Cuidado: muitos spoilers à frente.

Tem sido uma longa jornada para Pose.

A ambiciosa série estreou ainda em 2018 e, apesar de não ter feito o barulho que merecia à época, ascendeu a uma popularidade invejável e varreu o mundo com suas mensagens de representatividade e um retrato fidedigno do complexo cotidiano da comunidade LGBTQIA+ nas ruas de Nova York nas décadas de 1980 e 1990. Misturando o glamour e a liberdade dos ballrooms à crescente pandemia de HIV/AIDS, Ryan Murphy, aliando-se a nomes como Janet Mock, Our Lady J e Brad Falchuk, construiu uma das produções mais incríveis e necessárias da história da televisão, além de abrir portas para inúmeras atrizes transsexuais ao cenário mainstream.

Três temporadas mais tarde, Murphy sentiu que estava na hora de finalizar essa tocante história, não concluindo o arco das nossas amadas protagonistas, mas fechando um dos capítulos de suas vidas. E é claro que o showrunner não deixaria quaisquer pontas soltas – pelo contrária, construiria uma espécie de alicerce para gerações futuras que possam encontrar essa pérola do escopo audiovisual. Em um movimento bastante metalinguístico, as mensagens de adeus são corroboradas por um otimismo que há muito não vinha acompanhando as personagens, visto que, assumindo-se queer em uma sociedade extremamente preconceituosa, estavam sujeitas a se render às formas mais condenáveis de trabalho para sobreviver, ao menos até se encontrarem nas Casas.



Analisando a profunda oposição entre o episódio piloto e o series finale, o aspecto de maior desenvolvimento é a personalidade das personas envolvidas e de que forma elas enfrentaram os mais diversos obstáculos para triunfar. Blanca (Mj Rodriguez) e Pray Tell (Billy Porter), duas forças inigualáveis e recheadas de sonhos, apesar da clara diferença de idade e de experiência, unem-se uma última vez para mostrarem ao mundo que a prosperidade e a vontade de viver é muito maior do que as adversidades – e, em um último ato de bondade, Pray Tell percebe que realizou tudo o que queria e transferiu o que conseguiu para manter a jovialidade de Ricky (Dyllón Burnside) intacta e permitir que ele tivesse um futuro próspero, ainda que convivendo com um vírus mortal.

Trazendo tudo o que há de melhor aos dois capítulos finais, o diretor Steven Canals alcançou o impossível e resumiu do modo mais coerente possível cada um dos laços criados ao longo desses anos. É por essa razão que, por se tratar de uma resolução, as investidas melodramáticas poderiam ter maior presença, mas não é esse o caso – e, mesmo se fosse, quaisquer erros são facilmente perdoáveis pelas performances estrondosas do elenco. A morte de Pray Tell, que se transmuta em uma poética carta de despedida e um último ato político frente à negligência do governo quanto à comunidade LGBTQIA+, é recheada de saudades e de celebrações para honrar o legado de um homem tão importante quanto ele. Não obstante, Canals não recorre aos costumeiros flashbacks para relembrá-lo, e sim à sua materialização no tempo presente e no último baile que amarra a iteração.

Ainda que o trágico evento seja a base para o enredo final, nada é deixado de lado ou esquecido. Enquanto os episódios anteriores seguiram um padrão antológico, as linhas convergem para um mesmo ponto em que Elektra (Dominique Jackson), Angel (Indya Moore), Papi (Angel Bismark Curiel), Lulu (Hailie Sahar) e tantos outros desfrutam de sentimentos semelhantes sem perder aquilo que os tornam tão diferentes. O interessante é o fato de que nenhum deles deixa se levar por um luto tóxico ou dominante, aproveitando tudo o que aconteceu para perceberem que batalharam por tudo o que têm e que, agora, está na hora de retribuir para aqueles que foram abandonados pela família e se viram perdidos nas frias ruas nova-iorquinas.

Se os esforços estéticos são perfeitos sem querer ousar mais do que conseguem, as refinadas técnicas que Canals e seu time empregam merecem reconhecimento. Em comparação ao início da saga, a deslumbrante e vibrante paleta de cores por vezes manchava as telas em uma profusão frenética de glitter, passos de dança e figurinos chamativos que causavam uma explosão sensorial intensa; agora, tudo continua, mas com uma sobriedade que acompanha o amadurecimento das personagens sem se esquecer do refúgio artístico que criaram para se salvarem e se encontrarem em meio a tanto ódio – com destaque ao trabalho de Simon Dennis e Nelson Cragg numa progressiva e estonteante fotografia.

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Pose chega ao fim de um modo bastante esperado e, por essa razão, eximiamente bem-feito. É claro que as investidas se alastram para cada uma das figuras que alimentaram nossos sonhos e nos cativaram; porém, no final das contas, é Blanca quem precisava de um encerramento que a colocasse em frente a um espelho e a fizesse pensar: “nós conseguimos”.

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