Crítica | ‘Dia D’ – Spielberg esvazia mistério extraterrestre em trama de perseguição ANÊMICA

No ringue, um lutador apanha sem piedade; na arquibancada, porém, a verdadeira ação do filme se desenvolve quando Daniel Keller (Josh O’Connor) é interpelado, de forma sutil, por agentes ao seu redor na plateia. A primeira cena é a metáfora perfeita para descrever Dia D (Disclosure Day), a nova incursão de Steven Spielberg ao universo dos seres de outras galáxias. Enquanto a ação coreografada acontece diante de nossos olhos, a essência da história é diluída a conta-gotas e sua relevância é sacrificada paulatinamente.

Mesmo cercado por enigmas, Dia D remete à dinâmica de A Casa de Dinamite (2025), de Kathryn Bigelow, no qual o roteiro ricocheteia a mesma ideia na visão de diferentes personagens em busca de sustentar o interesse do público em torno da promessa de um grande evento apocalíptico, sem jamais oferecer uma revelação à altura do prometido.

No papel do vilão Noah Scanlon, Colin Firth torna-se a ameaça imediata de Daniel e sua namorada Jane (Eve Hewson), eles precisam escapar por ter roubado dados confidenciais de sua empresa. Para contrapor a tensão da perseguição, o casal Jackson (Wyatt Russell) e Margaret (Emily Blunt) surge, a princípio, como um alívio cômico. Tudo muda quando Margaret vê um pássaro vermelho entrar pela janela de sua casa e, de repente, sua percepção da realidade passa a operar sob novas regras.

Sem compreender a própria situação, Margaret passa a falar várias línguas e a ler a mente de seus interlocutores apenas pelo olhar. O que inicialmente rende uma situação cômica para se livrar de uma multa de trânsito logo ganha contornos sérios: um dom sobrenatural de sentir a dor, os conflitos e as emoções alheias. Como apresentadora da previsão do tempo em um telejornal regional, Margaret encarna a própria ideia de transmissão. Ela perde a autonomia de suas palavras e passa a servir de intermediária para uma força maior.

Enquanto uma conexão misteriosa, quase telepática, aproxima Margaret e Daniel, o vilão Scanlon utiliza Jane como instrumento para rastrear os dois e recuperar as evidências que não devem chegar ao público. Spielberg demora a introduzir o extraordinário, mas entrega cedo demais o núcleo de sua narrativa. Em um diálogo expositivo entre Daniel e Jane, um dos principais mistérios praticamente desaparece. Embora Emily Blunt encontre algum frescor no tom cômico e disjuntivo de Margaret, nem ela, nem Josh O’Connor ou Colman Domingo conseguem elevar o enredo morno. 

Para fermentar a narrativa, o longa se converte em uma perseguição genérica que emula franquias como Missão: Impossível e James Bond — uma escolha inconsistente com a premissa dramática e filosófica do roteiro. Daniel e Margaret pulam em um trem em movimento como se isso fosse corriqueiro na vida de um matemático e de uma jornalista.
 
Se a promessa do título era o famoso “Dia D” da revelação alienígena e suas consequências, o roteiro minimiza as evidências da descoberta e se recusa a explorar a repercussão que ela inevitavelmente teria sobre a sociedade. Quando Margaret passa a controlar a percepção de quem a cerca, qualquer sensação de risco é eliminada. O conflito deixa de depender das escolhas dos personagens e passa a obedecer às exigências da trama. 

Distante do encantamento de E.T.: O Extraterrestre (1982) ou da sensibilidade de seu recente autobiográfico Os Fabelmans (2022), Spielberg, ao lado do roteirista David Koepp (veterano de Indiana Jones e Jurassic Park), erra a mão. Eles tentam construir uma ficção científica de forte dimensão político-social, mas a sufocam em disputas braçais e correrias. Dia D evoca o pior de Guerra dos Mundos (2005) pelo final anticlímax, que exige do espectador uma dose excessiva de ingenuidade diante de uma realidade marcada pela manipulação de imagens, pela desinformação e pela crescente desconfiança nas instituições. Ao fim, o cineasta desperdiça a oportunidade de dialogar com a memória afetiva construída por seus clássicos. 

Comparado aos sci-fi atuais Não! Não Olhe! (2022) e Não Olhe para Cima (2021), Dia D se assume mais como um suspense de ação do que como uma reflexão sobre laços entre espécies. Ao trocar o fascínio pelo desconhecido por uma sucessão de perseguições genéricas, Spielberg abandona justamente aquilo que tornou sua ficção científica memorável: a capacidade de transformar o encontro com o extraordinário em uma experiência humana. Dia D mira a grandiosidade de um evento histórico, mas termina reduzido a uma corrida sem destino. 

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Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Abraccine, Fipresci e votante internacional do Globo de Ouro. Nascida no Rio de Janeiro, mas desde 2019, residente em Paris, é apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.

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