Crítica | Estrelada por Camila Morrone, ‘Algo Horrível Vai Acontecer’ aposta na inquietude e na ANGÚSTIA narrativas



Algo Horrível Vai Acontecer já nos deixa instigados pelo título que carrega: a nova minissérie original Netflix nos apresenta a um bizarro e misterioso mundo que beira o escopo surrealista e que é centrado em uma narrativa que logo de cara nos causa intriga. Ao longo de oito episódios, a produção dá continuidade a um tipo de história que vem sendo trabalhada no cenário mainstream desde quando Nick Antosca tornou-se um de seus emblemas. Afinal, para aqueles que acompanharam ‘Channel Zero’ e ‘Vingança Sabor Cereja’, é quase imediato nos relembrar da sensação agourenta e singular que o realizador construiu – e que foi adotada sem escrúpulos e sem medo pela showrunner Haley Z. Boston.

O mais novo título da gigante do streaming soa como uma creepypasta embelezada – no melhor sentido do termo. O enredo acompanha Rachel (Camila Morrone), uma jovem que está viajando para o imponente chalé de inverno da família de seu noivo, Nicky (Adam DiMarco), para realizarem o tão aguardado casamento. Porém, durante a longa viagem de carro, Rachel começa a ter uma sensação derradeira de que alguma coisa ruim acontecerá na cerimônia, sendo envolvida em uma espécie de artimanha conspiratória que se reflete em eventos fora do comum e muito peculiares, como o casal encontrando um bebê aparentemente esquecido dentro de uma picape, ou Rachel cruzando caminho com uma misteriosa figura que parece alertá-la sobre o matrimônio como se a conhecesse há muito tempo.

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À medida que o tão aguardado dia se aproxima, a protagonista é arremessada em um crescente vórtice de insanidade, seja pelos excêntricos membros da família de Nicky – que incluem a hiperbólica irmã Portia (Gus Birney), a estranha matriarca Victoria (Jennifer Jason Leigh) e até mesmo a ex-namorada de seu futuro esposo, Nell (Karla Crome). A princípio, conversas entreouvidas, desaparecimentos estranhos de objetos e uma obsessão significativa pelo casamento levam Rachel a acreditar que eles querem utilizá-la como sacrifício em um ritual satânico; entretanto, quando as primeiras verdades vêm à tona, ela percebe que as coisas são muito mais complicadas do que parecem e que, agora, todos estão envolvidos em uma trama sobrenatural aparentemente inescapável.

Depois de suas suspeitas serem desmanteladas, Rachel descobre que a linhagem de que faz parte foi condenada após um homem quebrar um acordo centenário com a Morte, amaldiçoando cada membro de sua família a perecer no dia do casamento caso o matrimônio não fosse realizado entre duas verdadeiras almas gêmeas. A partir daí, ela começa a se questionar se os penosos agouros que a acompanham e uma sensação inevitável de que, talvez, seu destino já esteja selado: ou ela deve se casar e enfrentar uma possível ruína; ou, se recusar firmar os laços, a maldição será transferida para aquele que deixou no altar.

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Há uma certa pomposidade que acompanha o projeto e que, diferente do que poderíamos imaginar, não o transforma em um punhado de ambições sem sentido e explorações vazias sobre a vida e a morte. Pelo contrário, Boston sabe exatamente o tipo de história que nos quer contar e garante que o terror seja esquadrinhado em sua multiplicidade, mas dentro dos limites que existem neste tipo de arquitetura. O suspense sobrenatural, o thriller psicológico e até mesmo o horror religioso são remodelados em construções que pulsam surrealismo em um despojado e envolvente tour-de-force fantasmagórico.

A criadora se alia a um time extremamente competente de diretoras e roteiristas que não apenas incrementam a narrativa com homenagens a clássicos do gênero, como permitem que cada um dos personagens nos cause um certo tipo de desconforto – e, ao escolher Rachel como “guia”, a perspectiva mergulha em uma multidimensionalidade sem escrúpulos e sem deixar de ousar onde é possível. Não é surpresa que o time técnico e artístico aposte em planos exagerados, lentes “olho de peixe” e uma angustiante trilha sonora para nos enclausurar em um labirinto de segredos e mentiras de onde não há escapatória. E, ainda que certas escolhas não funcionem como deveriam, o potencial da minissérie é explorado em quase todo seu potencial.

A estrutura da obra oferece uma perspectiva diferenciada sobre os estudos filosóficos sobre destino, fortuna e morte, embarcando em uma exploração que reúne misticismo e metafísica em um mesmo lugar – por mais impossível que isso pareça. Lançando até mesmo algumas sutis críticas à burocrática instituição do casamento, o sucesso é reafirmado por atuações sublimes, com destaque a Morrone, recém-saída de uma aplaudida atuação em ‘Daisy Jones & the Six’, em um papel definidor de sua carreira; DiMarco em mais uma charmosa incursão performática; Birney em uma magnética rendição marcada pela insanidade; e Leigh como a controversa matriarca da família de Nicky.

Algo Horrível Vai Acontecer é uma grata surpresa da Netflix e uma das melhores minisséries do ano, até agora. Trazendo emulações certeiras e criativas de títulos similares, sem perder o vibrante comprometimento com a originalidade, a produção conta com um corpo de atores impecável e uma profunda atmosfera inquietante que nos faz devorá-la de uma vez.

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Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.

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Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.