Particular vai mesmo atender às expectativas, algo que sempre esbarra na margem da percepção particular, sobretudo pelos valores morais e conceitos sociais que carregamos e absorvemos ao longo da vida. Entretanto, mesmo que as ponderações presentes sejam contrárias para alguns, é praticamente impossível ficar indiferente ao que a obra discute com muito respeito e sensibilidade. Não tem jeito, por mais cotidianas que sejam, as relações humanas fascinam e despertam, naturalmente, o interesse do indivíduo, muito por nossas almas serem alimentadas por vivências. E quando nos deparamos então com situações atípicas dentro daquilo que a sociedade construiu como regra, acontece o que muitos chamam de um erro na Matrix.

Produzido durante seis anos e filmado em dois estados, a trama, incialmente, aparenta ser na verdade simplória ao trazer a rotina do curitibano Daniel (Antônio Saboia), filho de um ex-militar reformado que sofre de Alzheimer e precisa de cuidados integrais. Daniel também era um policial respeitado, mas foi afastado da corporação por extrapolar na violência e deixar um garoto em coma, tendo agora que se revezar entre fazer bicos de segurança particular e cuidar do pai. Esse dia-a-dia transforma a vida do sujeito num vazio que só é preenchido quando ele se corresponde com Sara, sua paixão virtual que mora no interior da Bahia. Daniel nunca a viu pessoalmente, mas está perdidamente apaixonado. Tudo muda quando Sara descobre o tal incidente policial e para de responder as mensagens do amado, deixando Daniel no total desespero. Sem pensar muito, ele parte sozinho numa viagem de carro do sul para o nordeste e, no lugar, algo absolutamente inusitado acontece e tudo muda completamente.

E muda pra valer, inclusive toda estrutura e atmosfera, pois, a partir daí, o filme que em outrora era um drama se transforma numa história de amor intensa, dolorosa e proibida. Sara acaba se tornando a grande protagonista do longa e a pequena cidade de Sobradinho serve como uma espécie de microcosmo que reflete o Brasil subdesenvolvido, que teima evoluir tanto do ponto de vista econômico quanto social. É preciso entender que todo primeiro ato tem basicamente a função de humanizar a figura de Daniel e demonstrar suas nuances. Vemos que o homem capaz de espancar alguém também é o mesmo que cuida do pai e tenta ser o cauteloso irmão mais velho – ainda que sempre exiba um preconceito latente ao reprovar o relacionamento homoafetivo da irmã, não abrindo margem nem mesmo para o diálogo.

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Bem como a segunda metade serve para conhecermos a fundo a vida e a visão de mundo da Sara – e aqui aviso sobre o possível spoiler que pode tirar um pouco do impacto de Deserto Particular, pois, caso não queira saber, siga para o próximo parágrafo. Em suma, Sara é na verdade interpretada pelo jovem ator Pedro Fasanaro que se entrega por inteiro e constrói uma figura tridimensional que é física e sentimental. Saída do texto pontual e também detalhista do próprio Aly Muritiba, Sara não é o típico arquétipo de uma pessoa transexual que veio de um interior bruto dominado pelas leis da igreja. De dia a Sara vira Robson, um rapaz que realiza trabalho braçal e se enturma, naturalmente, em meio aos companheiros de equipe. Porém sem jamais perder a sua essência ou negar aquilo que sente, se mostrando um personagem fascinante de várias maneiras, sobretudo quando expõe para Daniel o que pensa e aprendeu sobre o curso da vida. Aliás, o paralelo criado entre a vida de Sara e um reservatório de água que, a qualquer momento, pode romper-se e ganhar o mar é o tipo de sacada que beira a excelência e faz o roteiro de Muritiba ganhar ainda mais pontos e contornos.

Esteticamente distante das produções sudestinas, Deserto Particular não tem medo de ser sujo em meio a toda aridez do Juazeiro baiano. Coleciona diversos planos abertos e se orgulha do cenário natural que exibe como uma verdadeira galeria de quadros, paisagens que casam perfeitamente com o dilema abordado. Aliás, o filme separa um dos andamentos mais lindos e marcantes que a cinematografia nacional produziu recentemente, quando Daniel e Sara dançam coladinhos ao som de Bonnie Tyler e o seu clássico brega Total Eclipse of the Heart, canção que surge com a força e a classe de uma poesia escrita por Pablo Neruda. Dificilmente você vai esquece-lo após conferir a cena em questão, especialmente quando o realizador consegue criar uma rima narrativa que se liga aos créditos finais, e que também tem a ver com a ideia de o rio escorrer para o mar. Um trabalho primoroso que coloca Aly Muritiba entre os cineastas contemporâneos mais interessantes do cenário brasileiro.

Texto originalmente publicado durante a cobertura do festival Cine PE 2021.

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